Chá de Fralda: é proibido brincar

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“Ele nem sabe correr direito. Porque ele não está acostumado, entende? Pode ver, ele não tem nenhum machucadinho, quase nunca caiu na vida – afinal, ele só brinca sentado”.

Ouvi esta frase de uma babá, certa vez, referindo-se a um menino de quase quatro anos, que veio aqui brincar com meu filho. Eu levei os dois para correr no jardim e, minutos depois dela me dizer isso, a criança caiu e ralou o joelho. Nada demais – apenas o suficiente para deixá-la apavorada. Afinal, como explicaria o machucado para a mãe mais tarde? “É por isso que eu não deixo ele correr muito, você viu o que aconteceu?”

Aconteceu o inevitável em qualquer infância: um ralado no joelho. O negócio é que a terceirização dos cuidados infantis está criando uma geração de crianças impedidas de brincar, correr, se pendurar, se sujar, fazer bagunça. Algo absolutamente essencial para o pleno desenvolvimento humano. Só que, se cair, como justificar a escoriação? Se sujar a roupa, quem vai lavar depois? Se espalhar brinquedos pela casa, quem vai arrumar? Se deixar brincar livremente, como terminar de fazer o serviço da casa?

Babás ou empregadas domésticas são funcionárias contratadas para garantir a integridade física da criança enquanto os pais estão ausentes. A mercantilização deste serviço, cada dia mais crescente (ainda bem, porque antes disso era escravidão), fez com que as crianças se tornassem quase um objeto. Elas são vistas como vasos de porcelana chinesas, diamantes raros, que devem ser limpos, asseados, protegidos e devolvidos intactos no final do dia.

Como criança não é um ser inanimado, é preciso tornar este trabalho viável – assim, uma das cenas mais comuns de encontrar em pracinhas ou afins são crianças presas no carrinho com alguma distração nas mãos – em geral, é o celular da babá, caso ela não esteja usando, claro. O carrinho com suas amarras é um ótimo aliado. Assim como cercadinhos dentro de casa. Já presenciei concursos entre elas de quem levava a criança mais limpinha, cheirosinha e arrumadinha para a praça.

Outro dia mesmo, soube que uma conhecida levou um esporro de uma turma de babás porque deixou seu filho se esbaldar e brincar na lama. “Esta criança está imunda!”, dizia uma. “Que horror, vai pegar uma doença!!”, ralhava a outra. Há algumas semanas, por exemplo, meu filho ouviu de nossa ajudante, brava: “Benjamin, que sujeira é essa na cozinha?”. Expliquei que estávamos preparando um bolo, uma delícia para todos nós comermos, e que deixaríamos tudo limpinho no final.

É absolutamente compreensível o ponto de vista das babás. Coloque-se no lugar delas e tenho certeza que você faria o mesmo. Também acho muito compreensível o lado dos pais: queremos nossos filhos protegidos, salvos de acidentes que podem ser graves, limpos e bem cuidados, ora bolas. A verdade é que todo mundo tem razão nessa história.

E as crianças? Alguém consegue ouvir o lado delas? Como estão crescendo nossos pequenos vasos de porcelana?

 

LEIA TAMBÉM:

A Criança Terceirizada [Parte 1] – AQUI

A Criança Terceirizada [Parte 2] – As confissões das babás AQUI

A Criança Terceirizada [Parte 3] – E os pais, o que dizem? AQUI


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