Chá de fralda: Os outros são os outros

GravidezBasta estarmos com um bebê no colo – ou na barriga, como no meu caso – para a galera considerar aberta a sessão de palpitaria. Todo mundo acha que entende tudo sobre bebês e tem o livre direito de ensinar a você – ainda que não tenha sido chamado – sobre o que deve ou não deve fazer.

Se a criança está com casaco, te acusam de agasalhá-la demais e deixar a pobrezinha suando em bicas. Se está de short ou só de fralda, num calor de 40 graus, coitada, está morrendo de frio. Se usa chupeta, você é desumana porque não dá o peito e está estragando seus futuros dentes. Se mama no peito, está deixando o menino dependente demais. Se dá mamadeira, é preguiçosa porque deveria amamentar. Se troca a fralda descartável em público, virá sempre alguém dizendo o quanto esta atitude pode acabar com o planeta. Já se você prefere a fralda de pano, te chamam de louca, que vai na contramão da modernidade. Se sai para passear de carrinho, você é abandonadora, porque lugar de bebê é no colo. Se usa canguru, não é de vanguarda. E se usa sling, está sufocando e apertando a criança, que pode cair daquele monte de pano embolado a qualquer momento. Já ouvi tudo isso e mais mais pouco. Porque não, não temos chance nenhuma de acertar perante os olhares julgadores dos outros. A saída é tentar levar no bom humor e responder com graça – sempre que possível, lógico.

Eu, por exemplo, estou grávida de 9 meses. O que mais escuto no momento são exclamações, acompanhadas de perguntas que sugerem respostas óbvias, do tipo: “Nossa!!! Ainda não nasceu???”. Ou ainda: “Você vai tentar o parto normal??? Corajosa, hein?” Como se um parto normal fosse uma zebra, uma questão de sorte, algo que se deva “tentar”. Tenho muita vontade de responder com a pergunta invertida, do tipo: “Acho que vou tentar uma cesárea mesmo. Já aproveito a cirurgia e extraio um rim, afinal tenho dois, e essa história de fazer xixi naturalmente, toda hora, sentada de cócoras, é coisa de índio. Não precisamos mais dessas coisas, dado o avanço da medicina, não é mesmo?”

Tem ainda o povo que me dá receitas. Há inúmeros chás para apressar o parto. Falaram-me sobre chá de pimenta, de barba de milho, de canela, de boldo. Casca de abacaxi. Semente de romã. Nada muito apetitoso, como se pode imaginar (fico ansiosa por alguém me sugerir um ganache de chocolate com amêndoas sobre sorvete de creme). Também me mandaram transar freneticamente – de preferência com meu marido, mas se ele não quiser pode ser com alguém que me ache sexy neste momento da vida. Sim, até adultério me sugeriram – sem nenhum constrangimento.

Este mar de opiniões às vezes cansa (e como cansa…), mas confesso que já consegui pescar coisas boas que me ajudaram muito quando meu filho era bebê e eu não tinha experiência nenhuma. Há truques de mãe preciosos, sobretudo para momentos difíceis, como hora de dormir, de comer, cólicas e doenças em geral. Lembro que um dos mais divertidos – e inexplicáveis – era ligar o secador de cabelos para meu filho ouvir o barulho e adormecer. Impressionante como dava certo. Parecia mágica: ele fechava os olhos instantaneamente. E eu caía na gargalhada. Quando eu não estava em casa, perguntava pro meu marido: “E então, ele dormiu com ou sem secador?”. Parecia conversa de maluco.

Uma coisa é certa: depois de engravidar e ter filhos, você tem duas opções. Ou fecha a cara e não divide o elevador com ninguém, ou passa a ver chá de milho e som de salão de cabeleireiros com outros olhos. Afinal, nem tudo é somente o que parece ser.

 

 

 

Imagem: Speech bubble by Liviu.Ispasoiu and Mother by Francielly Costantin Senra from The Noun Project.

 

 

 

 

 


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