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Primeira Viagem: O lado bom do cansaço

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Primeira Viagem: O lado bom do cansaço

Publicado em 28 março 2012 por eduardo

Por TATIANA CHIARI*

Ilustração BWOKAA

Outro dia, uma amiga-mãe deu bronca numa amiga-não-mãe na minha frente. A amiga-não-mãe estava dizendo que não poderia nos encontrar certa noite porque estava muito cansada. Minha amiga-mãe foi rápida: afirmou que não dormia direito há meses por causa do nascimento da segunda filha, que estava sem babá, meio gripada, mas que ia nos encontrar de qualquer jeito. Afinal, ela disse, nossa amiga-não-mãe ainda não conhecia a nova dimensão da palavra cansaço.

Vou tentar explicar. Depois que a gente é mãe tem sempre um cansacinho ali do lado. Dificilmente você vai dormir uma noite inteira de novo. Se seu filho não acordar, você vai acordar para ver se ele está bem. Você nunca mais vai ter a cabeça ligada numa coisa só. Se está no trabalho, vai pensar no filho. Se está com o filho, vai lembrar do trabalho. Viver assim, gente, cansa…

Como a natureza é sábia, ela nos compensa de diversas formas. Sim, estamos sempre mais cansadas, mas infinitamente mais produtivas. No trabalho estou mais focada, dando menos atenção às picuinhas. Descobri que sou melhor profissional sendo mãe. E sou uma mãe melhor fazendo o trabalho que amo.

Sim, estamos sempre cansadas, mas infinitamente mais criativas. Quando sua cabeça está em dez lugares simultaneamente e você percebe que virou um polvo e consegue resolver oito coisas ao mesmo tempo, você esquece a insegurança e lembra que, sim, as ideias vão surgir. Os problemas vão se resolver. A vida vai andar. E bem.

Sim, estamos sempre cansadas, mas infinitamente mais sensíveis. No melhor sentido da palavra. Sensíveis para perceber o outro, para dimensionar os problemas, para chorar pelo triste e pelo alegre e para só ficar em silêncio se o momento exigir.

Sim, estamos sempre mais cansadas, mas infinitamente mais animadas. Não, eu não aguento balada até de madrugada porque quero estar bem quando meu filho abrir a porta do nosso quarto chamando pela mamãe e pelo papai. Mas sei aproveitar como ninguém a noite em que encontro minhas amigas para um “queijos e vinhos”. Vou durar até meia noite, uma hora no máximo, mas vou ter curtido cada minuto.

Naquela noite, minha amiga não-mãe foi a primeira a chegar àquele compromisso. Todas nós nos divertimos muito. As mães também. Porque sim, estamos sempre mais cansadas, mas infinitamente mais felizes.

* Tatiana Chiari é jornalista, repórter da TV Record e mãe de Marco, de 2 anos e meio

Coluna originalmente publicada na n.magazine de verão.

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Coluna: 12 belos livros infantis

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Coluna: 12 belos livros infantis

Publicado em 22 dezembro 2011 por eduardo

Por Carolina Tarrío

Quem tem medo do lobo?

O jornal traz uma notícia apavorante: o lobo voltou. Alarmadas, várias de suas vítimas (chapeuzinho vermelho, os três porquinhos, a cabra e seus sete cabritinhos…) começam a se reunir na casa do senhor coelho para comentar o assunto – e consolar uns aos outros. Então, eis que quando o algoz finalmente aparece, eles percebem que estão em maior número. Assim, a fábula se inverte, para comprovar a antiga máxima de que juntos, somos mais fortes.

Livro: O Lobo Voltou (Brinquebook) :: Autor: Geoffroy de Pennart ::

 

Entre dois poderes

Com uma ideia singela – uma menina que mora no alto de uma colina, em meio a dois castelos cujos proprietários se odeiam –, a autora aborda um tema espinhudo: como as brigas entre adultos afetam as crianças. Depois de sofrer com os desentendimentos de seus dois vizinhos estando, literalmente, no meio da batalha, a protagonista consegue chamá-los à razão. As ilustrações também vão dando dicas da situação e se agigantando na página ou ficando modestas à medida em que o tom da discussão sobe ou se ameniza. 

