A difícil arte de saber perder



tosco-pai-arte-da-perda-nmagazine-01
tosco-pai-arte-da-perda-nmagazine-02
tosco-pai-arte-da-perda-nmagazine-05
tosco-pai-arte-da-perda-nmagazine-03
tosco-pai-arte-da-perda-nmagazine-04
tosco-pai-arte-da-perda-nmagazine-06

Entrei na fase do faça o que eu digo não faça o que eu faço.
Tenho medo do mundo.
Eu corro, tem me ajudado muito. Me transformei numa hashtag, sou o #balboagordo.
Saio pela manhã quando consigo – a rua é mais tranquila – ou bem de noite. Antes eu corria nos parques, o do Povo ou no Villa-Lobos, em São Paulo. No Villa foi onde aprendi e tomei gosto pelo esporte, mas a rua é mais bonita, e causa mais medo. Acho importante continuar sentindo medo.

Numa dessas manhãs eu voltei pra casa e, seguindo a rotina, levei Alice na escola.

– Pai, eu vou ganhar a corrida.
– Não, estou correndo…
– É feio dizer que não quer correr só porque tá atrás.
– Cara, eu tô com o meu tênis de corrida, meu calção de corrida, minha camisa do Inter, o Colorado das glórias. Tu acha mesmo que eu vou perder? Eu sei que vou ganhar, e como tu não sabe perder, eu não quero ganhar…
– Eu sei perder…
– Ah, não sabe…
– Sei, sim…
– Alice, se eu ganho tu faz essa manha pra mais… É difícil perder. Ganhar que é fácil?
– Quê? Ganhar é fácil?
– É. Quando tu ganha tu não sabe como tu vai fazer? Tu não quer ganhar? Não tá com tudo certo já na cabeça? Comemorar, fazer uma festa!
– É, eu vou fazer assim: GANHEEEEEI!
– Então? E perder? Tu sabe o que vai fazer quando perder? Perder é bem difícil. Ninguém se prepara pra perder.

Eu não sei perder. Nunca soube, estou nesse momento mentindo pra menina. E criança vê nos olhos. Eu quando tinha os olhos dela, não era bom em nada. Meu finado e querido tio Wilson me chamava de “figo”, “figuinho”, por ser muito carinhoso comigo. Figo, no Rio Grande do Sul, na gíria do futebol, é um sujeito que não domina a arte, muito menos o amadorismo, meu caso. Minha estreia num campeonato de futebol na segunda série foi traumática. O que a seleção da Copa de 2014 viveu, eu vivi em 1987, a diferença é que os meninos da segunda série da turma 27 não tiraram o pé como fez a Alemanha, pelo contrário, afundaram ele dez vezes na nossa rede, aquela turma com meninos gigantes e repetentes, 10 x 01 foi o placar. Voltei pra casa desolado, cabisbaixo, arasado – ao menos morava perto –, sem palavras para me defender.

Evolui pro futebol de botão. Raras vezes eu superava o meu irmão. As poucas vezes que consegui, até hoje não tenho certeza se são minhas façanhas. Num campeonato de futebol de botão da rua, o primeiro deles, fui bem, mas não fiquei em primeiro. Tinha 6 participantes, Tiago (dono-da-casa), Rodrigo (meu irmão), Cabide, Sílvio, Rafael e Ricardo (que sou eu). Tirei terceiro lugar, aprendi a importância de um terceiro lugar. Pra ser terceiro é preciso perder, no entanto se despede com uma vitória, a alma fica mais leve. No ano seguinte, no segundo campeonato de botão, o Sílvio, que disputou o terceiro lugar comigo na outra ocasião, levou a melhor. Segurei o choro enquanto pude na frente dos amigos, mas os olhos brilhavam e nas quadras seguintes antes de chegar de casa…

– Calma piá! Perdeu, perdeu…
– Mas eu não queria…
– Vai chorar?
– Não…

Nesse momento, a voz já não era a mesma e os olhos estavam molhados…

Eu não sei perder. Preciso me preparar para perder. Lógico que pra perder eu nunca precisei aprender, nasci pronto, mas não aprendi com as derrotas, eu devia ter me preparado antes. Meu pai ainda insistia na carreira de futebol. Colocou a gente numa escolinha.

– Tenho um filho destro, um ótimo ponta direita, ele é rápido. E tenho um filho canhoto, que dá um bom ponta-esquerda.
– Ok.

Foi o que concluiu o treinador com as informações que recebeu. Jogamos em times diferentes. Garotos com diferença de dois anos de idade estavam misturados em quatro equipes. Na primeira oportunidade como ponta-esquerda, perdi a bola. Saí numa raiva atrás do menino, também era rápido pra correr, alcancei o cara, dei um carrinho e coloquei a bola para lateral. Pronto, saí do ataque pra defesa, virei um lateral-esquerdo.

Teve uma ocasião que jogamos com um time de uma cidade vizinha, tinha uns meninos bem maiores que o nosso grupo. Tive que marcar o mais alto e mais bonito, nesse dia pensei que se eu tivesse o porte daquele guri, todas as gurias iriam querer dançar música lenta comigo. Fixei o olhar no cara e não deixei ele passar, fiz muitas faltas, mas ele não fez nenhum gol, não deixava o gigante belo passar e fui ovacionado pela primeira vez. Minha carreira se encerra no fim de minha faculdade, onde quebro a perna, porém, eu tinha marcado o gol de empate, e me lesionei quando os oponentes fizeram 2 a 1. Doeu. A perna nem tanto, perder o último jogo e o ônibus que me traria para São Paulo doeu bem mais.

Foram tantas derrotas que aprendi a perder no jogo e, sim, hoje entendo e ensino que o importante é competir. Mas perder na vida ainda não sei. Mãe, cachorro, tios, amigos, amores… Perder dói, e a gente nunca tá preparado. Lá na segunda série os repetentes da turma 27 apertavam nossas mãos de meninos nerds antes do jogo começar dizendo:

– Te prepara pra perder…

Como eu queria que eles tivessem dito isso com bem mais antecedência.

Ela não sabe perder, saiu igualzita ao pai, mas, filha, tu vai perder.  E todas essas vezes vão doer. Quando for um jogo que depende de ti, ou quando tu não tem forças e nem argumentos pra discutir no jogo a vida – ou morte para ser mais sincero. A gente perde muito mais do que ganha. Nesse caminho todo, pode ser até que a gente se perca. Esse não é um discurso derrotista, quero que ganhe, vou estar sempre torcendo pelo teu sucesso e vitórias, mas ganhar é fácil, não quer dizer que não precisa de dedicação, mas perder é muito mais difícil e também precisa de muito preparo.

Hoje, tua mãe venceu, tirou primeiro lugar na nossa tradicional corrida nas escadas, tu ficou com o segundo lugar e, de longe, eu ouvi, sendo o terceiro, tu dar os parabéns para tua mãe. Eu ganhei, sou um vencedor, tenho uma menina linda que vai me ensinar a perder.


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM: