Não dê comida ao machismo

Tenho muitos amigos e amigas descolados. Artistas, escritores, professores, intelectuais. Gente que pensa o mundo com olhos críticos, que não aceita dogmas impostos, aquela coisa toda. Mas existe uma diferença gritante entre o discurso e a prática quando o assunto vai para a esfera doméstica. Posso dizer que todos meus amigos do sexo masculino (ou quase todos, vai) ajudam nos trabalhos da casa e com os filhos. Entretanto, não conheço nenhum que divida igualmente as tarefas com as mulheres. E dividir, como se sabe, é totalmente diferente de ajudar, ou “dar uma mãozinha”. Dividir é estar apto e disposto a fazer tudo o que o outro faz. Eu disse tudo.

Fico muito incomodada com mulheres que enchem a boca para dizer, como forma de elogio: “Meu marido ajuda muito. Ele até troca fraldas e dá banho no bebê!”. Como se ele estivesse fazendo um favor. E como se os cuidados com um bebê se resumissem em trocar fraldas descartáveis e dar banho. Quem lava a roupa suja de cocô jogada no chão? Quem enxuga o banheiro inundado depois do banho? Quem olha quando o sabonete está acabando e corre para repor? Quem arruma o berço e o trocador? Quem repara (e cuida) pacientemente das assaduras, não deixando nenhuma dobrinha úmida, mesmo com o bebê esperneando todo molhado? Pois é, há muito mais coisas entre o céu e a terra do que uma simples troca de fraldinhas.

O pior é que tenho a impressão de que somos nós, as mulheres, que começamos a alimentar o bichinho do machismo dentro de casa. Depois nos queixamos da desigualdade. Oh, mundo ingrato. O que a gente talvez não perceba é que justo nós, que fomos e ainda somos discriminadas o tempo inteiro, fazemos questão de perpetuar esse miserê. E deixar nossos filhos crescerem assistindo a este esquema da mãe sempre cansada, multi-tarefas, e o pai inteirão, que brinca, corre e pula.

O eletricista do meu prédio se nega a falar comigo. Só fala com meu marido, sequer me olha nos olhos. Ele julga-me incapaz de entender o que é uma resistência de chuveiro (ok, eu não sei o que é isso, mas poderia perfeitamente aprender se eu quisesse). Aí é que está. Eu não quis aprender sobre a famigerada resistência. Assim como eu sempre quis poupar meu marido das noites em claro com Benjamin recém-nascido, afinal eu estava de licença e ele precisaria estar inteiro para trabalhar no dia seguinte. Era como se o meu trabalho de cuidar e gerar leite para alimentar nosso filho, nosso maior tesouro, fosse menos importante. O que não gera riquezas materiais não merece respeito, né? Olha eu, uma humanista socialista perpetuando o capitalismo selvagem. Eu poderia ficar escangalhada, morrendo de sono, morta. Ele não. Meu marido cansou de levantar à noite, implorar para dividir comigo, me mandar de volta para cama quase aos gritos. Fez de tudo para me convencer de que ele poderia fazer o que eu fazia (menos dar o peito, lógico). E eu nem ligava. Ficava ali, impávida, louca para ganhar o troféu da mulher que menos dormiu no mundo. Resultado: até hoje quem levanta à noite sou eu. Assim como sou eu que preparo o cardápio do meu filho, a comida, lavo as roupas, guardo, resolvo o que ele vai vestir, o remédio que vai tomar. É muita coisa? Lógico que é.

Entretanto, antes de reclamar, gostaria de pedir uma reflexão de postura a todas nós: será que damos espaço para os pais dividirem as tarefas conosco? Ou nos julgamos muito mais capazes do que eles, e criticamos tudo o que fazem? Ou ainda corremos para tomar frente a todas as decisões com os filhos, fazendo com que eles nunca consigam realmente resolver as coisas? Se eles vestiram a criança com uma roupa totalmente descombinada, deram o almoço meia hora mais tarde e esqueceram de lavar a orelha, deixa pra lá. Muito mais importante do que isso é a construção de uma sociedade – e de uma vida – mais justa.


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