Era uma vez… três princesas



quarto-cinderela-tosco-pai-nmagazine-01
quarto-cinderela-tosco-pai-nmagazine-02
quarto-cinderela-tosco-pai-nmagazine-03
quarto-cinderela-tosco-pai-nmagazine-04
quarto-cinderela-tosco-pai-nmagazine-06
quarto-cinderela-tosco-pai-nmagazine-07

Era uma vez… uma quinta-feira, 26 de março. Meu telefone toca. É o Eduardo, o editor da coluna Tosco Pai na n.magazine.

– E aí, Edu! Que manda?
– Vi que você subiu as fotos da coluna, e vi o texto, mas não é sobre isso que quero falar. Na verdade, tenho um convite bem inusitado…
– Opa, manda aí!
– Cara, o Tosco Pai e a Alice foram convidados a passar uma noite no quarto da Cinderela no Novohotel, no Morumbi. E se a Lucia quiser, também pode, porque é quarto familiar. O que me diz? Topa?
– Bom, eu não sei o que dizer. Eu na verdade não curto, mas a guria vai dar pulos, vai ficar muito feliz, e hoje em dia já não se trata só de mim né? Não sei se a Lucia vai, mas com certeza a Alice vai e eu tenho que vou ter que acompanhá-la.

Topei, desliguei o telefone. Ricardo Toscani, não toparia, mas esse nome não anda mais sozinho, esse nome agora é acompanhado de Alice de Menezes Toscani.

Nunca gostamos de princesas por aqui…

– A única princesa que eu gosto é a Leia… - Alice cresce sempre ouvindo essa frase da mãe.

Ela se fantasia, me chama de papai rei, pede para falar com honra, termo que utiliza quando faço um anúncio pomposo quando caminha e imito o barulho das trombetas. Porém, não gosto de ser o rei, sempre digo que sou plebeu. Na escola, encontra outras crianças, outras referências. Na rua, todo mundo chama ela de princesa. Começaram a aparecer os livros, os contos de fadas, as colegas que usam fantasias de princesas. A tia e as primas têm fascínio pela monarquia da Disney, eu e Lucia não.

– Essa criança vai ser bem perua, adora um enfeite, um brilho…

Como as bruxas dos contos de fadas, todo mundo lança a maldição sobre a criança filha dos pais alternativos… Maldição lançada, ela tem sua opinião sobre as coisas, digo, princesas.

Dia 27 de março de 2015, São Paulo faz bicicletada para protestar contra a suspensão da implantação de novas ciclovias na cidade, ganha apoio internacional. O pai busca a filha na escola. Ele já sabe que no sábado a menina vai dormir no quarto da Cinderela, ela não – e não vai saber, o pai não sabe lidar com a ansiedade de uma menina de 5 anos. Depois do protesto, seguirão para a festa de aniversário de uma amiga e Alice dormiria tranquila na casa de seus dois amados tios, Preta e Fábio.

– Pai onde você vai assim todo arrumado?
– Tu acha que eu tô arrumado?
– Sim… Onde você vai?
– Nós vamos num protesto, numa bicicletada e depois vamos na festa da Helena.
– E eu não vou posar na tia preta?
– Vai, o Fábio vai lá na festa pra te buscar.

Nesse momento, a mãe de uma coleguinha passa por nós, ela está com sua filha e mais uma amiguinha.

– Ei vocês duas, não corram, senão vocês caem…

Olho para mãe e dou um sorriso.

– Tu vê né guria, pai é tudo igual…
– Mas você não é igual…
– A gente é diferente, mas os pais sempre olham pra vocês quando estão correndo e dizem que vocês vão cair. A gente é assim…
– Mas a gente gosta de correr, a gente é bem agitado…
– Eu sei.
– Pai, você quer dizer que quando as crianças crescem e viram adultos elas perdem a emoção?
– Sim, é isso mesmo.

