A Criança Terceirizada [3]: E os pais, o que dizem?

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Quando resolvi colher depoimentos – estarrecedores – das babás que conheci nos ultimos anos (leia aqui), também passei a ouvir os pais. Ou melhor: escutei apenas aqueles que consegui encontrar. Porque, como disse aqui, boa parte dos progenitores das redondezas nunca deu as caras em público. Há crianças com cerca de sete anos de idade que conheço desde que eram bebês cujos pais nunca vi. Nestes casos, a apuração fica difícil, convenhamos.

A partir destes relatos, achei importante separar o joio do trigo. Uma coisa é terceirizar o próprio filho e abandoná-lo nas mãos dos outros (babás, creches, avós, cuidadores), como citei nos textos anteriores, e que me parece endêmico na sociedade atual. Outra coisa é contar com uma ajuda, que é super bem-vinda – ou melhor, necessária, eu diria.

Ninguém aqui precisa provar nada para ninguém e ser a Mulher-Maravilha ou o Super Homem. Criar filhos não é algo que se faça sozinho. Precisamos, sim, de uma força de vez em quando, seja de uma empregada, de uma escola ou da família. E também não acredito que a mulher seja obrigada, caso não queira por livre e espontânea vontade, a abandonar carreira, trabalho, vida social e tornar-se uma abnegada, totalmente dedicada aos afazeres domésticos. Só deve fazer isso se for de coração. Aí tudo bem. Por outro lado, eu entendo que vivemos numa sociedade em que o trabalho diz muito sobre nossa própria identidade: deixá-lo de lado, para muitas de nós, seria deixar de saber quem realmente somos. E, por mais que uma mãe ame desesperadamente seu filho, se ela estiver insatisfeita com sua situação, não se tornará uma boa companhia, portanto uma boa mãe. Será que a decisão de ter filhos nos obriga a tanto?

De jeito nenhum. Na minha opinião, cada um faz o que acha que deve, desde que assuma a responsabilidade de sua decisão. Não acho que seja preciso estar nem em um extremo, nem em outro. Dez entre dez pais culpam o trabalho (ou o excesso dele) por não estarem presentes na vida dos filhos como gostariam, ou deveriam. Aí é que eu passo a questionar. Todo mundo trabalha 24 horas por dia? Sábados, domingos, feriados, e férias? Francamente, nunca ouvi falar em nenhum emprego assim – e, se houver, está na hora de denunciar este empregador ao Ministério do Trabalho. O negócio é que os compromissos profissionais sempre estão na frente dos filhos – criança pode esperar, o chefe não.

Tenho uma amiga que trabalha feito louca numa grande empresa de comunicação e é mãe de gêmeos, da mesma idade do Benjamin. Ela e o marido se revezam nos cuidados dos meninos. Hoje mesmo sei que ela não vai almoçar porque vai levar as crianças na aula de ginástica do clube – todos os dias, ela sai voando da redação para ter tempo de brincar com os meninos no fim do dia, levá-los para a natação, ou simplesmente estar com eles. Ou seja: ela dá um jeito de nunca faltar com os filhos e ainda assim ser uma profissional. Este é só um exemplo entre muitos. O que significa que é possível, e que trabalho não é desculpa. Só exige esforço e, principalmente, vontade.

Depois de muito quebrar a cabeça, quando Benjamin nasceu, resolvemos que eu trabalharia de casa, e meu marido continuaria trabalhando fora. Eu diminuí muito meu ritmo, o que significa que passei a ganhar menos, muito menos – portanto, evidentemente, aprendemos a viver com menos. Não topo mais me ausentar por longos períodos, nem viajar. Entretanto, nunca deixei minha carreira de lado, nem deixei de trabalhar. Acompanho meu filho o dia todo – mas já tive momentos em que precisei sair por algumas horas e contei com a ajuda (por que não?) de uma babá, de uma empregada, ou de amigos. Sim, é verdade que minha profissão permite este esquema, coisa que não é possível em outras atividades. Mas existem outros jeitos; este é o meu. É o certo? Não sei. É apenas o caminho que escolhemos dentro daquilo que consideramos prioridade na vida. Assumimos a responsabilidade de nossa decisão, sabemos que ela tem seu preço, sem nos sentirmos culpados por isso ou aquilo (culpa é bem diferente de responsabilidade, e é bom que nós, adultos, saibamos diferenciá-las).

