Os filhos de todas as famílias

Na semana passada, a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, reconheceu a adoção de três crianças por um casal homoafetivo do Paraná. E  mais: reafirmou, com todas as letras, que, perante a lei brasileira, a união entre  pessoas do mesmo sexo constitui, sim, uma família. Ponto.

 

Na mesma semana, veja que coisa, a Frente Parlamentar Evangélica divulgou uma nota de repúdio ao beijo protagonizado por Fernanda Montenegro e  Nathalia Timberg, na novela Babilônia. Fala-se em boicotar a trama, em que as duas tem um filho e são, sim, uma família. Ponto.

 

Recebi recentemente uma pesquisa da Câmara dos Deputados, com a seguinte questão: Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família? O “sim” está ganhando.

 

Como mãe de dois filhos, heterossexual, casada e jornalista, existem algumas perguntas que não saem da minha cabeça. Se puder, me ajude a respondê-las. Mais que isso, procure pensar nas respostas.

 

Por que um casal homossexual não pode constituir um núcleo familiar? Porque não se trata de uma união, digamos, “natural”? Então me diga o que é natural para você. Um homem e uma mulher? Ainda que esta sua “naturalidade” possa existir, me diga, do fundo do seu coração (pode responder baixinho, pra ninguém ouvir): quantas vezes na vida você já teve atitudes que não são consideradas naturais pelos outros? Você se considera menos capaz de educar uma criança por causa disso?

 

Em que medida os meus filhos, paridos por mim, frutos do meu casamento com meu marido, são mais legítimos do que as crianças filhas de casais homossexuais – adotadas ou não? Onde está escrito que uma criança para ser saudável precisa obrigatoriamente ter um pai homem e uma mãe mulher? Quem disse isso? Por favor, vamos deixar Deus fora disso, até porque cada um acredita no seu.

 

Por que você acha que “a cabecinha das crianças” vai ficar confusa se ela tiver dois pais ou duas mães? E como ficam os filhos de pais (heterossexuais) separados? E de mães solteiras? E de pais viúvos? E de pais abandonadores? E de avós ausentes? E daqueles delegados  às babás? Aponte, por gentileza, uma família (eu disse uma só) que não tenha nenhuma questão a ser resolvida com as crianças, que seja aquilo que os publicitários consideram o supra sumo da perfeição.

 

Não existe garantia nenhuma que o filho de um casal homossexual terá problemas psíquicos. O mesmo acontece com qualquer outro casal. Basta lembrar que Hitler e Stalin, por exemplo, foram filhos de pais heterossexuais – e tornaram-se sociopatas que promoveram grandes genocídios da humanidade. Leonardo da Vinci e Michelangelo, em contrapartida, eram homossexuais e nos deixaram um legado inestimável na arte e na ciência. O que a orientação sexual destas quatro personalidades e dos seus pais tiveram a ver com isso? Nada.

 

A formação de um ser humano saudável depende diretamente do amor que ele recebe, sobretudo na primeira infância. Não interessa por quem seus pais se sentem atraídos. Se você só conhece o amor entre um homem e uma mulher, talvez esteja na hora de olhar um pouco mais ao seu redor. Este sentimento lindo – que faz o mundo melhor – está por toda parte. Ainda bem. E nossas crianças merecem todo o amor que houver nesta vida.

 


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