Por quê as crianças chutam à noite?

Ricardo-Toscani_Coluna-Tosco-Pai

Eu me sinto péssima quando eu estou sozinha.

Foi isso que ela falou depois de um longo interrogatório.
Estávamos deitados eu e a mãe, eu quase sem sono.

– Chegou o Peru…Hoje o Peru é teu…Tu que leva pra cama dela…
– Ué, mas por quê? O Peru é teu!
– Não, o Peru é teu. Ontem fui eu…
– Tu que tem Peru aqui…
– Nã…Nada a ver…
– Quem tem Peru aqui, Alice? A mãe ou o Tata?
– O Tata!
– Viu, o Peru é teu…

– Posso ficar só um pouquinho?
– Só um pouquinho?
– É, como assim, só um pouquinho?
– É só um pouquinho…
– Tu teve um pesadelo?
– É…
– É mosquito? Calor?
– Eu me sinto péssima quando eu estou sozinha…
– Mas por quê não quer ficar no seu quarto?
– Porque, porque, porque…
– Tu teve um pesadelo?
– É mosquito? Calor?
– Calor…
– Humm…
– E aí?

– Fica aí, né…
– Ó, mas se chutar, volta pra tua cama.
– É!
– Fica no meinho, bem quietinha e sem chutes…
– O mãe… Quero suco de uuuuu-va.

Sempre fala assim bem separadinho e cantado, é seu método de persuasão. Puro charme, e o pior, funciona.

– Ó, o suco de uva é teu…

Completa a mãe…

– Bah, mas é tudo eu! Tu nem vai levar o Peru pra cama…

Busco o suco de uva, entrego, desisto. Não vou dormir agora mesmo.
Sento na sacada, aproveito a noite, faz menos calor nela. Sentado na cadeira, jogo um futebol no meu telefone, digo, smartfone.

Acabo o jogo e aqui estou eu refletindo sobre porque as crianças chutam à noite?
Qual o mistério em torno disso?
Estou ciente de que podia dar um google e tentar descobrir, mas prefiro divagar sobre o assunto.

Quando criança, poucas pessoas gostavam de dormir comigo. Nas reuniões de família, quando íamos posar na casa dos amigos ou parentes, sempre improvisavam camas, às vezes dormíamos eu e meu irmão, pés de um na cabeça do outro e vice-versa. Nos dávamos alguns chutes, porém chumbo trocado não dói. No entanto, com minha irmã era diferente. Entre mim e Renata há uma diferença de 9 anos, quase 10, ela é fevereiro eu sou de outubro. Renata não podia dormir em paz, e não que eu quisesse isso, pelo contrário, adoro muito minha irmã, amo muito ela, mas era involuntário, sempre de repente acontecia a agressão.

Pá! Um pé na orelha.
Não mais que de repente.
Pá! Outro pé, só que na bochecha.

Isso é um estopim, uma pesada na bochecha só pode significar o fim…
Uma noite em São Gabriel, na casa dos meus avós maternos, Renata desistiu da velha fórmula de dormir dos parentes na mesma cama, dormimos agora cabeça com cabeça, pés com pés…
Pois é preferível levar chutes nas canelas do que na cara.

Lucia era assim, chutava seus irmãos. Não tenho detalhes, mas certo dia quando fui me queixar dos chutes que levo de Alice, sua irmã me deu essa informação…
Bem, não foi bem essa informação, mas foi algo do tipo, sangue não é água, a fruta não cai muito longe do pé, filho de peixe…E por aí vai.

Enfim entendi que é assim, aqui se faz aqui se paga!

Já levei muitos chutes, já perdi as contas de quantos, a conta que não perdi é que nesses quatro anos, cinco meses e seis dias eu defendi dois chutes no ar!
Sim, antes deles chegarem no meu rosto, um quando ela estava quase com dois anos, o outro quando estava quase com três. Depois disso ela sempre me pegou desprevinido, melhor dizendo, dormindo. Porém, quatro anos e meio de chutes e pontapés sonânbulos me ensinaram que o melhor ataque é a defesa.

O plano é retire-se da cama, arrume algo para fazer por uma ou duas horas, depois volte, ela já deve estar num sono profundo, então retire a criança da SUA cama, do SEU lado da cama e recoloque-a na dela.

 

<<Anterior     Próximo>>


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM: