Seu filho não é perfeito

Aí você é novata no admirável mundo da maternidade e está louca para trocar figurinhas. Corre até a pracinha ou ao playground do prédio para conversar com outras mães. Quer contar que descobriu um jeito incrível de acabar com as assaduras, perguntar por que diabos seu bebê não dorme a noite inteira, saber se dente nascendo dá febre, se é normal a criança cuspir a papinha na sua cara. Rapidamente, seu universo entra em desencanto e você descobre que seu filho é o único ser humano que fica assado quando faz xixi, que chora, que tem febre, que não quer comer.

As outras mães te olham com um arzinho superior, perverso, e dizem sem pestanejar o quanto o filho delas foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus, como se sabe, não cospe no prato em que comeu. Certa vez, lamentei que Benjamin vivia caindo, e ouvi de uma mãe que seu filho nunca havia se acidentado – o curioso foi que esta mesma criança estava com o braço engessado exatamente no momento da nossa conversa. Então você corre para a reunião na escola, um lugar que você acha que finalmente vai conseguir encontrar experiências semelhantes às suas. Ledo engano. Ali é um celeiro de crianças e lares indefectíveis.

Demorei um bom tempo para descobrir que, obviamente, isso tudo é mentira. Não sei o que passa na cabeça das pessoas, mas imagino que não pegue bem dizer a verdade e mostrar aos outros que seu filho é “imperfeito”, ou melhor, humano. Que ele não dorme bem, não come direito, ou é travesso. Mentindo, as mães acabam acreditando no que estão dizendo, e criando uma realidade paralela, que provavelmente as conforta, além de servir de inspiração para as propagandas de margarina e de ração de cachorro.

Um pediatra me disse certa vez que existe, por exemplo, uma imensa dificuldade em explicar para os pais o diagnóstico de um filho com alguma deficiência porque simplesmente eles não aceitam a possibilidade de imperfeição. Isso acaba atrasando o tratamento e comprometendo ainda mais a saúde da criança.

É muita projeção em cima dos pequenos. Tanta, que muitas vezes não enxergamos suas reais necessidades e pintamos um Leonardo Da Vinci – coisa que ninguém é, nem tem a responsabilidade de ser. Eu me pergunto se, no momento em que decidimos ter filhos, todos estamos preparados para acolhermos nossos pequenos do jeitinho que eles vierem. Talvez não sejam bons em matemática, não aprendam falar inglês, sejam um fiasco no futebol, demorem um tempo para se expressar direito, tenham dificuldades na alfabetização. Talvez ainda tenham algum problema físico, mental ou genético. Ou podem ter um pouco de atraso no desenvolvimento em relação a outras crianças.

Mas quem disse que precisamos competir, mostrar e exigir que nossos filhos estejam sempre na frente dos outros? O desenvolvimento humano não é um mercado de trabalho. Cada um tem seu tempo, e o que é normal para um, não é para o outro. O dente de um precisa nascer antes? Precisa saber andar com nove meses e falar com dez? Tirar a fralda com menos de um ano? Não, não precisa. O que precisa é de aceitação. É muito cruel fazer as crianças crescerem sentindo um enorme fracasso por não corresponderem às (múltiplas) expectativas dos pais.

Todo mundo passa por dificuldades ao criar os filhos – e isso começa lá na gestação. Se a gente parar de fingir que está tudo divino-maravilhoso, tirar os fantasmas da sombra, e passar a compartilhar as pedras no sapato, provavelmente descobriremos que não estamos sozinhos. Só isso já é um alívio danado, pode apostar.

Imagem: Reprodução Os Incríveis. Foto: Andrea Marques/Fotonauta


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