Como lidar com a birra infantil?

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Lidar com calma e sabedoria perante os ataques de birra dos filhos, especialmente os pequenos, deveria se tornar uma modalidade olímpica. Além de ser uma tarefa de Hércules, a atividade exige talento, treinamento, sangue frio e sobretudo, cabeça no lugar. Só que, convenhamos, nosso dia a dia está bem longe da rotina dos atletas (embora sejamos verdadeiros medalhistas, eu sei…). A vida deles é mamata perto da nossa. Pensa naquela mãe exausta (tipo a gente) que não dormiu mais do que quatro horas à noite, e mesmo assim teve que trabalhar feito doida no dia seguinte, pegou um congestionamento monstro para buscar as crianças na escola, e já está com os nervos à flor da pele, uma vez que sabe o quanto vai demorar para descansar, pois ainda tem pela frente o banho, o jantar, a cama dos pequenos. Nesta hora, o filho dá um chilique, grita, se esgoela, se joga no chão, só porque não quer sentar na cadeirinha e amarrar o cinto do carro. Fica difícil aplicar tudo o que a teoria diz. O pior é ter que suportar a cara das pessoas em volta, que olham para seu filho como um mimado, e para você, como uma incompetente, incapaz de controlar uma criança.

Como mãe de um menino de quase 4 anos, digo que já passei por esta situação diversas vezes, em casa e em público. Arrisco dizer que não existe nenhuma criança da espécie humana que nunca tenha feito uma mísera birra. Também confesso que já perdi a paciência, tremi de nervoso, me descabelei, gritei, li tudo o que existe a respeito, entrevistei pedagogas, tudo atrás de uma saída razoável.

Sabe quando passou? No dia em que consegui enfiar na minha cabeça de uma vez por todas o pensamento mais importante nessas horas: sempre existe um motivo para o ataque de birra. Parece óbvio, mas na hora do terremoto, não é.

Nenhuma criança dá chilique à toa. Ela tem sua razão, por mais “boba” que possa parecer para nós. Esqueça esse senso comum raso que diz que “isso é coisa de criança mal criada e sem limites”. O que acontece é que nós, adultos, não conseguimos (nem procuramos) entender o que está havendo do ponto de vista da criança. Por mil motivos, incluindo nossa própria fadiga, não observamos nossos filhos com a devida atenção. Tentamos usar a linguagem das palavras com crianças às vezes tão pequenas que ainda não conseguem verbalizar direito suas sensações. Então perdemos a paciência por não ver nada de errado ali.

Ao dar ataque, as crianças estão sinalizando que algo não vai bem – e não adianta culpá-las pela gritaria, pois elas ainda não tem maturidade neurológica para manter a calma. A cabecinha está dando tilt, as sinapses cerebrais estão em crise – e se não forem controladas, a tendência é piorar, e chegar à beira de um colapso nervoso. Tanto que algumas desmaiam, vomitam, convulsionam. E é aí é que o problema clássico da comunicação se estabelece: de um lado, a criança não consegue sair do ataque; do outro, o pai perde a paciência porque exige que o filho tenha a civilidade de alguém já crescido. Não dá: alguém tem que parar primeiro.

Então temos que fazer tudo o que a criança quer? De jeito nenhum, não é isso. Aliás, não mesmo. Pela minha experiência de mãe, acho que devemos tomar as rédeas da situação – sem fingir que nada está acontecendo ou, pior, dar ataque junto. Sejamos adultos, que, afinal, temos o dever de ser. Mostremos à criança que entendemos seus motivos, mas ela está fora de si, e este comportamento é completamente inaceitável. Como nós somos a referência, ao demonstrar que estamos controlados, a criança tende a melhorar. Meu filho Benjamin, certa vez, deu um ataque no meio de um shopping center (sim, aquele clássico…) porque apostou corrida comigo e perdeu. Naquele dia eu estava super cansada, sem nenhuma paciência. Ele gritou, esperneou e foi levando meus nervos ao limite. Antes de sair arrastando-o pelo chão, como me deu vontade de fazer, percebi que o motivo não era a corrida: ele estava exausto. Então, peguei-o no colo com firmeza, levei-o para fora do shopping, e sentamos num banco, enquanto ele gritava e gritava. Eu olhei nos seus olhos e disse: “Você está cansado. Isso que você está sentindo chama-se sono, e nós vamos descansar. Vou ficar aqui abraçada com você até que se acalme. Estou aqui”. Assim ficamos até que ele foi parando aos poucos e, claro, fomos embora para casa.

Acredito muito que a maioria das birras das crianças pequenas acontecem por sono e cansaço. Repare que os ataques são mais comuns no fim da tarde ou à noite. Exigimos, por nossa própria conveniência, que as crianças fiquem muito tempo acordadas – mais do que poderiam suportar. Com menos de dois anos, o soninho da tarde reparador passa a ser engolido pelas atividades diárias. Fome, medo, ansiedade e mudança de rotina também são outras causas bem comuns. Uma criança que dá ataque na porta da escola não é indolente, apenas pode não estar preparada para sair de casa ainda. Talvez ela esteja sinalizando que precisa de mais atenção e presença. Só conseguiremos saber se abrirmos nossos sentidos e corações para ouvir nossos filhos. São muitos os sinais – precisamos ter a humildade de ajoelharmos no chão na altura deles, abraçarmos forte os pequenos, e mostrarmos que somos a referência do controle da situação, sem que isso signifique aprovar o que estão fazendo. Afinal, nós somos adultos, certo? E, numa boa, adulto que se preze definitivamente não tem o direito de dar chilique.

Observação: quando estava finalizando esta coluna, recebi um texto maravilhoso sobre birra infantil. Trata-se de uma cena vivenciada pela autora, muito comovente, vale a pena ler aqui.

Este outro texto, da psicóloga Rosely Sayão, também é excelente e ajuda a iluminar nosso caminho. Leia aqui.

 

 

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