Tosco Pai: a gente cria pro mundo



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A gente cria pro mundo.
Sim, a frase todo mundo já ouviu, já leu, porém, a gente não entende quando é filho, apenas quando se transforma em pai.
Eu lia na parede da minha casa.

“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.”

Não entendia, e só fui entender quando ela nasceu. Fingi entender quando meu pai me entregou a cuia, a erva-mate e a bomba de chimarrão de prata com meu nome gravado nela. Ali eu disse pra ele:

– Para de chorar cara! Quantas vezes tive que ler aquele texto ali da parede dizendo que eu tenho que sair pra vida?
– Eu sei…
Concordava chorando.

Aqui, sempre quisemos criá-la pro mundo. Assim fomos criados, temos bons exemplos. Não há como negar olhando pra mãe de minha filha que minha sogra e sogro fizeram um bom trabalho. Meu pai, então, que se viu sozinho com dois adolescentes, esse, sim, conseguiu amansar e domar um pouco minhas saudades. É um herói. Os bons exemplos nos moldaram e seguimos melhorando a neta deles, criando pro mundo com toda bagagem que nos foi fornecida.

Sempre me relacionei com a ausência de maneira mais sofrida que Lucia. Na primeira vez que cruzamos o Atlântico, deixei aqui me esperando minha cachorra, e como sentia a falta, como incomodava Lucia perguntando se ela tinha notícias, se ela tinha falado com o Cleiton, o babá de Baba. Tudo isso de hora em hora, minuto a minuto, sempre sofrendo,  tal qual ela quando chorava toda vez que eu entrava no mercado, pensando que nunca mais ia me ver.

Depois dessa primeira ida para Europa, em 2008, Alice foi feita. Em julho de 2009, eu teria que começar a tentar entender, de verdade, o texto de Khalil Gibran exposto na parede da casa do meu pai. Aprendemos bem, e Alice, essa sim, nos surpreendeu. A primeira vez que saiu de casa e foi passar uma noite fora foi na casa dos tios Fábio e Camila, os pretos, nosso apelido carinhoso pro casal. Eu andava apreensivo, vivia uma bipolaridade intensa, hora feliz, virando um copo de cerveja completamente livre. Depois a realidade chegava, eu olhava pra Lucia e perguntava…

– Será que que devemos ligar? Será que ela tá bem? Ou eles estão bem?
– Gatinho, eles tão se divertindo e ela tá melhor que nós.

Foi assim mesmo. Diversão garantida. E depois eu relaxei, fazia tempo que não acordava às 13 horas de um sábado.

A menina foi crescendo e muitas outras vezes dormiu sem os pais na casa de amigos. Tirou suas primeiras férias desacompanhada aos 3 anos de idade. E dessa vez eu sofri por perceber que ela não sentiu nenhuma saudade de mim. Pelo menos não demonstrou.

Depois a guria foi fazendo suas próprias escalas e se convidando para novas moradas. Foi pra praia só com amigos, pouco tempo tinha pra sentir saudades novamente. Eu infernizei os telefones e redes socias desses amigos até ter certeza que ele já haviam chegado.

Em Paris, perguntou para nossa amiga Katiane quando ela poderia dormir na casa dela, já no primeiro dia de chegada de nossa amiga na cidade luz. Não conseguindo uma resposta, perguntou no outro dia, depois no outro.  De tando perguntar, chegou o dia em que dormiu, sem os pais, em outro país, na casa de outras pessoas que ela fingiu serem seus pais.

– Katiane, cê pode fingir que é minha mãe e o Moika é o meu pai?

E num outro dia voltou com Simone para casa e deixou os pais se divertindo pelas ruas da capital francesa.

Quando retornarmos para São Paulo, chamou Katiane para conversar novamente.

– Katiane, quando posso dormir na sua casa de novo? Eu só dormi na sua casa de Paris.

No entanto, às vezes quando a gente já está tão acostumado com sua coragem e independência ela recua. Embora esse diálogo tenha acontecido antes de atravessarmos o Altântico outra vez.

– Alice, tu vai na festa do Luizinho? Vai ter hellowen lá. E muitas crianças, todas pegando doces e se divertindo muito.
– Tá, mas ele me convidou?
– Sim. E a mãe dele também. Depois tu dorme lá.
– Você vai?
– Não. O pai vai trabalhar.
– E a mamãe?
– Tá trabalhando!
– Mas eu vou sozinha?
– Sim, qual o problema? Tu sempre vai.
– Mas eu não quero ir. Eu já ganhei doces na minha escola, eu não quero ir.
– Vai ser legal…
– Eu sei, mas eu quero ficar com vocês, eu não preciso mais de doces, eu quero ficar em casa com vocês…

Eu tinha achado muito estranho esse dia, mas, afinal, era dia das bruxas e quando a bruxa tá à solta as ideias mudam um pouco. Não foi, usou bons argumentos para uma menina de cinco anos. Como convencê-la do contrário?

Daí surgiu uma nova oportunidade. Num domingo fomos almoçar na casa de amigos, um almoço agradável, muitas crianças se divertindo e os adultos aproveitando o bônus “nenhuma atenção requisitada”. Alice saiu da casa perguntando se um dia ela poderia voltar e dormir ali, mais rápido do que ela poderia imaginar o convite foi feito. Fui buscá-la na saída da escola.

– Alice, sabe aquelas meninas que tu foi na casa e disse que queria dormir lá? Pois hoje tu vai lá!
– Por quê? Elas me convidaram?
– Sim.
– As duas?
– A-ham!
– Yupiiii!

Nesse dia, eu estava com o amigo Arthur, que iria me dar uma carona até a casa das meninas. Alice puxou converssava com Arthur.

– Sabia que eu vou dormir na casa de duas amigas?
– Tô sabendo, eu que vou te levar lá com seu pai…
– Ah, é! Você também vai dormir lá, pai?
– Não, vou só te levar…

Rapidamente, mudou o assunto.

– Sabia que hoje eu tô com calo no pé?
– Ah, é? Calos são legais, tem uns que nunca mais saem mas eles são legais por que mostram que a gente se esforçou!
– Nunca mais saem?
– É. tem uns que não.
– É verdade, pai…
– É, o pai tem um da guitarra, toca aqui no meu dedo.

Ela toca num calo que já virou uma verruga, pronto, o mundo da garota começa a desabar, vejo nos seus olhos que ela imagina o pé dela do jeito do meu dedo. E isso dá um pavor instantâneo.

– Mas eu não quero ter calos.
– Você quer parar de dançar? Se você parar de dançar não vai ter mais calos…

Assim resume Arthur.

Chega em casa se segurando para não chorar, mando ela pro banho, entra, e, de repente, o choro invade a sala. Mesmo com o chuveiro ligado e longe, percebo seu pranto.

– Mas eu não quero ter calos! Porque que eles não vão sair?
– Eles saem, tem uns que saem.
– Esse do meu pé vai sair? Senão eu vou ter que parar de dançar…
– Vai. Mas bailarinas têm calos, e quando tem calos é porque elas se esforçaram e o calo não é nada perto da dança… Sua professora deve ter muitos calos.
– Mas não vai sair? Nunca mais? Então eu vou parar de dançar…
– Vai sair, Alice… Não vai precisar parar.

Porém, agora ela estava triste e chega numa conclusão.

– Não quero dormir mais na casa das meninas!
– Por quê? Pelos calos?
– Não! É que eu acho que meninas mais velhas vão rir de mim porque elas não entendem que, às vezes, no meio da noite, eu quero ir na cama dos adultos…
– Mas como assim? Elas riram de ti?
– Não. Mas eu acho que elas vão. Você entendeu que eu acho?
– Mas, cara, tu só tá presumindo!
– O que é presumindo?
– É quando tu pensa que algo pode acontecer, mas sem saber, sem conhecer…
– Eu sei, mas eu acho que elas vão fazer isso. Mas a Nina e a Clara elas me entendem.
– Tá, eu te entendo, não muito nesse caso, mas entendo. Isso não tem nada ver com os calos?
– Não, é que eu não quero mais…
– Então deixa eu ligar pra tua mãe, que combinou com a mãe delas, daí tu explica…

Fiz isso, liguei e coloquei as duas no telefone.

– Mãe, eu não quero mais dormir lá.
– Mas por que?
– Porque elas podem rir de mim quando eu quiser ir pra cama dos adultos…
– Não, Alice, não é assim…
– Mas você não entende, eu não quero ir…

Nesse momento, no travessão a seguir, ela vai dar uma aula de argumentos para mim e Lucia.

– Mãe, eu já passei o dia todo fora de casa na escola. Por que eu não posso ficar na minha casa com vocês? E, mãe, eu vou te dar outro exemplo. Eu tô com tosse e não quero passar minha tosse pras meninas.

Blam! É o som do meu queixo desabando no chão.

Cheio de orgulho e, claro, sem acreditar muito no que ouvi, pego o telefone e me despeço de Lucia, que me recomenda conversar melhor com ela, abraçá-la e explicar, sim, que entendemos a escolha dela, mas que ela não precisa sofrer por antecipação.

– Cara, tudo bem, tu pode ficar em casa, não precisa ir. Mas o pai precisa saber, quando tiver um outro lugar pra dormir, a casa da Nina ou da Clara, tu vai?
– Vou!
– E se  outra vez as meninas te convidarem, as que tu não que ir hoje, tu vai?
– Outro dia eu vou, mas hoje eu quero ficar na minha casa…

Assim foi. Ficou em casa. No fim de semana passado foi dormir na casa de uma amiga, depois trouxe a amiga para dormir dois dias aqui e se divertiram muito.

A gente cria pro mundo, mas às vezes o mundo que elas querem é esse que a gente faz pra ela. Às vezes, ela só quer acordar no meio da noite e entrar nas nossas cobertas, no mundo onde foi criada.

Entendo, minha criança, e, acima de tudo, te respeito e sei que com esses teus argumentos aos 18 tu já vai estar me dando tchau dá janela de um avião ou ônibus ou até de um carro pra começar a fazer um mundo só teu, que provavelmente eu também vou querer conhecer e, quem sabe, viver um pouco nele lembrando do mundo que fizemos juntos.


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