Livro: Meu Reino (Cosac Naify) :: Autor: Kitty Crowther

 

Fantasia pouca é bobagem

Do mesmo autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate, este livro para os mais crescidinhos (a partir dos 7 anos), conta as desventuras de James que, maltratado por duas tias megeras, livra-se delas quando algo mágico acontece. A partir de então, ele empreende uma incrível viagem. Com frases curtas, vocabulário simples e diálogos que arrancam gargalhadas das crianças, é diversão certa – e um enorme estímulo à imaginação.

Livro: James e o Pêssego Gigante (34 Letras) ::  Autor: Roald Dahl

 

A riqueza das palavras

O que dar de presente a uma princesa que já tem tudo? João, menino simples, empenhou suas melhores habilidades em preparar-lhe um bolo caprichado. Mas tanto lhe aconteceu até chegar ao castelo, por fim, seu presente acaba sendo algo bem melhor: uma incrível história. Bem escrito, o livro revela o valor que existe em nossas atitudes – quando motivadas pelas melhores intenções.

Livro: João Esperto Leva o Presente Certo (Farol) :: Autor: Candance Fleming

 

Embriagado de si

O personagem, Melchior, está cansado de não se destacar, de não ser o maioral em nada. Ele não é o melhor aluno, nem o melhor dançarino, nem o melhor esportista… E embora se esforce, sempre há alguém que o supera. É com a ajuda de um gênio bem moderninho que vai descobrir algo importante neste livro escrito pelo artista plástico Vick Muniz e ilustrado pela cantora Adriana Calcanhoto: talvez ser insuperável não traga tantas vantagens assim.

Livro: Melchior, o mais melhor (Cobogó) :: Autor: Vik Muniz

 

Por que somos tão insuportáveis?

Qualquer mãe já se sentiu na pele da progenitora da personagem deste livro: Prudência. Ela chama sua filha, insistentemente, pedindo-lhe para arrumar o quarto e realizar várias tarefas antes de sair. Mas as páginas, repletas de belíssimas ilustrações, nos devolvem tais requisições como uma voz ao longe, algo totalmente aborrecido, que se esvai perante a riqueza da vida. Afinal de contas, outras prioridades instigam Prudência. Ela está em seu mundo, observando as miudezas que só crianças sabem saborear. E como é cruel – e ao mesmo tempo inevitável – cortar-lhes o barato!

Livro: A Grande Viagem da Senhorita Prudência (Ática) :: Autor: Charlotte Gastaut

 

Que mundo é esse?

Ao longo das páginas, a autora vai descrevendo o desenvolvimento de um bebê: contando como cresce, o que ouve dentro da barriga da mãe, como se balança… Mas as descrições são apresentadas em forma de charada e, a cada passo, o livro faz ao leitor a seguinte pergunta: quem sou eu? Ótimo para quem tem a partir de 5 ou 6 anos e vai ganhar um irmãozinho.

Livro: Quem Sou Eu? (Companhia das Letrinhas) :: Autor: Sílvia Zatz

 

Sempre que possível

Com ilustrações em preto e branco tão singelas quanto suas frases, o livro apresenta com delicadeza o relacionamento entre pai e filha. “Às vezes eu quero brincar e meu pai não quer. Às vezes ele quer e eu não”, conta. E assim vai formando um retrato dos encontros e desencontros cotidianos que pais e filhos experimentam ao longo da vida.

Livro: Papai e eu às Vezes (Callis) :: Autor: María Wernicke

 

Quer trocar?

O que você daria por uma borboleta? Numa divertida brincadeira de imaginação, sucessivas trocas vão acontecendo, aumentando em ambição, até se alcançar a conquista de cachoeiras, exércitos, um mundo inteiro. E pensar que tudo teve início com uma singela borboleta… O livro propõe um exercício de reflexão sobre a posse e apresenta uma alternativa ao acúmulo: liberdade.

