Diário de NY #13: o bom e o ruim da escola nos EUA

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Ir à escola em outro país está entre as questões mais desafiadoras, complexas e, ao mesmo tempo, integradoras que tenho visto nesta viagem. Minha vida na Universidade de Columbia num projeto de pós-doutorado tem seus compromissos, mas eu organizo meus horários conforme meu projeto, aproveito tudo o que a estrutura da universidade pode me oferecer e toco adiante sempre que a vida de mãe me permite. Mas vida escolar, mesmo, é a do Gabriel, no 1º Ano numa escola pública norte-americana.

Já comentei aqui que ele caiu de cara numa turma sem brasileiros, sem nenhum conhecimento prévio de inglês a não ser as frases “what’s your name?”, “My name is Gabriel”. Com a pronúncia brasileira do seu nome ainda. Hoje, quando estamos chegando aos seis meses aqui, e tendo o mesmo tanto pela frente, Gabriel já sonha em inglês, forma frases, traz expressões novas e que não sou eu que ensino, compreende palavras nos programas de TV e desenhos animados, quer conheça a palavra ou não. O que dizem sobre as crianças pegarem fácil o idioma é verdade no que diz respeito à desenvoltura e disponibilidade delas de aprender, mas a palavra fácil não é bem a que eu empregaria. Acho que é um desafio e tanto, um bocado trabalhoso, mas que elas encaram com a coragem que os adultos já perderam.

Mas o que chama atenção não é só o aprendizado do idioma, que numa aventura como esta não acontece apenas na escola. O interessante é ver como funciona o próprio sistema escolar. Acompanhando o desempenho do Gabriel, tenho uma lista de elogios e críticas. Em relação à forma como tratam as crianças em diversos momentos eu tenho mais reclamações ou observações que me levam a entender porque os americanos adultos são de determinadas formas. O conceito de winner e looser já começa na escola. As crianças que “incomodam”, que não se “comportam” – e isso inclui desde realmente cometer alguma violência contra um amigo ou apenas não se sentar como devem na cadeira –, eles sistematicamente passam a construir certa exclusão em sala de aula. Gabriel foi empurrado por um amigo e bateu a cabeça na parede. Sim, me assustei, coisa grave. Parece que o tal amigo já vinha trazendo problemas para a turma há algum tempo e, também, sabe-se que em casa a coisa pra ele também não é boa e tal. A professora me pediu que dissesse para o Gabriel se afastar dele, tanto para não ser mais atingido quanto para não aprender a fazer coisas indevidas. Ao invés de buscar a integração, essa foi logo a orientação

Além disso, as regras do bom comportamento são tão focadas no controle do corpo e dos movimentos, que se comportar bem significa manter a fila alinhada, achar o seu lugar nela e o seu quadro no piso quando eles estão em formação. Essa parte o corpo dançarino do Gabriel não aguentou. Um dia fiquei com pena. Lá vinha a turma em fila para o pátio e Gabriel caminhava alinhado mas dançando, rebolando e, quando me viu, dançou mais ainda. Mas quando percebeu que a professora lhe observava, logo botou o dedo na boca em sinal de silêncio e fez o corpo parar de remexer. Uau, ele estava se comportando e mostrando à professora que tinha aprendido a lição. Eu, por dentro, morri um pouco, pensando que este não era exatamente o “comportamento exemplar” que espero dele. Ainda mais eu que prezo e incentivo seu comportamento musical, evidenciando sua “mola interna” de músico. Mas sigo a linha de explicar pra ele, quando ele se rebela de outras formas menos legais, como empurrando um amigo ou correndo no refeitório na hora do almoço, que as coisas mudam mesmo do jardim de infância para o 1º Ano e que, aqui, as regras são essas. Melhor integrar-se e aproveitar seu tempo na escola da melhor forma. Melhor assim do que ir pra secretaria (to the office, como ele já fala) depois de cada “mau comportamento”.

Bom, a avaliação da escola parece bem negativa, não é? Mas o saldo é positivo. Porque apesar dessas questões que, para a experiência de apenas um ano do Gabriel serão passageiras, eles me ganharam por outros aspectos. O conteúdo do ensino até agora tem me surpreendido. Especialmente em matemática, leitura e ciências. Gabriel já está somando com dois dígitos, incentivam leitura diária em casa de 30 minutos, enviam livros na mochila todos os dias, fazem experiências com os estados da matéria há meses. E o melhor de tudo: a escola se integra à cidade que, esta sim, é uma escola. Gabriel vai visitar a Biblioteca de Nova York esta semana com sua turma. A mesma biblioteca que me deixou encantada semana passada e onde decidi ir trabalhar um dia por semana na sessão de periódicos. Então, apesar da falta de traquejo para o trato humano e a forma de integrar os garotos mais instáveis, com corpo solto ou que têm problemas em casa, eles estão ligados às melhores oportunidades que NY pode oferecer. E isso Gabriel vai aproveitar um bocado e nós não vamos esquecer. Esta semana ele me perguntou se pode voltar a Nova York sozinho quando for grande. Claro que sim. Essa é a ideia. Voltar para NY e para o mundo.

DIÁRIO VISUAL

ENCONTRO COM O AUTOR DE AS HORAS Que lugar incrível a Biblioteca Pública de Nova York! Fiquei lá quase 3 horas e não saí do térreo e do andar abaixo. E ainda peguei um evento GRÁTIS com o escritor Michael Cunningham. O autor de As Horas falou de seu novo livro, que sai em maio, The Snow Queen, que fala sobre relações pessoais, relações em família, drogas (snow), buscais individuais, visões e outros temas. Tudo passado em NY. Enquanto o livro novo não sai e já que meu As Horas, em português, está no Brasil, comprei um dos livros dele que eu não tinha lido e pedi autógrafo, bati uma fotinho e um papo.

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EXPOSIÇÃO SOBRE LITERATURA INFANTIL De quebra, ainda visitei na Biblioteca Pública de Nova York uma exposição super legal, e também grátis, sobre literatura infantil. A criança sendo considerada leitora, as crianças ignoradas como leitoras, os livros infantis em várias épocas e os vários autores, obras originais, instalações. As criancas devem adorar! E o Gabriel vai segunda-feira em passeio com a escola. Coisa boa! Vai fazer a carteirinha da biblioteca e tudo.

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A PRIMEIRA ÓPERA Fomos na The Enchanted Island, no The Metropolitan Opera. Lindo! Cenário incrível, reunindo tecnologia audiovisual com sobreposição de camadas de cenário material. Super elenco, que incluiu até o Plácido Domingo como Netuno. Gabi, em comportamento exemplar, seguiu e curtiu o desafio. Claro que um pouco longo para um garoto de 6 anos (das 8 às 11 da noite). Mas ainda saímos de lá rumo ao metrô, até Columbia e até em casa.

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DOMINGO NA BALADA Fizemos a festa na Sounds of Brazil. Mas, apesar do nome, o som era salsa… E dançamos um bocado. Ele é o par perfeito!

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