Chá de Fralda: sobre esquecimentos

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No final do ano passado, mais um bebê foi esquecido dentro de um carro. De novo. Estava dormindo, na cadeirinha do banco de trás. O pai saiu para trabalhar e o esqueceu ali. Ficou dentro do carro o dia inteiro e, com o calor, morreu, por hipertermia.

Esta é uma tragédia que vem se repetindo cada vez mais e mais. No Japão, dizem que em alguns grandes supermercados e magazines há um aviso colado nas paredes anunciando algo como : “Você não esqueceu nada dentro do carro?”. Soube ainda que existe um projeto para que os carros saiam das montadoras com sensor de presença obrigatório, que acende a luz e apita quando as portas se fecham se há alguém dentro.

Outro dia recebi um texto que lamentava profundamente a morte dessas crianças e, em vez de uma reflexão a respeito, dava dicas de como não esquecer seu filho no banco de trás – truques como deixar a sempre a bolsa ao lado dele, por exemplo. Afinal, a bolsa ninguém esquece. Mas esquecer o filho, pelo visto, é uma distração que pode acontecer com qualquer um.

Não me cabe aqui condenar ou absolver os pais – que, na minha opinião, são vítimas também – deste horror. Imagino que quem passou por isso já teve o pior dos julgamentos: sua vida e seu coração foram embora junto com a criança, para sempre. Nem consigo dimensionar a dor que deve ser. Por isso me compadeço, profundamente.

Eu gostaria de chamar a atenção para o fenômeno. Em que momento nossa vida e os nossos filhos passaram a ser invisíveis? Acumulamos milhões de tarefas diárias, seguimos uma rotina rígida para não enlouquecer e assim ligamos o piloto automático. Tudo passa a ser um amontoado de obrigações, inclusive os próprios filhos. Temos que trabalhar, fazer compras, ginástica, banho, maquiagem, filhos na escola, abraço, trocar roupa, fralda, almoço, limpar a casa, entregar relatórios, reuniões, pegar a criança, carinho, dar a mamadeira, deixar na casa da avó, fazer o jantar, responder e-mails, contar história, dar beijo de boa noite, ufa.

Com o tempo, os filhos deixam de ser pequenos humanos para se tornarem mais uma tarefa a ser cumprida. E quando a ordem da rotina muda… Bem, aí, os filhos podem mesmo ser esquecidos. Assim como as compras, a maquiagem, os e-mails, os abraços.

Antes de instalarmos um sensor de presença no carro, acredito que cabe a nós sairmos do automático. E perceber o que está ao nosso redor. As crianças estão ali, do nosso lado. Fazem parte da gente. Desenvolvendo-se, formando sua personalidade, enquanto a rotina do dia a dia passa por cima delas feito um rolo compressor. Uma rotina tão cruel que é suscetível a acidentes fatais. Ainda que estejam dormindo, quietinhas, sem se mostrarem presentes, elas são a nossa prioridade absoluta neste mundo. Quando foi mesmo que deixamos de olhar para elas?

Não acho que seja preciso deixar a bolsa no banco de trás para lembrar que tem uma criança ao lado. Precisamos é pegar mais nossas crianças – e tratar de esquecer a bolsa no carro.


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