Livro: Um Balão por um Bacamarte (Cosac Naify) :: Autor: Alastair Reid

 

Objeto transicional

Dramaturgo famoso, ganhador de um prêmio Pulitzer e marido de Marilyn Monroe, Arthur Miller conta nesta história o relacionamento de uma menina e seu cobertor. Ela ganha a manta logo ao nascer e a alça à categoria de objeto transicional: aquele que remete as crianças à mãe, acalmando e provendo bem estar. Com frases curtas, o cotidiano da garotinha e seu crescimento vão sendo descritos em detalhes. Mas o que ela irá fazer quando precisar se desfazer do cobertor? A edição é bilíngue.

Livro: O Cobertor de Jane (Companhia das Letrinhas) :: Autor: Arthur Miller

 

Os melhores sentidos

Cris tinha um olfato fora de série. Conseguia perceber, pelo aroma, o que havia para o jantar ou quando o pai estava chegando, antes mesmo de ele entrar em casa. Seu irmão, é claro, não via nenhuma graça em tal talento. Uma história sobre o ciúme – e a incrível capacidade que só os irmãos têm de nos fazerem sentir melhor e serem nossos confidentes.

Livro: O Nariz da Cris (Brinquebook) :: Autor: Ilan Brenman

 

Esconde-esconde

Este livro sobre um menino que sonha em ser invisível traz junto uma brincadeira: algumas páginas em acetato vermelho sobrepostas a ilustrações feitas nessa cor e em azul fazem certos traços, pessoas e objetos aparecerem ou desaparecerem das páginas. Assim, o que o menino imagina, vai sendo traduzido também graficamente. Mas será que não ser visto é tão bom assim? A história ensina que se fazer presente requer coragem, mas tem suas recompensas.

Livro: O Invisível (Editora 34) :: Autor: Alcides Villaça

 

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Primeira Viagem: A descoberta do pai

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Primeira Viagem: A descoberta do pai

Publicado em 19 dezembro 2011 por eduardo

 Por João Erbetta Ilustração Bwokaa

Como ser pai sem ter tido um? Diante desse dilema, por muito tempo foi mais fácil eu simplesmente não pensar nessa ideia. Meu pai morreu quando eu tinha 2 anos de idade. Fui muito bem criado pela minha mãe, mas nunca tive a figura paterna ao meu lado. O tempo passou. Eu nunca me senti apto a ser pai. Cadê as referências? Como virar um modelo para alguém se eu não tinha nenhum? Casei com uma pessoa encantadora que também não tinha a maternidade como meta principal de vida e, por longos 10 anos, não pensamos no assunto.

Lembro da primeira vez em que pensei em ser pai. Foi quando resolvi parar de fumar. Refleti: “não posso ter esse vício e ter um filho”. Parei de uma vez. O primeiro passo estava dado.

Sessões de terapia depois, entendi que tinha que começar a minha história familiar e esquecer o passado (a morte prematura do meu pai) e, para isso, teria que experimentar a paternidade tendo ou não modelos. Que eu me virasse, ora bolas!

A gente acabou indo morar fora do Brasil, e, em 2008, nascia Martina, em plena capital norte-americana. A coisa mais linda que eu já vira na vida. É muito interessante perceber que, ao mesmo tempo em que ter um filho é a coisa mais sensacional e mais intensa da vida, é também a mais natural. É como andar de bicicleta sem ao menos se lembrar de como se aprendeu.

Sou um pai participativo e não só estava presente no parto como ajudei e cortei o cordão umbilical da pequena. Minutos depois ela estava numa bandeja, sendo limpa por enfermeiros. Ela segurava o meu dedo com sua mãozinha minúscula e olhava pra mim – chorando, claro. Ali eu virei pai, assim, de uma hora para outra. Me entendi com ela, com minutos de vida.