Vai ser assim para sempre? Não. Até porque toda criança cresce. Aqui em casa acreditamos que investir pesado na primeira infância com presença constante (não presentes comprados no shopping) significa investir no futuro da humanidade – e esta é a nossa prioridade.

Abaixo, selecionei algumas frases dos pais, em que eles mostram seus argumentos (os nomes foram omitidos para preservar as identidades dos entrevistados).

 

“Ah, eu não acho que terceirizo meu filho, não. Saio para trabalhar de manhã, deixo ele na escola. A babá busca, dá almoço, banho, leva na natação, na aula de música, dá lanche, depois brinca, joga bola, ajuda a fazer o dever, dá o jantar e coloca ele na cama. Às vezes consigo pegá-lo acordado à noite, uns 15 minutos antes de dormir.”

 

“Um dia meus filhos vão me agradecer por terem tido uma escola de alto nível, natação, aulas de inglês, roupas caras, tudo de primeira qualidade. Esta vida boa só é possível porque trabalhamos e ganhamos dinheiro.”

 

“Nossa babá é praticamente da família. Confio nela 100%, está conosco há anos. Quando não posso estar presente, sei que ela me representa totalmente e eu não faço falta nenhuma.”

 

“Você está por aqui sempre? Ai, que bom, agora fico mais tranquila. Sabe, já ouvi falar coisas horríveis das babás. Aliás, será que poderia dar uma olhadinha no meu filho, ver se ele está sendo bem cuidado pela minha babá?”

 

“Filha, querida, obedeça a babá. Mamãe vai passar uma semana fora, mas quando voltar, vai trazer vários presentes para você! Ah, agora, não dá para brincarmos, querida, tenho hora marcada no salão”.

 

“Ah, outro dia meu filho chamou a babá de mãe, acredita? Fiquei louca da vida e mandei a babá embora. Onde já se viu, a mãe aqui sou eu. Agora ele fica assim, todo tristinho, no canto, nem sei por que”.

 

“Minha filha não quer comer e está com febre. Mandei a babá embora porque descobri que ela dava porcarias para ela comer (balas, biscoitos). Agora decidi: vai ficar o dia inteiro na escola, volta só à noite. Vai jantar e tomar banho lá. Não dá para confiar em babás mesmo”.

 

“Olha, essas babás são fogo. Elas sabem que nós dependemos delas e querem ganhar os olhos da cara, agora estão cheias de direitos. Deveres que é bom, nada. Imagina que a minha babá agora não quer mais nem dormir com meu filho, diz que é direito dela voltar para casa à noite. Como eu faço?”

 

“Você conhece alguma folguista para me indicar? Preciso muito. No final de semana, tenho que descansar um pouco, pois trabalho demais durante a semana. Caso contrário, quem aguenta? Mas, olha, marquei um teatrinho com as crianças no sábado, viu?”

 

“Nós passeamos muito aos finais de semana! Neste sábado iremos ao shopping, por exemplo. Depois ao mercado, e em casa colocarei um DVD para eles assistirem, assim posso sair um pouco com minhas amigas. E qual o problema de a babá estar junto? Gente, é só uma ajuda!”

 

“Você é mãe de quem mesmo? Desculpe, é a primeira vez que venho aqui, não conheço direito as crianças. Só dei uma passada mesmo para dar um beijinho na minha filha e estou super atrasada. Conversaremos na próxima. Tchau”.

 

“Estou de licença-maternidade, e devo voltar a trabalhar quando ele fizer 4 meses. Já contratei babás desde já (o bebê tem 2 meses), pois tenho que começar a voltar à minha forma física. Ele está começando a desmamar, pois em breve vou passar no mínimo 10 horas fora de casa. Sabe que estou morrendo de saudade do meu trabalho?”

 

Para finalizar, recomendo fortemente este video, em que o pediatra José Martins Filho, professor titular da Unicamp, fala sobre o assunto:

 

LEIA TAMBÉM:

A Criança Terceirizada [Parte 1]  AQUI

A Criança Terceirizada [Parte 2] – As Confissões das Babás AQUI


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