Anda logo, menino!

Tenho prestado muita atenção no que eu digo ao Benjamin. Não só porque ele está numa fase em que me pede definições o tempo inteiro – algumas dificílimas, que me fazem quebrar a cabeça – mas também porque quero perceber em que medida falo coisas que repetem certos padrões que considero questionáveis. Então descobri que uma das frases campeãs aqui em casa é: “Vamos logo, depressa, estamos atrasados!”. Muitas vezes interrompo as brincadeiras dele, recheadas de fantasia, porque precisamos sair para a escola, médico, natação, mercado, o que for. Ou faço com que ele corra demais na rua porque minhas pernas são maiores, portanto mais rápidas. Ou não deixo que ele pegue uma pedrinha no chão, ou pare para cheirar uma flor no caminho porque estamos em cima da hora.

Uniforme-futebol

Está certo. Compromissos fazem parte da vida e é bom que ele aprenda desde cedo que deve cumprir certas rotinas, nem que isso demande algum esforço. Entretanto, fico muito incomodada com o quanto fazemos nossas crianças funcionarem no tempo dos adultos. É o meu tempo e o seu. Um tempo que corre na velocidade da luz, sobretudo se olharmos pelo ponto de vista de alguém que acabou de nascer e que, ao fazer tudo mais devagar e contemplar o mundo, está aprendendo o funcionamento da vida. Isso é um processo que precisa ser respeitado – como o amadurecimento de uma semente. Até dá pra acelerar, mas será que o resultado será satisfatório? Receio que não.

Há exemplos práticos de que estamos fazendo nossos meninos correrem excessivamente contra o relógio sem que eles tenham tempo de maturar nada. Basta ver a agenda de atividades dos pequenos – alguns saem de casa cedo e voltam somente ao anoitecer. Ainda que estejam somente em creches, algumas oferecem atividades incessantes, às vezes a cada meia hora.

Mae-com-filhos

Mal dá tempo de começar algo que já é preciso mudar para outra coisa. Sem pausa – afinal, ninguém paga para criança descansar, né. Tempo é dinheiro.

Os adultos têm pressa que as crianças aproveitem a pouca idade para aprenderem logo, assim “é mais fácil”. Usam a máxima do “aprender brincando” e assim se dispõem do tempo precioso dos nossos meninos, que podem não querer exatamente brincar disso que os pais acham tão “educativo”. Sem contar que os adultos sempre precisam chegar rápido em muitos lugares: repare na quantidade de crianças que já são capazes de andar perfeitamente – isso significa acima de 3 anos –, mas que ainda circulam empurradas em carrinhos de bebês. Fazer com que elas caminhem nas ruas significaria que o adulto responsável deveria acompanhá-las em seu ritmo. Ou seja, devagar. Mas não dá, né, afinal, precisamos andar depressa porque estamos atrasados. Então, melhor que a criança vá no carrinho, sentada, passivamente, enquanto alguém a empurra correndo, dificultando que ela crie o hábito de andar, olhar para os lados, descobrir coisas – incluindo seus próprios limites de cansaço. Desde cedo, assim, já ensinamos que andar é supérfluo. Viva o sedentarismo.

Aqui em casa tenho feito uma ginástica danada para tentar respeitar o tempo do Benjamin e fazer com que aquelas cenas que eu narrei lá no início se tornem cada vez mais raras. Isso quer dizer diminuir compromissos, sair o mais cedo que conseguir e, se for o caso (por que não?), considerar a possibilidade de chegarmos atrasados nos lugares. Dependendo da situação, prefiro esperar que ele termine de fazer o castelo de almofadas para sair – nem que isso signifique que eu vá levar um esporro da professora na escola, ou da recepcionista do médico, ou de quem for. Que venham, aliás, os esporros. São em mim, não nele. Desconfio que alguns podem valer mais a pena agora do que uma vida inteira depois tentando lidar com a ansiedade.

 

 

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