Tosco pai: tá pintando o 7!



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Cresceu e todo dia cresce mais um pouco.

Chorava, nervosa, crítica ao que estava acontecendo. Fui te ver no berçário, pensei que podiam te trocar e não ser a minha filha na cama do berçário, tu foi a criança que foi pra lá sem banho, o primeiro seria dado por mim, no dia seguinte. Foi fácil identificar, meus olhos procuravam Alice meu coração também. Eu tinha sono, medo e tudo mais que vem com o parto, uma responsabilidade estranha crescendo no peito, logo em meu peito que sempre teve o oposto no currículo.

– É essa aqui, pai! Quer que acorde?
– Não, por favor, não acorda, não sei o que fazer se ela chorar…

Dei seu primeiro banho, com ombros tensos, neles estava desenhada minha insegurança e nenhuma prática.

Cacá, o pediatra, segurou meus ombros, pediu que eu relaxasse, afinal, eu estava quase afogando a guria com minha tensão, era só um banho, era só uma criança e era um nascimento triplo, filha, mãe e pai. Ninguém ali se conhecia e sabia o que estava fazendo direito. Entendi, e o banho virou minha mais forte corrente de afeto, um mês dentro de um balde, depois no chuveiro colada em meu peito.

DSC08553Nosso entendimento nunca foi instantâneo. Eu demoro pra te entender, é difícil abandonar os vícios da infância, é difícil quando alguém muito menor que tu olha nos teus olhos e diz: cresce! Tu me diz isso todo dia e eu ainda tenho dificuldades de entender quem é a criança nessa história. Por cronologia, é tu, por sabedoria sou eu.

Eu lembro das nossas brigas, eu lembro do quanto tua mãe é importante nessa nossa vida, quanto me ajuda quando ela te pega no colo e diz, calma (é pra mim também). Te acalma com o colo dela e, aos poucos, de nossos trovões vem o arco-íris cheio de cor e entendimento.

A primeira vez que tua mãe saiu de casa, só para dar uma voltinha no quarteirão, tu não deixou, eu não deixei, mas ela foi e a gente ficou se encarando e se conhecendo, um estudando o outro, até que tu chorou. Fome, saudade, dor? Eu não sabia. Eu sabia apenas que era muito alto e eu não sabia lidar com nada que estava acontecendo. Eu só queria que tu soubesse falar. Hoje, às vezes até peço para que fale um pouco menos. No entanto, cala a boca jamais. Isso dói mais que palmada. Insisto pela tua voz.

Achamos um jeito. Coloquei uma música, dançamos e, aos poucos, a tempestade foi diminuindo e eu entendi teu choro de insegurança e saudade.

A gente claramente não se conhecia muito bem, eu era apenas o cara do banho. O resto vinha dela, a voz, o alimento, a pele. Tu sempre gostou tanto da tua mãe que me chamar de pai foi das primeiras grandes dificuldades que apareceram no teu caminho. Depois compreendi também que não era dificuldade nenhuma, a figura de amor pra ti se chama mãe. Hoje, perto dos 7, sempre vem…

– Mãe, quer dizer, pai, cê pode comprar um milk-shake pra mim?
– Mãe, quer dizer pai, posso assistir televisão?
– Mãe, quer dizer pai, cê faz pipoca?

O que era antes uma preocupação hoje é um orgulho. Poucas coisas são mais legais que essa confusão.

Uma delas é viver essa tua expectativa por cada idade. Teu aniversário de um ano teve muita gente querida, deu muito pra entender porque tu veio pra esse mundo. Os dois, foram mais discretos, mas com uma banda tocando – enquanto os outras crianças tapavam os ouvidos, tu dançava e cantava feliz. Aos três, tuas primeiras amigas chegaram e foram tão bem recebidas, tu pegava elas pela mão e não soltava, ali entendi teu companheirismo, tua alegria em receber, tua vocação para ser uma grande amiga. Quatro anos, quatro festas, pela primeira vez tua avó não vem, tu vai até ela, enrola doces e viajamos sozinhos, teu primeiro aniversário longe de tua mãe, mas perto de todos que te amam. Teve um choro por Skype, teve mais um pouco da saudade, também teve uma menina corajosa que levantou a cabeça aproveitou o dia que considera o mais maravilhoso do ano. Aos cinco, teu primeiro aniversário na escola, e na festa oficial na praça quem não estava era eu, aprendemos a lidar com ausência de uns, presença de muitos. Percebe nesse dia a importância que tem nesse mundo. Aos seis o casual Frozen. Quando vê todos amigos de teus pais, que são teus amigos também, vestidos de branco, bonecos de neve num dia de sol de julho, tu olha para a praça que cresceu todos esses anos pergunta e exclama correndo:

