Tosconto de Natal

tosco+pai+natal

Então é Natal. Como diria Simone.

Todo mundo na rua comprando presentes. Riscando em suas listas os nomes já contemplados.

Eu e Lucia escolhemos não nos darmos presentes, foco na menina. Faz parte do plano também não viajar. Deixar São Paulo na época que a cidade fica mais legal? Parece um pouco precipitado.

O legal de ficar por aqui também é acolher na mesma festa os amigos dentro do nosso pequeno trio (quarteto contando o cachorro), sempre cabe mais um e a gente é muito feliz por ter uma casa cheia. A gente gosta mesmo é de juntar, misturar e rir a noite toda.

Na vida participei de poucos amigos secretos – deve ser por isso que me faltam meias.

Montei poucas árvores, e acreditei por pouco tempo na existência do bom velhinho. Aliás, estava na cidade de Dona Francisca, interior do Rio Grande do Sul, quando a minha dentista Neiva, que dizia que eu era seu namorado, e eu gostava muito quando ela dizia isso, ao me ver olhando para o céu estrelado da pequena cidade, me deu a notícia que ele não existia, era só uma lenda. A partir desses dia, foquei só nas estrelas.

Pensei: por quê meu pai e minha mãe mentiram pra mim?

Agora fazia sentido, todo aquele monte de Noéis. Numa festa que fui, algum dias antes de saber a verdade, tinham três dando balas pra gente, um deles chamava mais atenção, pois acho que sua mãe engomou o seu chapéu, e enquanto os dois da direita tinham o gorrinho clássico, o Noel engomado tinha um gorro ereto, e assustador. Três Noéis, que farsa!

Passei a não acreditar mais nele, mas adorava a programação televisiva nessa data. Muitos filmes sobre o mesmo tema. O legal agora é que sabia que quem comprava os presentes era a minha mãe e o meu pai. Esse Natal ao seis anos foi legal, ganhei uma Ferrari a fricção, minhas irmãs chegaram da cidade onde moravam para estudar, a gente tinha um ritual de um presente para casa, nessa vez que deixei de acreditar no Noel ganhamos um lindo e potente som para a sala da casa. Meu pai ganhou um vinil e as músicas eram bem boas. Minha mãe ganhou um disco com solos virtuosos de harpa natalina, e, mesmo com essa trilha, a festa foi ótima. É um Natal bem vivo em minha memória, embora a imagem do Noel tenha morrido para mim nesse dia.

Num outro Natal, eu e meu irmão saímos para comprar os presentes com minha mãe, acho que com um mês de antecedência. Compramos, mas não nos aguentamos até o Natal, e pedimos para abrir os presentes.

Eu acho que torturamos muito minha mãe, pois depois de um tempo ela deixou que a gente abrisse.

Na casa da vó, na véspera, eu e meu irmão não tínhamos presentes na árvore, que triste, estávamos brincando com eles, mas a gente não teria aquela alegria de abri-los.

Pedimos para nossa mãe embrulhá-los novamente.

Ela fez, mas sem sucesso, quando estávamos abrindo nossos presentes um primo passa e diz…

– Ei, mas esses não valem, já estão fora das embalagens…

Minha mãe devia observar a gente de longe, e nossas caras de quase choro e de “é, tu tem razão” para o primo. Então vem com quatro pacotes e entrega, dois pacotes para cada um, um pequeno e um grande, a gente abre e grata surpresa.

– Ainda bem que eu escondi esses né…

Os anos passaram, os natais continuaram legais. Na minha casa tinha uma certa hierarquia nos presentes que para mim, que era o caçula, era sempre injusto. Enfim, era algo que meu pai e minha mãe tinham. Eles deram uma Ferrorama para mim e um para o meu irmão, meu irmão ganhou um XP 200 e eu um XP 100, uma pista oval, sem a menor graça, já a do meu irmão tinha um desvio muito legal, e mais pista, não só um oval tediosa.

Outro presente hierárquico. Meu pai teve a ideia de dar R$ 2,00 para cada filho, multiplicado pela idade. Ganhei R$ 28,00, fiquei falando da injustiça que é ter 14 anos. Esse natal já estávamos sem a nossa mãe.

Cresci, ainda sou caçula, mas agora tenho uma filha.

Ontem conversávamos.

– Ei, guria, amanhã já é Natal!
– E eu posso ver o Papai Noel?

Fico pensando no fato e me pergunto porque criam uma mentira para depois ter que contar a verdade? Qual o real sentido de alimentar a esperança de que existe alguém que traz todos os presentes que tu quer, basta escrever uma cartinha. No entanto, quando tu tiver 7 anos, terminaremos com essa farsa. Chato isso, mas tenho que responder a pergunta da menina.

– Bah, amanhã vai ser difícil, o Papai Noel vai estar muito ocupado.
– Mas eu posso ir no shopping ver ele?
– O shopping vai estar cheio, e o Papai Noel com muito trabalho, ele até pediu pra comprar os presentes pra ti, depois ele me reembolsa…

Ela não fica muito convencida, mas, na verdade, pouco importa o bom velhinho já que o presente está garantido.

Saio para rua, compro um pequeno Papai Noel e um Chocotone, um presente para a Gessy, nossa amiga e parceira que trabalha aqui em casa.

Estava fazendo um desenho e de repente ela pegunta…

– Esse Papai Noel é pra mim?
– Não, filha, esse nós vamos dar pra Gessy, o pai comprou pra ela. É o nosso segredo.

Ela concorda com a cabeça. Gosta do segredo.

Está sentada na mesa, no colo da mãe. Finalizo o presente, enquanto as três olham um livro sobre o corpo humano – Alice ama saber sobre o corpo humano.

Mostro o presente, Gessy fica muito feliz.

E pergunta pra Alice…

– Você que me deu?
– Aham!
– Você comprou pra mim?
– Aham!

Ela não precisa falar mais do que isso, sorri muito ao ver a felicidade e a alegria de Gessy, e eu sem querer mostrei que uma menina de 4 anos pode ser Noel.

Ela está feliz pela Gessy, e tem nela um grande orgulho por ter dado um presente para amiga que tanto ama.

Aqui não tem pinheiro, não tem presépio. Mas Alice montou já três árvores nesse natal, não proibimos. Agora que ela acredita na lenda vai doer um pouco quando a máscara cair, ou a barba. Mas, enfim, o que eu mais quero é que ela saiba que pouco importa como se comemora o Natal, o que importa mesmo é fazer as pessoas felizes, estar com quem se ama, abrir a casa para os amigos e para família e não colocar fios de ovos no presunto, tampouco frutas cristalizadas na farofa.

Um bom Natal e claro, do seu jeito!

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