Deixe seu filho sonhar

Protecao+familiarNa semana passada, um pai se embrenhou numa manifestação em São Paulo, no meio de black blocs, para tirar o filho do protesto (veja AQUI). Ele se dizia preocupado com a segurança do rapaz. E eu acredito mesmo que estava.

O menino resistiu. Pediu para ficar. Implorou que o pai o deixasse protestar, porque acredita que é possível reivindicar seus direitos. O pai, visivelmente nervoso, chegou de forma truculenta, pegando no braço do jovem, e dizendo em alto e bom som, diante de câmeras e quem mais quisesse ouvir, algo como: “Enquanto eu te sustentar, eu mando”.

Não duvido das boas intenções deste pai. Nem de seu nervosismo no momento, do medo de deixar seu filho numa situação perigosa, em que ele pudesse se ferir. O que me incomoda é o argumento e a forma.

Primeiro, essa história de dizer “a casa é minha, eu pago as contas, eu te sustento, portanto você segue as minhas ordens” não faz sentido nenhum. É óbvio que nós, pais, pagamos as contas. É nosso dever – inclusive perante a lei. Ou alguém acha que um menor de idade deve trabalhar para pagar sua comida, sua casa, seu colégio? Então devo colocar meu filho para trabalhar desde os 4 anos para se manter? Claro que não. Alguém deve sustentar nossos filhos até a idade adulta – e esse alguém somos nós, aqueles que os colocaram no mundo, seus responsáveis legais. Qual a outra opção? Entregar as crianças para a tutela do Estado? Portanto, vamos parar de dizer isso, por favor. Se você paga as contas, não faz mais do que sua obrigação. Quando decidiu ter uma família, e, portanto, filhos, a casa deixou de ser só sua. Sua casa não é uma filial de uma empresa. É um lar, onde seus familiares dividem o espaço – independentemente de quem ganha mais. Filhos não podem (nem devem) se sentir um peso no contracheque. Uma coisa é ensinar a valorizar o trabalho dos pais – outra coisa é jogar na cara que quem manda é quem ganha dinheiro. Amor e preocupação, argumentos alegados pelo pai do video, não conversam com a lógica mercantilista.

A segunda coisa que me incomodou demais nessa história foi a forma como este pai arrancou do menino – aos olhos do Brasil inteiro – a possibilidade de sonhar. O jovem chegou a dizer : “Pai, este é meu sonho. Eu quero meus direitos. Sei que sou menor, mas tenho meus direitos. Deixa?”. Quando o pai respondeu: “Você não vai mudar o mundo, meu filho”.

Ainda que a truculência dos black blocs seja uma forma de protesto bastante questionável, aquele menino estava ali cheio de sonhos. Talvez estivesse indo por uma via complicada, sim, e precisasse de alguém que lhe desse um outro caminho. Mas arrancar os sonhos de um jovem desta forma é como lhe arrancar a alma. Dizer que ele não vai mudar o mundo é tirar das suas mãos a possibilidade de um futuro mais digno. É dizer que nunca haverá luz no fim do túnel. Se alguns de nós, adultos, infelizmente chegamos a esta conclusão, foi porque nos deixaram cicatrizes. Não causemos a mesma ferida. Não tiremos dos nossos filhos a possibilidade de fazer deste planeta um lugar melhor para viver. Podemos orientá-los para que não percam a ternura, e não machuquem ninguém, claro. Mas deixemos a chama acesa.

“Eu te amo, cara, não quero que você se machuque”, completou o pai, emocionado. A gente quer proteger tanto os filhos dos sofrimentos da vida, que muitas vezes metemos os pés pelas mãos. E assim causamos um mal maior. Na minha opinião, foi isso que aconteceu.

Existe um texto, atribuído a Willlian Shakeaspeare, que tem um trecho que diz mais ou menos assim: “Depois de algum tempo (…) você aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes, e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso”. Como ser humano, não consigo pensar em nada mais verdadeiro.

 

 Family by Wilson Joseph from The Noun Project


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