O valor de um presente

Não tive uma infância pobre, nem rica. Tive o que precisava, na hora em que precisava. Mas, na minha época (nunca pensei que o meu dia de usar essa expressão chegaria…), presente era uma coisa que a gente ganhava em datas especiais. Lembro da falta de sono, das dores de barriga e do coração batendo mais forte no dia que antecedia meu aniversário, o Dia das Crianças, o Natal. Na minha cabecinha, pululavam dúvidas: “Será que eu vou ganhar a bicicleta?”; “O que será que a Tia Fulana vai dar para mim?”. A emoção ia aumentando até que, em êxtase, eu abria os pacotes. E a alegria que vinha em seguida durava dias, tanto quanto os brinquedos continuavam a ser novidades.

É verdade que, às vezes, eu ganhava uns presentes fora de hora. Uma das minhas tias, solteira, costumava levar eu e meu irmão à extinta DB Brinquedos para escolher algo que quiséssemos. Ela nos soltava nos corredores da loja e passávamos horas escolhendo o que levar, na maior curtição. Até meu pai, que era contra esses regalos fora de hora, nem sempre se continha. Com uns 5 anos, cheguei da escola certo dia e confessei à minha mãe que adoraria ganhar flores, mas que nunca tinha ganhado. Ao voltar do trabalho, ele apareceu com um vaso de violetas, que eu recebi em puro deleite sem nem desconfiar da armação dos adultos – “Como o papai adivinhou?”, pensei. Mesmo quando a data não era marcada, os presentes vinham sempre acompanhados de certa aura.

Para mim, presentes são a representação material de que alguém gosta de mim. E, quanto mais pessoais eles forem, mais carregados dessa simbologia eles estão. É por isso que em datas como o Dia das Mães e o Dia dos Pais costumo listar presentes originais no meu blog. Não estou dizendo que preciso de uma prova material do carinho dos outros por mim. Afinal, acho que olhares, abraços e canções também são presentes. Mas dou muito valor quando ela existe. E, até hoje, aos 31 anos, tenho um pouco das sensações da infância quando meu aniversário e outras datas especiais se aproximam. Também fico feliz, feliz, quando ganho algo inesperadamente ou me dou aquele presentinho que eu achei assim, sem querer.

Temo, porém, que minha filha e seus amiguinhos não possam desfrutar de tal sentimento. Não sou contra o consumo – não mesmo! –, mas acho que, quando se trata de crianças, devemos frear um pouco as coisas. A facilidade com que compramos hoje está banalizando o presente. No primeiro ano de vida, minha filha ganhou tantas coisas! Cada vez que os avós e tios a viam, traziam um pacotinho. Isso sem falar no que eu e meu marido compramos para ela. Foi então que percebemos: apesar da pouca idade, ela já estava achando aquilo comum e isso não é bom. Qualquer coisa empacotada que aparecia por aqui ela achava que era dela. E resolvemos segurar as pontas. Faz uns cinco meses que quero comprar um cavalo de brinquedo para ela, o Potó que ela tanto ama, mas estou esperando o Dia das Crianças.

Isso porque, como mãe, acho saudável passar pela experiência de querer, de esperar, de almejar. Acho muito bom não ter sempre o que se quer e poder ficar feliz quando se consegue. Também penso que é fantástico para o desenvolvimento de uma criança saber dar valor ao que se ganha. Saber que aquilo não veio porque o outro tem um dever de nos oferecer algo. O presente é resultado não só de dinheiro, mas de tempo e atenção gastos em nosso nome. Espero conseguir incutir esses valores na minha filhota.

Fotos: Jean Scheijen (1) / Cécile Graat (2) / JeongMe Yoon (abertura, do projeto The Pink & Blue, que questiona o sexismo na indústria infantil) 

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