– Tudo isso pra mim!?

Sim, é tudo pra ti.

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Agora vem os sete anos, dois dedos a mais na segunda mão. Agora tu faz parte de uma banda e é dona de uma incrível personalidade. Ela é capaz de me fazer rir e me decepcionar. É capaz de me trazer alegria e impaciência. A tua personalidade – que é um pouco minha e da tua mãe – ainda orienta meu caminho nesse mundo.

Quando eu tinha a tua idade, eu pesava sobre o mundo, achava que ele só poderia existir porque eu existia. Me questionei na época, com todo meu entendimento infantil, “se eu for, vai tudo embora” Hoje, perto dos 37, descobri que não é assim, porém percebi o porque de eu estar nesse mundo. A ficha caiu há poucos dias. Uma semana. Voltei do trabalho tarde, tu ainda estava acordada e eu muito cansado. Tu com saudade, aquela que dá quando a gente passa o dia inteiro sem se ver e me pediu pra eu contar uma história. Eu, cansado, peço que essa noite não tenha história. Deito na tua cama, tu transforma tua pequena decepção em alegria. São raras às vezes que deito na tua cama e, esperta, sabe aproveitar muito bem esse momento.

– Eu sempre gosto de dormir com um bichinho de pelúcia, e você é o meu melhor bicho de pelúcia.

Dou risada e, aos poucos, abraçados, vamos adormecendo. É mais um dia que passa, mais um dia que envelhecemos. Sinto teu sono pesado e deixo a tua cama…

– Pai, cê vai embora?
– Vou ali pegar uma água, depois acho que vou pra minha cama.
– Cê volta?
– Sempre volto, eu sempre venho olhar se tu ainda está de coberta. Sempre venho te dar mais um beijo de boa noite.

Eu tô nesse mundo pra te ver crescer, pra velar teu sono e te dar bom dia. A parte das brigas e impaciência vem nesse pacote “mãe, quer dizer, pai”, é uma responsabilidade muito grande fazer um belo ser humano além de ser muito confuso também. Tem muito sim e muito não envolvidos, além de muitas pessoas envolvidas. É como fazer uma festa! Afinal, todo ano contamos com a ajuda da sua avó em dobro, que vem fazer doces, ou melhor, carinhos enrolados por duas mãos, envoltos em açúcar. A tua outra avó esteja onde estiver olha de longe todo esse amor. Lembra a gente comprou uma flor de violeta, flor preferida dela, colocamos na cozinha pra senti-la mais de perto.

_AY_5128Há poucos dias do teu aniversário, ali está ela na cozinha toda florida, cheia de vida, enquanto a outra avó mexe o tacho e me chama para ajudar e assim poupar seu braço. Para que eles não falhem na hora do abraço ou para dar os últimos arremates na fantasia de sol que vais vestir em tua festa. Tu é, sim, o nosso sol, esse mesmo que tenho tatuado no braço com o teu traço.

Eu sou um planeta pequeno que gira em torno de ti pra manter meu coração quentinho e iluminado. Te criar tem sido meu melhor trabalho, às vezes não me saio bem, isso é porque não sei direito o que estou fazendo, mas a cada ano que passa confio muito em todo nosso empenho.

Nossa troca.

Feliz aniversário e feliz vida Alice!

Obrigado por esse curso sobre ser uma melhor pessoa que já participo há sete anos, amanhã faço minha rematrícula.


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