Adoção: uma história com final feliz

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Em 12 de setembro de 2013, eu e meu marido viramos pais de um menininha linda, feliz e saudável, então com 1 ano e 1 mês. Foi o ponto final em uma espera de nove anos e o pontapé inicial em uma grande e deliciosa aventura.

Esta história começa em agosto de 2004, quando decidimos tentar a gravidez e aos poucos fomos descobrindo uma doença feminina que ainda é um mistério para os médicos, a endometriose. Implacável e silenciosa, ela pode gerar infertilidade.

No meu caso, foram quase sete anos de visitas a médicos – alguns excelentes, outros péssimos -, exames, cirurgias, esperanças e frustrações, uma Inseminação Artificial e uma Fertilização In Vitro (FIV), além de gastos altíssimos, já que a maioria dos convênios não cobre especialistas e procedimentos de reprodução humana. Até voluntária em uma pesquisa sobre a doença me tornei. Só que todo este desgaste físico, mental e financeiro chegou ao limite e, enfim, decidimos – juntos, sem preconceitos e pelas razões certas, o que é fundamental – adotar uma criança.

O processo para isso, se você opta pelo caminho legalmente correto, não é um mar de rosas. Ao contrário, é lento, burocrático e desagradável, podendo durar de dois a seis anos. Você é submetido a entrevistas com psicólogas e assistentes sociais, tem sua vida devassada, precisa fazer um curso no Fórum e quase sempre participar de grupos de apoio. Mas ainda assim acho melhor enfrentar tudo isso do que cair na ilegalidade.

Não faço julgamentos. Diante de tanta morosidade, principalmente em um país onde há milhares de crianças à espera de uma família e milhares de casais desesperados para terem filhos, é uma tentação flertar com outras alternativas. Não é difícil achar mulheres que querem vender seus bebês, diretores de abrigos que entregam crianças para amigos ou amigos de seus amigos, advogados especializados em legalizar adoções à brasileira (aquela em que a mãe biológica “dá” seu bebê a estranhos, muitas vezes inclusive forjando vínculos familiares) e até médicos dispostos a falsificar as chamadas DNVs (Declarações de Nascidos Vivos), para que os pais adotivos apareçam como biológicos. Obviamente alguns destes personagens têm boas intenções, só que, além de cometer um crime, você ficará constantemente com medo de que algo dê errado, seja um arrependimento da mãe biológica ou a denúncia de um vizinho, até conseguir regularizar a situação de alguma forma, que talvez também tenha que ser ilegal.

Eu e meu marido refletimos muito sobre tudo isso, e também sobre o desejo que ambos tínhamos de não fazer nada que nos impedisse de no futuro contar a verdade para nosso(a) futuro(a) filho(a), e chegamos à conclusão de que nada valeria a pena a não ser o caminho correto pelo Fórum. Que, de novo, é bastante complicado e às vezes injusto. Para dar apenas um exemplo, apesar de ser obrigado a preencher uma longa ficha com o perfil da criança que deseja, você pode ser indicado para uma que foge totalmente disso, por erro de alguém, e ser punido, tendo que passar por reavaliações psicológicas e voltar para fim da fila de espera, perdendo meses preciosos.

A escolha de um perfil específico, aliás, é o aspecto mais importante da adoção legal, em minha opinião. Não tente abrir tanto o leque só porque tem pressa, ansiedade e um desejo enorme de ter um filho. O segredo do sucesso é achar uma criança que caiba em sua realidade. Se não se sente apto(a) a criar uma mais velha ou uma com graves problemas físicos ou mentais, nem tente. A chance de dar errado é enorme e as consequências são terríveis para todos os envolvidos.

O lado bom é que todos os ressentimentos e tristezas ficam para trás quando finalmente o dia chega. No nosso caso, isso aconteceu quando a linda bebê que se transformaria em nossa filha, depois de alguns minutos nos observando durante nossa primeira visita ao abrigo, esticou seus braços pedindo colo. Eu era cética quanto a certezas e amores instantâneos, desconfiava de relatos de amigos que adotaram, mas ali sentimos na hora que era ela.

E assim foi. Dois dias depois de a conhecermos ela já estava em nossa casa, dando uma reviravolta no nosso mundo e na rotina, mas trazendo uma alegria difícil de descrever, enorme e plena. Diariamente a admiramos, totalmente encantados, e vibramos com cada conquista e cada evolução: os primeiros passos, as primeiras palavras (papai e mamãe são as melhores!), o primeiro abraço, cada sorriso. O primeiro mergulho no mar, o primeiro passeio a cavalo, o primeiro voo de avião, o primeiro dia na escolinha. E finalmente a nova certidão de nascimento, já com nossos nomes como pais e nossos sobrenomes junto ao nome dela.

Se você está pensando em adotar ou já está no processo, anime-se! Muna-se de uma dose extra de paciência, converse com todos que já viveram a experiência, leia muito – desde sobre possíveis sequelas causadas pelo crack e outras drogas até termos médicos que serão usados pela assistente social durante a apresentação da ficha da criança –, estude, reflita e se prepare ao máximo para receber seu filho. Cada segundo da espera valerá a pena quando ele finalmente chegar! Desde já torço por você.

 

Ana-Davini_perfil


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