POP FUN
O artista Jean Jullien faz seu universo lúdico despertar de papel, cores, traços pretos, tesoura e cola. Diversão inteligente que prova que a simplicidade está longe do banal
Por ERIKA KOBAYASHI
Aos 27 anos, o artista francês Jean Jullien já passou pelo Central Saint Martins College of Arts & Design e Royal College of Arts, em Londres, cidade onde mora. Ele faz ilustrações, capas de livros, camisetas, pôsteres, animações, curtas e o que mais tiver vontade. Sua cartela de clientes é bem diversa e inclui The New York Times, Anistia Internacional, Centro Pompidou e Last.fm. Mas as grandes pirações acontecem mesmo em parceria com o irmão músico, com quem cresceu consumindo muita cultura pop, brincando e jogando videogame.
Que influências você teve na infância?
Parece meio mala dizer isso, mas meus pais são pessoas inteligentes e interessantes. Minha mãe é arquiteta e curadora e meu pai, musicófilo. O básico da arte, design e música vem daí. Mas como muitos garotos da nossa
geração, crescemos com Ghostbusters, Marvel Comics, Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco, esse tipo de cultura pop. Isso catalisou na gente um interesse em ler as entrelinhas, ir além do aspecto imediato. É algo que eu tento ter em mente quando crio: atrair o público com uma estética simples, que fale com muita gente, mas com profundidade e humor, que faça as pessoas reagirem, rirem, pensarem.
Você brincava muito com elementos que aparecem no seu trabalho quando era pequeno?
O mais engraçado no meu trabalho é que ele não tem nada a ver com as coisas de onde ele vêm. Como disse, meu background cultural em que cresci era uma cacofonia visual em que a arquitetura modernista se encontrava com mangá e bande déssinée francesa. Foi apenas quando comecei a estudar que eu conheci o trabalho de mestres como Tomi Ungerer, Saul Bass ou Raymond Savignac, com quem você pode linkar mais meu trabalho do ponto de vista estético. Os aviões de papel vêm de experimentações com materiais, escalas e outros temas do design, quando eu estava estudando na Central Saint Martins. Eu ficava envergonhado de fazer ilustrações quando estudava Design Gráfico – todo mundo estava fazendo design profundo, teórico... Eu tentei entrar no esquema, mas depois de um tempo, acabei encontrando meu próprio processo de pesquisa e explorei da forma mais diversa que pude a essência dos meus desenhos para outras formas. Por que desenhar um monstro em duas dimensões se você pode dar vida fazendo um modelo em papel e larga escala. Quando você é criança, você curte ver desenhos de criaturas estranhas. Mas o que você quer mesmo ver é ela em toda sua grandiosidade – o que permite acreditar que eles existem de verdade.
Por que o universo que você cria é tão associado ao mundo infantil?
Hummm... Acho que a única explicação que eu posso encontrar é que eu quero criar imagens divertidas, simples, despretensiosas. A pretensão é uma característica adulta e a coisa mais complexa que um artista pode desejar é a simplicidade. Curiosamente, isso ainda é subestimado e ridicularizado. Para citar Picasso “Levei quatro anos para pintar como Rafael, mas uma vida inteira para pintar como uma criança”. Pode ser óbvio, mas para mim isso resume este debate. Eu quero fazer imagens que são simples o suficiente para serem apreciadas por muitas pessoas e ter uma narrativa ou profundidade intelectual.
Você se diverte trabalhando? Sei que é coisa séria, mas tive a impressão de que, às vezes, vocês se parecem com crianças grandes brincando.
É claro que me divirto trabalhando. Eu não continuaria se isso não me fizesse sorrir ou me empolgasse. É estressante, como qualquer outro trabalho, mas a recompensa é sensacional. Eu recebo e-mails bacanas de pessoas que dizem que gostam do meu trabalho, que ele as faz felizes etc. Isso não tem preço. Faço o que faço porque não conseguiria fazer outra coisa e sempre que tenho alguma dúvida sobre algo, um sinal do público faz isso valer a pena de verdade.
Você tem vontade de passar um tempo dentro dos cenários que você cria?
Muito! Tento não ser auto-centrado, principalmente com as narrativas. Você quer convidar as pessoas para entrarem no mundo que você cria. De uma certa forma, estou apenas construindo uma casa, e chamo as pessoas para darem uma olhada no que tem dentro. São as pessoas que dão vida a isso. Seria uma casa muito solitária se ninguém entrasse nela. Tento fazer meu
trabalho mais em conta para que as pessoas possam comprá-lo. Não consigo criar sem poder compartilhar com as pessoas.
O que você anda fazendo atualmente?
Estou trabalhando em duas narrativas épicas que estão mais ligadas diretamente à cultura pop que eu citei. Uma delas é um show com Niwouinwouin (a banda do seu irmão), com quarto telas bem grandes e música ao vivo. Será lançado em outubro de 2010 e ficará em turnê durante um ano (espero que chegue no Brasil!). Estamos ansiosos para saber se as pessoas vão se empolgar tanto em viver isso quanto a gente.
