Amamentação [parte 2]

Leite Materno – O alimento completo (Parte 2)

Na semana passada, apresentei a primeira parte da entrevista que fiz sobre amamentação com a nutricionista Luara Bellinghausen Almeida, especialista em nutrição materno-infantil (UNIFESP), mestre e doutoranda em Nutrição em Saúde Pública (USP) e professora universitária. [Não viu ainda? Confira AQUI] Hoje, vamos a outras questões que podem ajudar a mães que, como eu, tiveram alguns problemas durante a amamentação. Espero que elas contribuam para que todas vivam plenamente este momento mágico de cumplicidade e muito, muito amor!

 

3) O BEBÊ DEVE MAMAR NOS DOIS SEIOS TODAS A MAMADAS OU APENAS EM UM?
Isso é bastante variável, depende do “ritmo” do binômio mãe-filho. O mais importante sobre a alternância das mamas é garantir que ambos os lados sejam estimulados igualmente e que ocorra o esvaziamento. Isso pode acontecer em uma mamada ou ao longo do dia, nas diversas mamadas, dependendo da quantidade de leite que a mãe produz e também do quanto que a criança mama. Na prática, deve funcionar assim: se a criança mama de um lado e fica satisfeita com a quantidade de leite disponível nesta mama, a mãe troca de lado apenas na próxima mamada. Mas pode acontecer da criança esvaziar uma mama e não ficar satisfeita. Neste caso, se oferece a outra mama na mesma mamada, e na próxima inicia-se por esta que foi ofertada por último. A mãe deve estar atenta se as duas mamas estão sendo esvaziadas ao longo do dia e também aos sinais de saciedade da criança. O esvaziamento das mamas é fundamental para o sucesso da lactação, pois garante a manutenção da produção de leite, evita o ingurgitamento (o leite empedrado) e as rachaduras. E, super importante: permite que o bebê receba o leite de regiões mais posteriores – uma porção de leite que fica armazenado em estruturas mais internas das mamas e que é mais nutritivo (mais gorduroso e mais calórico).

4) POR QUÊ NÃO DEVEMOS OFERECER OUTROS ALIMENTOS, COMO CHÁS, SUCO OU MESMO ÁGUA AO BEBÊ ATÉ COMPLETAR 6 MESES?
Porque até este período nenhum outro tipo de alimento ou líquido é mais importante do que o leite materno. Nesta fase, a capacidade gástrica é muito limitada, então, se oferecemos outros líquidos ao bebê, a capacidade digestiva é ocupada por substâncias menos nutritivas que o leite materno e a criança acaba mamando menos, recebendo menor quantidade de leite. Isso pode ter impacto negativo em seu ganho de peso e crescimento. Outro motivo é a imaturidade do trato gastrointestinal do bebê. Muitas estruturas deste sistema ainda estão se formando, de forma que o leite humano é o único alimento que o bebê está totalmente apto a receber. Qualquer outro alimento pode provocar irritações na mucosa (parede intestinal) e até mesmo levar a disfunções intestinais, provocando sintomas como gases, cólicas, diarréias, prejudicando a absorção de nutrientes. Além disso, ainda tem o risco destes alimentos e líquidos ou dos utensílios utilizados para administrá-los serem veículos de contaminação por micro-organismos que podem causar doenças. Vale a pena reforçar que a criança receberá toda a hidratação que necessita por meio do leite materno, não havendo necessidade de oferta de água ou outros líquidos. Já a mãe deve ingerir líquidos em abundância para garantir a adequada produção de leite.

 5) ALGUMAS VEZES AS MAMÃES TÊM PROBLEMAS PARA AMAMENTAR E DESISTEM DA TAREFA TROCANDO O LEITE MATERNO POR FÓRMULAS LÁCTEAS, ISSO TRAZ ALGUM PREJUÍZO AO BEBÊ?
Se as fórmulas lácteas forem administradas adequadamente, não trazem prejuízos, de modo geral. Uma mamadeira dada com muito amor tem muito valor. A questão é que a criança e a mãe deixam de receber alguns benefícios exclusivos do aleitamento materno quando se recorre ao aleitamento artificial. Costumo dizer que a maior parte dos nutrientes do leite materno podem ser “imitados” e colocados em uma fórmula láctea. Mas o leite humano tem muito mais do que nutrientes, e estes ainda não podem ser enlatados. Por exemplo: o leite materno contém uma série de substâncias que irão promover o desenvolvimento do sistema imunológico do bebê, como os anticorpos, ou imunoglobulinas, e enzimas, por isso a criança em aleitamento materno adoece menos e está menos propensa a desenvolver alergias.
O aleitamento também favorece o desenvolvimento do sistema digestivo e a formação da flora intestinal, pois é rico em prebióticos e probióticos. Também há inúmeras evidências de que o aleitamento materno seja um fator de proteção contra a obesidade infantil, por ter uma ação de regulação no mecanismo de fome e saciedade do bebê.
Acredita-se que a amamentação seja um fortalecedor do vínculo afetivo entre mãe e filho pela relação e o contato que se estabelecem durante esta prática e também pela ação do hormônio ocitocina, que desencadeia sensações prazerosas na mãe e no filho. Dar de mamar ajuda a mãe a recuperar o peso após a gestação, pois a produção de leite aumenta incrivelmente o gasto calórico materno, podendo emagrecer cerca de 400 gramas por semana. Além de contribuir para que o útero se contraia e retorne mais rápido ao tamanho normal. É também preventivo contra o câncer de mama.
O aleitamento materno tem inúmeras vantagens que não podem ser enlatadas, definitivamente!

 

6) HÁ MÃES QUE CONTINUAM A AMAMENTAR SEUS FILHOS MESMO DEPOIS DOS DOIS ANOS, POR EXEMPLO. ISSO TRAZ PREJUÍZOS PARA A CRIANÇA?
A criança não necessita mais do leite materno após os dois anos de idade. Já é capaz de obter todos os nutrientes que precisa a partir da alimentação normal e o seu sistema digestivo já está suficientemente desenvolvido para receber uma boa variedade de alimentos. Já não é mais um lactente e, portanto, as suas necessidades nutricionais serão alcançadas mediante a ingestão de uma diversidade de alimentos. Desta maneira, terá prejuízos nutricionais se as refeições estiverem sendo substituídas por leite materno.
Outro aspecto é que a criança nessa idade já tem a dentição formada e deve ser estimulada à alimentação sólida, pois a mastigação contribuirá também para o adequado desenvolvimento da fala.
Mas, em geral, os prejuízos do desmame tardio são mais de ordem psicossocial. A criança em idade pré-escolar deve desenvolver características de autonomia, exploração do mundo exterior e sociabilização, de forma que a continuação do aleitamento materno pode levar à direção oposta disso, criando uma situação de extrema dependência entre mãe e filho.

 

Fotos: (1) Carin Araujo; (2) Tatlin


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