Onde está o amor: na creche ou com a babá?

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Acho que uma das escolhas mais sérias que nós, pais, somos obrigados a fazer no início da vida dos filhos é onde e com quem eles devem ficar quando nos ausentamos. Porque isso implica, em primeiro lugar, na separação – ainda que por algumas horas – da mãe. Por mais doce que seja, esta ruptura dói em todo mundo. Do ponto de vista da criança pequena, ou bebê, este momento é incompreensível – ele não entende o conceito de que a mãe precisa sair para trabalhar, que isto pode ser necessário para seu equilíbrio financeiro ou emocional. Na verdade, a criança sequer entende que a mãe é um corpo separado dela. Então imagine o tamanho da angústia.

O que eu mais escuto por aí é que as creches e escolas são a melhor opção. Afinal, não ficamos à mercê de babás – que entram e saem dos empregos ao sabor do vento – e, de quebra, a criança aprende a socializar, recebe estímulos, aprende coisas novas, além de estar nas mãos de educadores gabaritados, que fizeram faculdade de pedagogia e tal.

Acredito sinceramente que estas ideias estão longe do que deveria ser a principal preocupação dos pais. Entendo (e concordo) que a escola pode ser a única alternativa possível naquele momento para aquela família. Até aí, tudo bem. Como dizia minha avó, quando não há solução, solucionado está. Entretanto, se houver a possibilidade, antes de optar correndo por uma creche, algumas considerações deveriam ser feitas.

Quando meu filho mais velho estava perto dos dois anos, visitei inúmeras creches, escolinhas, enfim, todos os modelos do gênero. Das mais simples às mais famosas. Cheguei a umas 30 visitas, acho. Em todas, repito, todas, tive a mesma sensação: muitos bebês juntos para poucos cuidadores. Por mais que fossem carinhosos, seria impossível cuidar de cada criança com toda a atenção que a idade necessita. Isso sem contar a questão da imunidade: bebês ainda estão com seu sistema imunológico em formação e não estão preparados para terem contato com tantos vírus e bactérias ao mesmo tempo. Ficarão doentes, muito doentes – e, ao contrário do que se pensa, isso não vai contribuir a longo prazo para que se tornem adultos mais fortes.

Até os três anos, é bom que se diga, a criança está num momento decisivo de formação, especialmente cerebral, de conexões neuronais. Inúmeras pesquisas mostram que nesta fase da vida o cérebro ainda não é capaz de entender como é interagir com o outro (portanto, esqueça esta ideia fixa de que é preciso obrigar o pequeno aprender a socializar, a dividir o brinquedo, a brincar com o amigo. Ele não consegue ver nada além dele mesmo).

O que a criança precisa neste estágio crucial da vida é simples, muito simples: afeto, atenção exclusiva, amor. Caso contrário deixará de formar certos circuitos neuronais, o que pode comprometer, no futuro, sua capacidade de aprender, falar, cantar, tocar instrumentos, dominar outros idiomas, tudo. Sem contar a parte emocional, evidentemente.

Depois de muita pesquisa, acredito que o melhor lugar que o bebê pode estar é onde existe amor. Uma pessoa que fique com ele muito tempo no colo, que não o deixe num carrinho ou bebê conforto enquanto cuida de outros bebês ou checa o celular, que olhe nos seus olhos, que o abrace, que não o deixe chorando, que converse com ele. Que seja amorosa, que o faça sentir-se acolhido.

Amor não exige diploma, nem espaço com muito verde, nem mil amiguinhos, nem educadores falando inglês, nem jogos interativos, nada. Pode ser uma babá querida ou vovó que esteja no ambiente doméstico, um lugar seguro, conhecido, e menos hostil para a criança, onde o vínculo já está formado e não haverá quebra. Mas também pode ser uma escola, por que não? Se for um lugar intimista, com poucas crianças, cuidadoras com o coração tranquilo, e que a mãe possa ter livre acesso. A principal qualidade da escola do meu filho, eu acho, é o quanto as professoras fazem questão de abraçá-lo, o tempo todo. Isso é fundamental. Onde houver amor, muito amor. Só isso, o resto é resto. A criança se apaixona por quem cuida dela. Tão simples e tão complexo, não é?

Aqui, o pediatra José Martins, da Unicamp, fala sobre os primeiros anos da criança, a necessidade do amor, e o que acontece quando ela vai precocemente à creche:


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