Como explicar o mundo?

Crianças são fascinantes porque nos chamam a atenção para os mínimos detalhes do mundo – aqueles que infelizmente a maturidade faz com que passemos batido feito um rolo compressor. Eu nunca pensei que a esta altura da vida precisasse teorizar a respeito da cor azul do céu. Ou sobre o tamanho das ondas do mar. Ou ainda sobre o porquê o número 8 é quase igual à letra B, o 6 é um 9 de cabeça para baixo, e os parênteses lembram uma casquinha de pão.

Eu sou adepta da teoria de que menos é mais com crianças. Não acho que precisamos explicar tudo tintim por tintim. Quanto menos falatório com eles, melhor. Frases curtas, sem muitos detalhes, resolvem e não intelectualizam precocemente a criança, deixando que ela descubra as coisas por si, na hora certa – até porque, em geral, o que ela quer saber é muito menos do que nós temos a dizer. Pois é. Acontece que meu filho, Benjamin, do alto de seus 3 anos de idade, é uma criança que exige explicações. O vazio o deixa angustiado. O cara é cabeção, não tem jeito. E como suas sinapses cerebrais aumentam em progressão geométrica, vira e mexe me vejo às voltas com definições enroscadas, que não tenho ideia de como resolver. Sonho é uma delas. Estou fugindo disso faz tempo, mas sinto que agora terei que falar sobre o assunto – sabe-se lá como. Outro dia ele acordou assustado, de madrugada, e me chamou. Queria saber como ele tinha ido parar deitado na cama – ele estava sei lá onde nos seus sonhos. “Mamãe, eu não estava aqui! Onde está a cachoeira?”.

Difícil dissertar sobre o que não é paupável. O mesmo aconteceu quando ele quis saber, cheio de medo, quem era esse tal de inverno que todo mundo temia que chegasse. Foi complicado explicar que o inverno não é um homem mau e sim uma estação do ano que faz frio. A gente não vê, só sente. O pai pegou uma pedra de gelo e pediu que ele segurasse nas mãos para sentir o inverno. Haja imaginação.

Em geral, procuro trafegar no mundo da fantasia, que funciona perfeitamente para esta idade. Benjamin morria de medo de trovão. Aí eu disse que o trovão é um vovô que mora dentro da nuvem fofinha. Ele é muito amigo da dona chuva – que é uma vovó completamente surda, coitada. Para pedir que a chuva saia de casa, o trovão precisa gritar com este vozeirão, caso contrário ela não escuta nada. Acaba apelando, e começa a arrastar todos os móveis de casa para chamar a atenção. Por isso a barulheira. “E os raios, mamãe?”. É que o vovô trovão fica acendendo e apagando a luz de casa. Quem sabe assim a chuva resolve ouvi-lo.

A história deu certo, por enquanto. Ele não tem mais medo – embora até hoje não tenha entendido por que diabos o trovão não usa o telefone celular.

Fotos: [1] Stock.xchng  [2] Andrea Marques/Fotonauta


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