Tosco Pai :: uma carta para minha mãe

Oi, mãe, sou eu de novo, hoje completa 24 anos que a gente não se vê, não se toca e muito menos lembra o som da voz de cada um.

Vinte e quatro, número simbólico esse, logo para esse teu filho considerado diferente – a palavra é outra, mas eufemismos são bons.

Diferente porque chorava demais, porque me emocionava com filmes e novelas. Eu me escondia no quarto das gurias pra ver Carrossel numa televisão branco e preto. Mesmo gostando de Jaspion, sempre tive uma queda por folhetins. Eu sofri muito com meu irmão pegando no meu pé, me chamando de bicha, hora sim, hora também. Tu dizia “sai de perto, não dá bola”, mas era bem difícil. Ele sempre soube da força que tinha, onde me encontrar e como implicar comigo.

Na praia, também não era fácil. Os primos não davam folga. Sempre houve uma preocupação excessiva com a minha masculinidade ou falta dela. Estamos falando de uma criança de seis anos. É muito importante a masculinidade nessa idade.

A barraca do Genor foi um episódio marcante na minha vida. Voltei pra casa pra almoçar e eu, meu irmão e primo fomos muito importunados pelos mais velhos. Meu irmão e o outro primo foram espertos, entenderam o recado e não voltaram até a barraca, já eu, bom, eu nunca fui muito esperto, já que até tu me chamava de patetinha.

Pronto, era só isso que bastava para toda implicância voltar pro guri de seis anos.

– Dormiu na barraca do Genor! Hummmmm!!
– Humm, tava boa a barraca do Genor? Vocês são namorados?

Foi um verão difícil, não encontrar mais o Genor não iria mais resolver ou amenizar a alcunha já destinada ao guri sensível. Seriam 30 dias intensos. E foram.
Não importava o ano, a cada dezembro e janeiro a mesma piada.

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A quinta-série chega, depois ela insiste em continuar por toda a vida.

Eu estava mal em matemática, escondia bem o boletim (tentava, é claro). As notas eram conceitos: do ótimo parabéns, ao ótimo, muito bom, bom, suficiente e insuficiente. Esse último, nessa etapa, muito frequente.

Precisava de aulas particulares, reforço. Tu pensou no professor Justino, antigo colega – até hoje não sabemos se afastado ou aposentado -, que na época tinha o Tyno Cabeleireiros, dobrando a nossa rua. As aulas eram no salão.
Foi uma prova de fogo.

Mãe nunca te agradeci por isso. Me fortaleceu.

Todo dia, quando tinha a aula de reforço e me perguntavam onde era, eu escondia, mas sempre aparecia meu irmão respondendo o que eu preferia omitir.

– É lá no Tyno cabeleireiros, ela vai ter aula particular com o Tyno! Hummmm!!

Na época, o folhetim era Barriga de Aluguel, eu usava um cabelo um pouco compridinho, com um “rabinho”, péssima moda dos anos 90. Na novela tinha um personagem interpretado por Jairo Mattos, o Doutor Tadeu, fiquei conhecido na rua como “Doutor Tadando”, devido as aulas particulares com Justino.

Em 1991, morreram Djalmira e Deuzilia e uma tosse insistente em ti foi finalmente diagnosticada. Teve cirurgia, quimioterapia e, em 9 de março de 1992, tu foi embora.

Eu já não tinha mais aulas com o Tyno, a gente mudou. Mas bem mais que mudar de endereço, mudou algo em mim, fiquei praticamente imune a esse tipo de implicância, diminui preconceitos.

Fui o único a me aproximar de Luciano, o menino diferente, de voz estranha e caminhar bem incomum. Quando se perde a mãe cedo, as implicâncias são menores, ou eu nem sentia.

Caminhávamos juntos até o ponto de ônibus, conversávamos. Luciano não se encaixava, pouco jogava futebol, eu não jogava bem, mas ser canhoto ajuda, me enturmei melhor. De repente, eu já estava fazendo piadas de Luciano.

Quando furei a orelha, voltei a ser piada de novo.

– Quem usa brinco é viado.

Eu só tentando, parecer legal pras gurias.

– Principalmente na direita.

Tiravam sarro que eu não sabia – e ainda tenho dificuldades, de diferenciar esquerda de direita.

Quatorze anos. Dois anos se passaram da tua morte. Ia muito a Porto Alegre, e o brinco na orelha é a nova barraca do Genor. Não aguento as piadas, e à medida que cresci elas ficaram mais fortes, mais contundentes, enfraqueci.

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Num dia, caí.

No apartamento da minha irmã, na Rua Lima e Silva, no Bairro Cidade Baixa – ou Cidade Bicha, como gostavam de dizer meus primos -, chorei e perguntei:

– Eu sou gay? Porque eu não sei, mas desde os seis anos é o que mais escuto.

Minha irmã, olhou no meu olho, conversamos muito, contei que minhas dúvidas eram:

“O que eles sabiam mais de mim? Por que sempre as piadas? Por que eu não posso chorar assistindo Ghost? Por que eu tenho que manter o nó garganta pra ninguém pensar algo de mim que eu nem sei porque pensam?”

Foi uma conversa longa, mas depois a piada sumiu e passei a ser respeitado.

Quem sabe minha irmã – que um dia enfrentou meu pai quando ele disse na minha frente “homem não chora” e ela braba disse “chora sim. Tu é homem e já te vi chorando!” -, falou para um por um dos meus primos que o que quer que fosse que eles estivessem fazendo, que parassem imediatamente. E cessou. Passei a gostar mais das minhas férias na capital.

A maior herança que tu deixou para os teus filhos foi essa. As mulheres serem fortes e não dependerem de ninguém, os filhos chorarem, ajudarem nas tarefas domésticas, uma cama tem que ser bem arrumada. Lava a louça, seca a louça (isso sempre achei inútil).

– Não vai ficar menos homem se me ajudar.

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Cresci ouvindo isso e, olha só, vivo com uma menina que sabe instalar chuveiro, constrói móvel de madeira, faz uma luz pra minha cozinha, ilumina minha vida. Essa menina, que eu gosto de chamar de “marida”, tá doente, tem câncer no seio, na direita também.

Esses dias tu nem sabe o que fiz, mãe.

Sim, fiz uma piada sem graça, uma piada horrível. O que eu achei que fosse piada era, na verdade, um insulto ou, na verdade, uma agressão. Ficamos sem nos falar. Quando as palavras ferem é melhor parar de usá-las.

Nesses dias, fiquei sozinho com sua neta, que era pra ser de leão igual a ti, mas se antecipou e nasceu câncer.

Essa canceriana linda e dramática, além de muito carinhosa, me faz lembrar de ti, já te disse.

Ela sou eu, eu sou tu. Tudo que se apagou lá atrás, se renova na minha cabeça a cada dia.

Foram onze dias sem a mãe dela.

Sozinhos, isso foi maior, falo da tua presença.

Depois da minha piada sem graça com sua nora, me concentrei na vida. Primeiro tentei voltar no tempo, mas ainda não tenho inteligência suficiente para tal proeza, então resolvi me concentrar na vida. Replantei todos o vasos, cuidamos das plantas juntos, ela pintou um vaso, comprei uma violeta, tua flor preferida, a gente se concentra tanto na perda que eu tinha esquecido como era fácil ter a tua companhia de novo, era só ter ao meu lado a tua flor preferida.

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Tu te foi um dia depois do dia da mulher. Vinte e quatro anos depois, esse menino diferente se presenteia com uma flor.

Eu fico com a flor, nesse e nos próximos 8 de março, para as mulheres, troco a flor por respeito.


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