Bebê (ainda) a bordo

Há alguns anos, uma amiga que é mãe e já tem idade para ser avó (embora não seja), me contou que, certa vez, tirou sacos de cola das mãos e bocas de crianças de rua. “Sabe, Giuliana, quando crianças estão na rua, em um espaço público, sem seus pais ou outros adultos responsáveis, eles são nossos filhos também”, disse. Concordo com ela. E é por isso que trago para esta coluna algo que vem em incomodando há algum tempo.

Sempre reparei nisso, mas, desde que minha filha nasceu, fiquei com o radar ligado para as cenas e notícias de crianças pequenas que são deixadas dentro de carros sem adultos. A Valentina era recém-nascida quando os jornais publicaram duas histórias que ocorreram com poucos dias de diferença sobre carros roubados com bebês de cerca de um ano dentro. Os pais estavam por perto, mas não conseguiram evitar o crime. Com frequência, vejo meninos e meninas esperarem suas mães no estacionamento enquanto elas vão à farmácia, à padaria, ao supermercado. Infelizmente, tenho visto cenas semelhantes até na porta de escolas. Enquanto buscam ou entregam seus filhos, alguns pais e mães deixam os irmãos (bebês ou maiores) no carro.

Tudo isso é um perigo! Por mais que seja um tempo curto, nunca sabemos o que pode acontecer nesse intervalo. Bebês regurgitam e engasgam e, se estão sozinhos, quem vai ouvir para acudir? E se o adulto, sei lá, tropeça, torce o tornozelo e demora a voltar? Uns podem pensar: “Ah, mas os mais velhos já estão crescidinhos e podem aprender a esperar um pouquinho sem aprontar.” Podem, mas e, se ao esticar a perna, o moleque aperta algum botão que não deveria? E se, por brincadeira, o garoto ou a garota resolve puxar o freio de mão para ver o que acontece? Não é só ele que corre perigo. Há outras pessoas circulando por ali.

Minha ideia não é agourar nada nem ninguém, muito menos apontar o dedo na cara de quem age ou já agiu assim. Pelo contrário. Quero fazer um alerta porque acho que, as vezes, nessa vida louca, acabamos tomando algumas atitudes precipitadas para tornar a rotina mais prática. Nessas, nem percebemos o risco que estamos correndo ou impingindo aos nossos rebentos.

Por mais corrido e insano que seja o dia a dia, é preciso lembrar que vivemos em uma comunidade. Temos que pedir ajuda. E temos que ensinar nossos filhos a colaborar com a família. Os filhos mais velhos podem acompanhar seus pais nas tarefas do dia a dia – das compras no supermercado ao momento de deixar e buscar os caçulas na escola. E os bebês? Bom, se não for possível deixá-los em casa com um outro adulto, pense se não há alguém que pode acompanhar vocês. Considere ainda a possibilidade de pedir ajuda aos funcionários da escola, por exemplo. E lembre-se também de que há no mercado uma série de slings e cangurus que podem lhe ajudar a carregar todo mundo (não, eu não fabrico esses apetrechos).

Tudo isso é mais trabalhoso e menos prático do que fazer o que é preciso rapidinho enquanto o rebento espera no carro? É. Mas ninguém disse que ter filhos é algo fácil, disse?

Fotos: (1) Robert Ingil / (2) stock.xchng


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