Falo isso com os olhos arregalados e com um sorriso que mistura orgulho com medo. Coloco a criança na cadeirinha, voo pra casa, dou banho, remédios, ela come algo, capacete, cadeirinha e zarpamos.

– Pai, por que a gente vai nessa inauguração?
– Não é uma inauguração, é um protesto…
– O que é este prontes… proes…Posso chamar de inauguração?
– Pode, mas é protesto. Na verdade, a gente quer mesmo é que inaugurem mais desses caminhos vermelhos que estamos andando com a nossa bicicleta.
– Eu gosto dessas estradas vermelhas.
– Eu também. Gosto muito.
– Por que o prefeito não quer mais as estradas vermelhas?
– Ele quer, mas tem uma moça que não quer…
– O prefeito vai nessa inauguração?
– Não! Quero que sim, mas acho que não. E é protesto, bicicletada, não é inauguração.
– Pai, deixa eu falar do meu jeito?
– Mas aí já não é uma questão de falar do seu jeito, é falar errado. Protesto é quando um grupo de pessoas ou uma pessoa, reivindica, pede algo. Inauguração é quando a gente vai começar algo, iniciar alguma coisa.
– Ah, pai, deixa eu falar do meu jeito…
– Teu jeito tá errado.

Sabe o que quer. Mesmo que não saiba muito o que está dizendo, gosta e quer fazer as coisas do seu jeito.

Encontrarmos o tio Moika decidimos subir a Rebouças, uma rua com uma enorme e vazia calçada. Seria muito útil uma ciclovia na calçada dessa avenida que tem pouca circulação de pedestres. O caminho é longo, minhas pernas vão cansando. Desço da bicicleta, e começo a empurrar…

– Pai, por que você não tá sentado?
– Tá muito difícil pedalar filha o pai vai empurrar.

Somos interrompidos.

– Nossa cê tá indo na bicicletada? Que legal, hein! Qual seu nome?
– Alice.
– Puxa, Alice e você sempre anda assim com o papai?
– É, mas agora ele tá empurrando, eu gosto quando ele anda sentado e pedala.
– Que legal; eu queria que meu papai pedalasse assim comigo, mas agora já tô grande, ele não consegue.
– Pra falar a verdade, acho que eu também não estou conseguindo.

Cada vez ia perdendo mais as forças, mas hoje era o meu dia, estávamos indo protestar por algo que eu acredito. Podemos todos conviver, carros e bicicletas. A cidade está ficando tão boa, quem anda de bicicleta e com uma criança na garupa sabe da importância vital da ciclovia, da segurança que elas proporcionam. Foi lindo chegar e ver tantas bicicletas.

– Eu achei que passeio é quando andam só duas bicicletas ou três, não mil.

Andamos, gritamos, e gritamos tanto que ela sentiu dor de ouvido. E começou a reclamar. Ela não estava lá porque queria, estava lá por mim. Então, às vezes esquecia da dor e seguia batucando no seu capacete e gritando.

– Vai ter ciclovia!!

E depois me estimulava…

– Torce, pai!

tosco-pai-bicicletada

A dor venceu, a menina quis ir embora e a todo tempo reclamava. Reclamou tanto que estourei, respirei e entendi a sua dor, seu incômodo, sua frustração de não estar onde queria.

– Pai, eu não vou na tia preta?
– Vai, amor, o Moika tá vendo por onde temos que ir.

Achamos nosso caminho e a volta também foi longa, eu podia ouvi-la choramingando. Chegamos na festa. Lucia chegou, Fábio também chegou e tudo se resolveu. Quase tudo, Fábio ainda teve que sair de madrugada para buscar um remédio que aliviasse a dor de ouvido de Alice. Depois da festa, voltamos pra casa eu e Lucia. Esse foi meu dia de princesa. E acordar tarde num sábado de manhã é também um lindo conto de fadas.