Apesar de você ter medo de ser "um artista que trabalha com papel", ele ainda é seu principal material de trabalho. Quais são as vantagens de trabalhar com este material?
Eu amo o papel e como é fácil de manipulá-lo. É um material muito básico, barato e há milhões de tipos diferentes de papel, então faz sentido experimentar muito com ele. Mas tenho me sentido atraído cada vez mais por outros materiais. Acho que a experimentação é a chave da evolução, do desenvolvimento do meu trabalho. As ideias são diferentes e originais, mas o que faz tudo muito empolgante é que sua forma é nova e inesperada. Eu acabo de voltar de uma residência artística em Cambridge, onde criei um vilarejo em uma academia (o nome da instalação é "The Village"). O público podia andar pela cidade e as pessoas tinham que virar a cabeça para conseguir ler os cartazes. Foi muito divertido e só foi possível porque pudemos construir de verdade. Atualmente, estou trabalhando em uma grande mesa de madeira chamada Table Man que será muito divertida também! Eu não quero parar de usar papel para sempre – estou preparando personagens gigantes em papel para o Pompidou em Paris –, mas quero ampliar os tipos de material que uso para continuar surpreendendo.
Como foi a experiência de trabalhar com madeira?
A série "Toys" foi um experimento que eu fiz no Royal College of Art e que está à venda na Galerie des Arts Graphiques, em Paris, mas são apenas protótipos. Fiz uma série de livros e um banco em madeira para um evento em Marseille e a editora francesa Eugène & Pauline estará lançando neste ano um brinquedo de madeira no qual ainda estou trabalhando.
O que é mais importante: fazer arte ou ser acessível?
Eu sempre quis que meu trabalho fosse acessível a todos. Exceto o vilarejo em Cambridge, que era uma instalação, então não tem como ser vendida. Sempre tento fazer meu trabalho mais em conta para que as pessoas possam comprá-lo. Não consigo ver o porquê de criar coisas se você não pode compartilhá-las com as pessoas de alguma maneira.
Você trabalha com clientes muito diversos. Como você os escolhe? Procura algum valor essencial ou característica para aceitar um trabalho?
De um modo geral, eu sou bem aberto a qualquer um, de verdade. O único cliente que eu recusei foi a rede de combustíveis Total, por razões óbvias – eles tinham demitido centenas de pessoas na França... Sempre me opus a trabalhar com grandes empresas como Nike, mas percebi que eles também promovem coisas bacanas e, quando se passa a trabalhar a ética, muitas coisas mudam. É claro que são empresas grandes, “do mal”, mas as coisas não são preto-e-branco também. Eu gosto muito de trabalhar para empresas como Anistia Internacional, The New York Times, Centro Pompidou porque são instituições fantásticas que fazem muito pela cultura, pelas pessoas em geral. Eu nunca entrei em contato com os clientes e sempre tive a chance de ser procurado por eles. Mas eu estava prestes a mandar um e-mail para a Anistia Internacional para disponibilizar meu trabalho quando eles entraram em contato comigo. É maravilhoso produzir objetos com edição limitada, e também é ótimo criar imagens que não tem um propósito comercial. Não quero escolher fazer uma coisa ou outra, pois elas não são assim, exclusivas. Quero continuar fazendo um pouco de tudo.
Como aconteceu a sua parceria com a Abana? Você se preocupa com esse tipo de causa?
Abana é uma associação humanitária que ajuda crianças do Burundi, vítimas da guerra, AIDS e outras coisas terríveis. Meus pais sempre foram membros desta associação, desde que eu me conheço como gente. Meu pai foi presidente da Abana por alguns anos e eu sempre fiz coisas para eles porque eu realmente acredito na causa. Recentemente, fui convidado pelo "Part of It" para fazer o design a ser impresso em sacolas e os fundos arrecadados serão doados para uma associação que escolher. É claro que eu escolhi a Abana. Tenho muita vontade de fazer mais trabalhos humanitários, acho que é importante fazermos a nossa parte e provar que o design e a criatividade não são apenas para uma elite, mas podem ser um instrumento prático a ser usado para boas causas. As imagens têm um poder incrível de persuasão, não são apenas entretenimento. Elas são muito eficientes e não deveriam ser subestimadas.
Em uma entrevista, você disse que deseja fazer coisas belas, que provoquem mudanças. Que tipo de mudanças?
Eu realmente gostaria de, um dia, trabalhar em uma campanha que use pôsteres e imagens que possam ser colocados no local onde costumavam estar: nas ruas. Para defender ideias e promover a reflexão. Quero que um
morador de rua possa apreciar meu trabalho da mesma maneira de quem o vê em seu computador. Quando falo em mudança, falo em mudança visual, em aprimoramento. Imagens jornalísticas, educativas, de entretenimento,
de comunicação, inteligentes - são valores que eu adoraria que meu trabalho levasse. Espero ouvir um dia de um adulto: “lembro do seu traço da minha infância, eu adorava seu trabalho”. Se ele guardar isso com a mesma
afeição e amor que eu e meu irmão temos pelas coisas com que crescemos, então serei feliz.
E o que você considera belo?
As coisas que me fazem feliz.


