A filha de Woody Allen e os abusos nossos de cada dia

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Mia Farrow e a filha, Dylan, na infância

O post que mais bombou nas redes nesta semana foi a carta de Dylan Farrow, filha de Woody Allen e Mia Farrow, relatando os horrores dos abusos supostamente cometidos pelo pai quando ela tinha apenas sete anos de idade.

É um depoimento comovente, estarrecedor. A primeira tentação aqui é julgar se Allen é culpado ou não. Mas gostaria de convidar a uma reflexão, anterior ao julgamento que nos torna praticamente seres divinos, acima do bem e do mal, sobretudo quando se trata da vida alheia: olhando para o nosso próprio umbigo, será que nós, pais, estamos de fato atentos aos abusos (todos eles, inclusive os psicológicos) aos quais nossos filhos estão vulneráveis?

Recebi dados recentes de um projeto muito interessante, disponível para leitura e download aqui, que informa que 1 em cada 5 crianças sofre de abuso sexual. Somente 1 em cada 10 casos é relatado. E 87% destes casos ocorrem dentro da família ou envolvem pessoas da convivência e confiança da criança. Isso é sério e está acontecendo agora, neste minuto em que você lê este post. Eu conheço casos (mais de um) de amigas e amigos próximos, de classe média alta, que foram abusados na infância – portanto, este crime é muito comum e não requer saldo bancário. Quando eu tinha 9 anos de idade, fui rapidamente aliciada pelo avô de uma amiga, no quarto dela, enquanto meus pais conversavam calmamente na sala, sem saberem de nada. Desconfiei que algo estava errado e saí correndo – ainda assim, nunca contei isso para ninguém. Só para dizer aqui que, se você começar a remexer seu baú de memórias, vai encontrar alguma história desagradável (sua, ou de alguém próximo). Há autores que afirmam, sem medo de errar, que na nossa sociedade, a grande maioria dos homens e mulheres foi abusada sexualmente na infância.

Meu filho Benjamin, prestes a completar 4 anos, está começando a sentir vergonha de tirar a roupa em lugares públicos. “Mamãe, eu preciso saber de uma coisa: quem pode e quem não pode ver meu pinto?” Eu ri ,e disse que ele é quem deveria resolver isso. E que, de qualquer forma, o pinto era algo só dele – e que, portanto, só ele mesmo estava autorizado a tocá-lo.

Não sei se respondi corretamente, afinal fui surpreendida por um assunto que não estava preparada para resolver de imediato (aliás, como a maioria…). Entretanto, acredito que haja dois jeitos de evitar abusos sexuais: olho vivo dos pais, e educação dos filhos. As crianças devem conhecer desde cedo seus próprios corpos, ter intimidade com eles, e saber quando devem dar limite aos aos adultos. Precisam entender que amor (que é o que elas procuram) é diferente de abuso. Se não querem ser tocadas ou mesmo abraçadas, devem ter a consciência de que podem (e devem) dizer não. E principalmente precisam confiar nos pais para sempre contarem sobre qualquer situação que as tenha incomodado. Se os pais não acreditam na palavra da criança, a quem ela vai recorrer quando precisar?

Porque omissão e descaso dos pais fazem parte da violência. A terapeuta argentina Laura Gutman resume nesta frase o que eu penso sobre casos de abuso (de todos os tipos, não apenas os sexuais): “Considero que a pouca atenção que os pais dão ao assunto é ainda mais devastadora do que o abuso em si. E, por mais que pareça muito duro o que quero explicar, o abuso necessita indefectivelmente do aval da mãe. A mãe abusada, desamparada, humilhada e submissa precisa se salvar e para isso entrega seu (sua) filho (filha). Não há abuso possível de um filho ou filha sem o consentimento da mãe”.

Deixo esta afirmação para pensarmos, todos juntos, como uma boa lição de casa.

Foto: reprodução

 

 

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