Sábado, 28 de março, seria o grande dia de Alice, ou melhor, sua noite de Cinderela. Ela chegou em casa às 14 horas, e eu tinha vontade de contar que ela dormiria uma noite num quarto de princesa. Segurei por mais algumas horas. Saímos, fomos até a inauguração da loja de um amigo. Assim pude voltar ao assunto sobre as diferenças entre inauguração e protesto. Por fim entendeu.

Almoçamos juntos, quando o relógio bateu 15 horas, a mãe sumiu num táxi e foi ter seu dia de princesa num festival de rock. Ainda conseguimos nos ver por poucos segundos em casa, o suficiente para um beijo de despedida. Lucia partiu e foi viver sua noite de Cinderela, sem filha, sem marido e com amigos. Rapidamente pedi para Alice tomar seu banho. Ela comia mousse de chocolate.

– Posso terminar meu mousse?
– Pode, mas não enrola! Tem uma surpresa pra ti…
– Pai, você já me deu meu mousse, esqueceu?
– Mas o mousse não é surpresa, é porque tu te comportou bem na semana…

Olhava para mim tentando desvendar que surpresa seria essa. Porém, agora eu estava dominando meus sentidos e conseguiria levar tudo até o fim. Chamei o táxi. Na verdade parei na rua.

– Aceita cartão?
– Não…
– Desculpa…
– Ei pai, você vai sair do táxi?
– Não aceita cartão filha…
– Assim eu vou perder minha surpresa…
– Respondendo assim, nem vai ter surpresa…

Agora sim, chamei um táxi. Pagar como? Crédito. Tudo certo.

– Boa tarde! Seu Ricardo?
– Sim.
– Aceita cartão? - Ela pergunta.
– Hahahahahahaha. - Ri o taxista… - Aceito.
– Viu pai, nesse pode pagar com cartão.

Uma pequena viagem, passando ao lado da ponte estaiada.

– Ei, pai, nós vamos passar ali naquele “prendedorzão”?

Nunca tinha reparado o quanto a ponte estaiada parece um grande prendedor de roupas cheia de pequenos “varaiszinhos”.

– Que lugar é esse? É um hotel? Nós vamos dormir num hotel? E a mamãe?
– A mamãe vai se divertir e dormir em casa!
– Essa é a surpresa? A gente vai dormir no hotel?
– É.
– Boa noite, senhor. Seu nome?
– Ricardo Toscani.
– Ricardo Toscani?
– Sim, Raymundo Toscani.
– Ricardo Tosco?
– Tosco? É, Tosco. Ricardo Tosco.
– Sim, aqui está, quarto 466. Ei, princesa, isso é pra você!

Entregou uma garrafa, com as princesas. Todas elas. Nunca na vida ela ganhou uma garrafa dessas de seu pai, muito menos de sua mãe. Nos seus olhos dava para ver a alegria de quem todas vezes que pediu uma garrafa, camiseta, qualquer coisa relacionada a princesas e sempre ouviu um…

– Princesas são chatas, não fazem nada, vivem esperando pelo príncipe, mandando nos seus servos…

Embora a Cinderela tenha trabalhado muito para madrasta e suas irmãs.

Alice valorizou muito a garrafa que recebeu.

– Essa que é minha surpresa? Vou dormir aqui e ganhei essa garrafa!!

Vendo meu sorriso pergunta.

– Tem mais? Tem mais coisa?
– Não sei, vamos ver… Será que tem?
– Isso é só o começo?

Na casa de Alice entram poucas princesas. Ela ama, se vê como uma.

– Eu gosto da Elza e da Cinderela. Elas gostam de azul que é minha cor favorita e são loiras que nem eu. Eu sou a Elza (olha pra garrafa), não , eu sou a Cinderela.

Já estou com nossas chaves e acredito que o atendente do hotel não me falou mais nada, exceto o caminho e como funcionava o elevador, talvez por ter percebido o clima de surpresa e mistério entre pai e filha. Subimos, e, quando a porta se abriu começamos a procurar o 466.

