Como guardar segredo das crianças?

Sou uma faladeira incorrigível. Geminiana, com ascendente em Leão, e mais um bocado de planetas em Gêmeos. Só consigo ficar quieta quando o segredo é dos outros. Já minha vida é um livro aberto – aberto até demais pro meu gosto. Acontece que agora preciso aprender a controlar a língua. Tenho um par de anteninhas de 3 anos de idade que vivem soltas atrás de mim, captando tudo o que eu digo, ainda que eu não perceba. É tipo um Big Brother da vida real: estou sempre sendo ouvida, monitorada e registrada. Só que às vezes eu esqueço e… pimba! Lá vem o rapazinho repetir e me jogar na cara em alto e bom som o que acabei de dizer.

Podemos jurar que não, mas as crianças – mesmo as pequenas – entendem, sim, tudo o que dizemos. E repetem. Inclusive os segredos que não gostaríamos que ninguém soubesse – nem elas.

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Nos últimos meses, passamos por um processo de difícil decisão aqui em casa: mudar ou não mudar Benjamin de escola. Eu e meu marido conversamos exaustivamente sobre o assunto, debatemos, ponderamos, ouvimos opiniões, pesquisamos. Mergulhamos tão fundo neste processo que nem nos demos conta que nosso filhote estava acompanhando absolutamente tudo. Pensamos que ele estava navegando pelo mundo infantil da fantasia, sem perceber o que se passava. Doce ilusão. Um mês depois, decisão tomada, ninguém mais toca no assunto. E Benjamin veio com a seguinte frase, do nada: “Mãe, eu vou mudar de escola, né?”. Foi um balde de água fria. Eu estava esperando o momento certo para conversarmos, queria contar uma historinha, fazer toda uma transição cuidadosa. Mas meu filho já estava muito bem informado. Eu me senti péssima, traindo sua confiança. Afinal, ele deveria ter sido o primeiro a saber sobre uma decisão que afeta sua própria vida.

Depois deste episódio, me dei conta de quantas coisas que ele deve ter ouvido por aí e ficou guardando. O que nossas crianças andam escutando? Outro dia, vi uma moça falando no celular na rua e carregando um menino, que parecia ser seu filho. Ela dizia algo como: “Fiquei tão brava que pensei em me matar”. Ainda que fosse brincadeira, o menino ouviu tudo. E certamente registrou. Uma amiga falou na frente da filha: “Minha mãe é tão chata que tem dia que não aguento nem ouvir a voz dela”.

Eu sei que às vezes desabafamos e falamos sem pensar. Certamente, a moça do celular não era uma suicida em potencial, nem minha amiga odeia a própria mãe. Entretanto, uma criança pequena que ainda não tem a capacidade de interpretar as sutilezas do discurso, leva tudo ao pé da letra. É aí que a coisa complica. Minha avó dizia que nós temos duas orelhas e uma só boca justamente para escutar mais e falar menos. Sábia vovó.

Foto: Shutterstock


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