Sobre o clipe do Nissim Ourfali

Pouca gente se lembra. Muito pouca. Mas, há duas décadas, o Brasil dispõe de uma lei que tem como objetivo proteger pessoas com até 18 anos. Trata-se do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 13 de julho de 1990. Recomendo a leitura a todos os pais e adultos que convivem com gente nessa faixa etária. Fazia tempo que eu não lia e voltei a ele na semana passada, depois de assistir à gracinha da vez na internet, o tal vídeo do Bar Mitzvah do garoto Nissim Ourfali. Ao ler com certo enjoo os comentários e críticas sobre o clipe (mal feito, é verdade), lembrei que essa gente toda está infringindo a tal lei. Afinal, está ali no Capítulo II – Do Direito à Liberdade, ao Respeito, à Dignidade: “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”.

Não sei como o vídeo foi parar na internet. Se o garoto colocou, os pais deveriam ter tirado o quanto antes. Se os pais colocaram, cometeram um erro. Ainda assim, os adultos que assistiram deveriam ter contido seus dedinhos antes de comentar. Não existe justificativa para tirar sarro de um adolescente em público. Não vale nem o argumento de que o alvo das chacotas é a produtora e não o garoto – hum, hum, me engana que eu gosto. Esquecemos que a internet, embora seja chamada de universo virtual, faz parte de um mundo bem real. Por trás de um código numérico, existe uma pessoa de verdade, de carne, osso e intelecto, e moral, e crenças e afinidades. O que escrevemos, curtimos ou compartilhamos aqui tem repercussão nesses seres. Ou você nunca soube de alguém que ficou chateado – ou “chatiado”— com algo que leu no seu perfil do Facebook? É maluco, mas conheço gente que, em hipótese alguma, subiria em um banco em uma praça pública para dizer qualquer coisa, mas é o primeiro a dar pitaco em redes sociais e afins. Dá na mesma, galera. Pior: dependendo da popularidade do sujeito, a repercussão pode ser ainda maior.

O vídeo do Nissim e a forma como foi recebido pela audiência lembrou-me de um filme, O Homem-Elefante, do gênio David Lynch. A película de 1980 conta a história real de Joseph Merrick (John Hurt), inglês do século 19 portador de uma doença que deformou seu corpo, inclusive a cabeça. Por tal motivo, o rapaz era uma das atrações de um circo de aberrações. Pois é, naquela época, tinha gente que ria disso. Pela mesma razão, Joseph era açoitado no circo. “He’s a freak” (“Ele é anormal”), justifica o carrasco encenado por Freddie Jones, quando Anthony Hopkins, o médico Frederick Treves, o interpela. Comovido, Treves resolve tratar Joseph e descobre que, apesar das deformidades, ele era um ser inteligente, capaz de ler e escrever. Era também tranquilo, gentil e até refinado. O trailler está no Youtube para quem quiser assistir:

Nissim Ourfali não é doente. Aliás, pelo pouco que conseguimos saber sobre ele no vídeo, é plenamente saudável, tem uma família feliz e rica. Ele diz: “Sou um menino que estuda e vai no mezah/ Duas irmãs e um irmãozinho/ Minha família é um show/ E os meus pais são demais/ Como eles não tem/ Quando a gente viaja é irado, é dez/ Mas o melhor é quando vamos para a Baleia/ Eu sou, o,o/ Eu sou o Nissim Ourfali”. O problema é que sua identidade e sua imagem, assim como aconteceu com Merrick, foram deformadas no vídeo infeliz. Por mais bizarro que possa parecer, é por isso que o menino está sendo zoado, tratado como uma aberração, um “freak”, como eu li por aí. Tudo isso porque houve pouco cuidado em zelar por sua dignidade como ser humano, como adolescente.

Eu penso que, em um mundo ideal habitado por pessoas sensatas e que respeitam o outro, recém-nascidos deveriam passar os primeiros dias convivendo só com pessoas próximas: os pais, os avós, os amigos bem íntimos. Aos poucos, o círculo iria se abrindo. Sairiam para dar uma voltinha no quarteirão e seriam apresentados aos vizinhos, ao bairro. Um pouco mais velhos, começariam a participar de festas, de berçários/creches/escolas. E por aí vai. O problema é que a internet veio para antecipar tudo isso. O carinha mal nasce e seu rostinho é publicado para quatrocentas, mil, sabe-se lá quantas pessoas. E, sem que ele saiba ou diga se aprova aquilo, seu vídeo fazendo o primeiro cocô no penico se espalha mundo afora. Não estou fazendo uma crítica à rede, que fique claro. Eu também publico fotos e gracinhas da minha filha no Facebook. O meu alvo é a maneira como a usamos. Se a internet for uma versão com muito mais recursos da foto na carteira, da história que contamos no almoço com o pessoal do trabalho ou na mesa do bar, está perfeito. Só não podemos tratá-la como um universo à parte, isento de repercussão na vida real.

Em tempo: é possível abrigar vídeos fechados no Youtube. Só quem tem o link consegue assistir. É uma solução.


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