– 455, 457, 456, 458…460, 462…465.

Vê uma porta azul, com um sapato de cristal. Para na frente do número e diz:

– É o nosso!
– O que que é o nosso?
– Quarto, seis, seis. É aqui. Te falei. Essa aqui é uma das outras surpresas. Eu vou dormir aqui é?
– Vai, cara!
– Caramba! Eu vou dormir como a Cinderela.
– Esse é o quarto da Cinderela!
– Eu sou a Cinderela! Pode ser que eu sou ela! Parece que eu sou a Cinderela.
– Olha, esses presentes são pra ti cara!
– Tudo isso pra mim!!

Viu uma coroa, que era pra ela, e que dessa vez não viria com o julgamento dos pais. Era linda – não para mim óbvio, mas era apenas perfeito para ela. Pediu na mesma hora que abrisse e colocasse na sua cabeça. Fiz, e tive que falar com honra.

– Essa é Alice, tan tan tan tan tan, princesa Cinderela.

Depois de coroada e quando eu arrumava o colar da Cinderela no seu pescoço…

– O meu sonho é ser princesa.

Se dirigiu para frente do espelho, já caracterizada como Cinderela, com um vestido que a mãe evitaria ao máximo que ela usasse, e largou a frase que define a noite. Mira o espelho e dispara:

– Vou começar! Espelho, espelho meu, quem é a Cinderela mais bonita que eu? É você Cinderela! Rá, ra ra!

tosco-pai-cinderela

Um pouco mais adiante, no bairro de Interlagos a mãe assiste o show de Robert Plant.

O pai ri e olha para filha e sempre pergunta.

– O que houve?
– Eu tô feliz!
– Tá feliz com o que?
– Com isso que eu tô fazendo!
– Tá, mas o que tu tá fazendo?
– Sendo uma princesa!

Era nítido, desde a primeira ligação, que eu não ia me divertir, essa noite não era para mim, era a noite delas. Alice ficou muito feliz, trocou de vestidos, assistiu desenhos, comeu na cama macarrão com ketchup, ficou todo o tempo que quis vendo televisão e dessa vez ninguém disse “Chega de televisão, vai dormir”. Ela mesmo, depois de curtir muito e trocar mais uma vez de vestido disse:

– Pai, desliga a telervisão pra eu dormir por favor.

Eu encerro a minha noite de princesa assistindo alguns episódios de Walking Dead no meu computador.

Lucia, estava no show de Jack White, via a queima de fogos que encerrava o concerto. Beberia mais um pouco, brindaria com os amigos, tomaria sorvete, dormiria sem ter que aguentar o ventilador ligado. Acordaria tarde numa manhã de domingo, entraria numa banheira sem água, com um livro na mão e a nova banda predileta nos ouvidos.

O pai e a filha ainda passeiam pelo hotel, Alice molha os pés na água da piscina, não conseguiu nadar nesse dia que amanheceu chuvoso. Molhou as mãos, depois os pés. Caminhou um pouco segurando seu longo vestido de princesa, esse feito pela sua avó. Entram num táxi, chegam em casa.

Em casa, cada um ficou no seu canto, cada um teve seu dia. Separados, porém dentro do mesmo espaço, absorviam cada um suas experiências. Estavam envoltos em seus pensamentos. E em suas cabeças era comum o respeito de cada de um pelos gostos e escolhas dos outros.

Seja a do mais amor menos motor, quanto a do rock e sono sem ventilador ou a da pequena princesa que por um dia foi Cinderela.

Essas três princesas sabem que aceitar e respeitar as diferenças de cada um é que torna a vida mais bela.

Era uma vez… Boa noite, Cinderela.

 

SAIBA MAIS

Confira as informações sobre o quarto da Cinderela do Novotel Morumbi AQUI.


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM: