Quero minha vida de volta!

Uma amiga que tem um bebê de três semanas acaba de me ligar, com a voz paniquenta: “Você sabe me dizer quando é que minha vida vai voltar ao normal, pelo amor de Deus?”.

Acho que esta é a pergunta que dez entre dez mães de primeira viagem fazem no pós-parto. Quando chegamos da maternidade com aquele pacotinho, não temos ideia do que vem pela frente – eu, pelo menos, não tinha. Nunca imaginei que, nestes primeiros dias, pentear meus cabelos e escovar os dentes seriam um luxo. E que meu passeio mais glamouroso seria uma ida rapidinha ao caixa eletrônico tirar o dinheiro da faxineira rezando para o bebê não acordar neste meio tempo (eu até passava batom para este momento sublime).

Os primeiros meses das criança tornam nossa vida um caos mesmo. É mais ou menos assim: mal acabamos de amamentar, ou de dar a mamadeira, temos que trocar as fraldas porque o cocô é instantâneo e vaza até o pescoço, depois pegar roupas limpas (aliás, onde estariam as tais roupas limpas?), fazer curativo no umbigo (cadê o álcool?), não deixar o bebê sem roupa por muito tempo, xiii, ele está chorando, deve querer mamar de novo, mas meu peito está em carne viva, a fralda caiu no chão, quem me ajuda aqui, esqueci de novo a chupeta fervendo no fogo, derreteu tudo, socorro, e agora, alguém atende a campainha, deve ser uma visita, ai visita não… Ufa. Faltam-nos braços. Não tem pausa nem para respirar. Lembrando que os hormônios do pós-parto ainda estão em ebulição, ou seja, ficamos no limite da insanidade.

Por isso que toda vez que escuto esta pergunta como a da minha amiga, penso duas vezes antes de responder. Porque a verdade nua e crua parece ser meio desesperadora para quem está no olho do furacão: sua vida nunca mais vai voltar àquilo que você considera normal. Esquece. É hora de virar a chave da cabeça, de mudar os paradigmas. Eu li em algum lugar (desculpe por não citar a fonte, é que realmente não me lembro onde foi) que a mulher morre na hora do parto para nascer uma outra, que vem junto com a criança. É verdade: são duas novas vidas que começam ali. E o nascimento, minha gente, dói para todo mundo.

A notícia boa é que as coisas melhoram, sim, com o passar do tempo. Quer dizer, não sei se melhoram, mas a gente se acostuma com a nova vida – que tem muito mais encantos do que a encarnação passada, portanto é bem mais feliz. Aquela rotina anárquica do início vai adquirindo uma ordem – sabemos os horários das mamadas, das acordadas noturnas, os motivos dos choros. Conseguimos perfeitamente ensaboar o bebê com uma das mãos, e falar ao telefone com a outra. Adquirimos uma habilidade inacreditável para trocar fraldas em menos de um minuto. Conseguimos proezas impensáveis, como sentar no vaso para fazer o número dois segurando um bebê no colo. O que era motivo de pânico, acredite, passa a ser divertido. Resumindo: vale muito a pena receber esta nova vida que chega agora de braços abertos. Sem olhar para trás.

Foto: Andrea Marques/Fotonauta


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