A experiência paterna é única e exclusiva para cada indivíduo. No meu caso, a vida se descomplicou. Depois que Martina nasceu, comecei a pensar só nas coisas importantes da vida. Noites em claro pós-nascimento, fraldas sujas, nada disso me incomoda ou incomodou. A vida com a minha filha é infinitamente mais legal do que a minha vida antes dela. Estou sempre viajando a trabalho e não vejo a hora de voltar para vê-la, brincar com ela e tentar equilibrar educação, amor e auto-estima, ingredientes básicos para se enfrentar esse mundo complicado por aí afora. Talvez seja para isso que “servem” os pais: dar condições fundamentais para que seus filhos sejam felizes e tentem construir um mundo melhor à nossa volta.

João Erbetta, 39 anos, é guitarrista, compositor, produtor musical e pai de Martina

 

Coluna publicada originalmente na n.magazine de Primavera/2011

 

 

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Primeira Viagem: as coisas simples da vida

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Primeira Viagem: as coisas simples da vida

Publicado em 02 dezembro 2011 por eduardo

Colunista :: Mariana Sgarioni

 

Que a minha vida mudaria completamente depois do nascimento de meu filho Benjamin, eu já estava cansada de ouvir falar. Mas ninguém me contou como a rotina com um recém-nascido, antes de qualquer coisa, me faria mudar de valores. Eu não fazia a menor ideia de que tudo aquilo que era prioridade para mim até poucos meses passaria a ser totalmente dispensável. E o que sempre foi banal, viraria motivo de comemoração, o supra sumo da bossa. Parece até que a recém-nascida aqui sou eu, aquela que está começando uma nova vida.

Quer ver? Eu passo o dia ansiosa, esperando o momento sublime em que Benjamin soltará pum. Isso mesmo. Um pum. Mesmo que seja um mísero peidinho, eu e meu marido comemoramos como se tivéssemos ganho na Mega Sena acumulada. Outro dia me peguei cantando para Ben (e dançando, evidentemente) Festa no Apê, do Latino. O motivo: uma sequência de puns estratosféricos que estavam presos há horas, torturando meu pequeno filho. Disse o médico, em sua linguagem peculiar, que meu filho estava com um “Intenso Meteorismo Intestinal”. Trocando em miúdos, isso deve significar que ele tem puns cósmicos intergalácticos dentro da barriga. Coisa que eu já sabia mesmo sem estudar astronomia.

Cocô é outro evento digno de aplausos em casa. Gosto tanto quando isso acontece que semana passada levei lápis de cor ao pediatra para mostrar a coloração do cocô de Ben, um amarelo esverdeado, tendendo ao ocre, às vezes meio laranja – me lembra um pouco o tom do Coliseu, de Roma. Na série das nojeiras, os arrotos não ficam de fora e também são celebrados – desde que não venham com vômito, claro, que daí vira motivo de preocupação.

Tudo isso hoje para mim é mil vezes mais importante do que qualquer outra coisa por uma simples razão: meu filho sofre demais com os gases, cólicas, refluxos e outras variações do trânsito intestinal. E ver filho sofrer é algo insuportável, não existe dor maior.

O que dizem os mais velhos é que é preciso ter paciência. Grande sabedoria, sobretudo no que diz respeito a um recém-nascido, que ainda não vive na velocidade da luz em que nós, adultos da era cibernética, vivemos. Um bebê exige que mudemos os valores começando pela chavinha do tempo – ele não vai parar de chorar em dois minutos, nem vai dormir em cinco. O tempo dele não é superficial e curto como o nosso. Ele é longo, intenso, exige disposição e envolvimento.

Muito além do que uma ode à escatologia, a convivência com um recém-nascido nos ensina a aprofundar nossas relações, a mergulhar numa linguagem que não é verbal, a entender que nada é pra ontem. Trata-se de um novo planeta em que o dia passa das 24 horas. Conhecer este ritmo nos torna mais humanos e nos mostra que a verdadeira essência da vida é muito mais simples do que imaginamos. Está bem ali – debaixo do seu nariz. Ou melhor, da sua fralda.

* Mariana Sgarioni é jornalista e mãe de Benjamin

Coluna originamente publicada na n.magazine

 

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