Por que ter um 2º filho?

Demorei um bom tempo para encontrar respostas que me convencessem a ter um segundo filho. Estas frases prontas que são repetidas por aí sem nenhuma reflexão, para mim, não fazem nenhum sentido. Além de terem um toque de crueldade.

Pense bem na mais clássica de todas: “Quero dar um irmãozinho ao meu filho mais velho”. Esta afirmação já parte do princípio de que um ser humano que ainda nem nasceu significa um presente, um objeto. Podia ser um carrinho, uma bola, um quebra-cabeça. Mas escolhe-se um bebê, pois não quebra e dura o resto da vida.

“Mas filho único fica mimado”, vem outra frase de efeito, logo em seguida. “É preciso aprender a dividir as coisas, a não ser o centro das atenções”. Ora, uma criança bem educada pode aprender que não está sozinha no mundo, apesar de não ter irmãos. Até porque ela vai à escola, tem família, tem amigos. Ou seja, convive com outras crianças e pessoas. Ninguém está restrito ao ambiente doméstico, suponho.

“Ah, os irmãos brincam juntos, serão amigos para a vida inteira”, diz o rebote. Esta é uma garantia que ninguém tem. Conheço irmãos que se dão muito bem. Mas sei de outros tantos que nem se falam. E outros que não tem nenhuma afinidade, além do laço sanguíneo. Só se encontram nos aniversários e almoços de Natal, trocam abraços, presentes, e passam meses sem se ver.

“É que eu tenho um menino e queria tentar uma menina. Para formar um casalzinho”, vem a raquetada. Esta é uma das piores frases, que nem sei se devo gastar meu latim comentando. Filho é filho, independentemente do sexo que vier. Que o diga Toninho Cerezo, pai do transsexual Lea T.

Repare que todos estes argumentos acima levam em conta apenas as necessidades do filho primogênito: ele precisa aprender a dividir, de companhia para brincar, de um amigo, de alguém do sexo oposto. O segundo bebê já nasce com toda esta responsabilidade. Ele não é um filho. É só um irmão.

Há ainda quem confesse que gostaria de ter uma família grande, por isso já encomenda um filho atrás do outro. Produção em série, no atacadão. “É mais fácil, assim já cria tudo de uma vez.” Como se cuidar, amar e zelar pelas nossas crianças fosse igual a apertar parafusos numa fábrica. Sinto muito, mas o desenvolvimento de um ser humano exige muito mais atenção do que isso. Conheço algumas mulheres que mudaram de profissão e agora são parideiras oficiais – algumas tem a média de um bebê por ano. Uma conhecida já está no quinto filho. Outra, está grávida do terceiro, sendo que a mais velha tem a idade do Benjamin, 3 anos. Uma outra, ativista do parto natural, gosta tanto do assunto que não para mais de engravidar – acaba de descobrir a gestação do quarto, “uma surpresa”, segundo ela. Acho que não há pecado nenhum nisso, mas é bom lembrar do ônus: uma família grande requer muito espaço. Dentro e fora de nós. Temos este espaço para oferecer?

Esta é a pergunta que me faço sempre que penso no segundo filho. Há espaço emocional em mim para mais doações? Dedicação de tempo, energia física e mental? Eu tenho tudo isso em dobro para atender a esta demanda? E continuar doando a Benjamin, sem nenhum prejuízo ao seu desenvolvimento?

Quero, sim, um segundo filho. Porque sinto que este espaço existe no meu coração. Porque ele será querido e amado como se fosse o primeiro. Ele não virá para ser um irmãozinho. Será meu filho e terá a mesma dedicação que Benjamin teve e continuará tendo. A diferença é que ele encontrará uma família mais prontinha, pais mais experientes, menos ansiosos. E, claro, um irmão que está louco para mostrá-lo as cores deste mundo.


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