Internet: a terra dos Smurfs Ranzinzas



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No mundo azul da internet, há o direito das pessoas odiarem e se tornarem piores. O computador é uma trincheira segura que dá muita força e nenhum limite. Dia desses encontrei um ser pequenino desse mundo azul! Era um smurf? Não. Era o, como se diz, “hater”. Eles odeiam sem nenhum pudor, julgam à vontade e são sempre detentores da razão. São a polícia do mundo, uma polícia sem rosto – e talvez isso a torne mais violenta.

No mundo azul a gente pode se meter na vida do outro. Política, futebol, religião, família, cachorro, gato, galinha. Sei porque vivo nesse mundo. Mas não odeio tanto. Nunca gostei do smurf Ranzinza, que vivia dizendo “eu odeio”. O Vaidoso eu achava muito chato (menos que o Gênio que achava que sabia de tudo). Robusto, Engenheiro, Joca – que era engraçado com os presentes explosivos – e o Papai Smurf não me atraíam, gostava mais era do Desastrado, o mais humano deles. Errava muito, caía, levantava… eu me identificava.

Saindo do bosque dos queridos bichinhos azuis que animavam minhas manhãs, volto ao mundo azul de Zuckerberg, na cidade de “Cuidarei da vida alheia land”, onde todos os habitantes desse mágico lugar saem distribuindo suas verdades, compartilhando com o mundo real e exigindo que elas acreditem e acatem.

Alice era muito pequena quando fomos a primeira vez para Santa Maria. O objetivo meu e da mãe logo que a menina nasceu era fazer a carteira de identidade dela lá na nossa cidade. Já que nasceu aqui em São Paulo, queríamos dar à menina uma “dupla cidadania”.

Nesse dia do registro geral, fomos até polícia. No caminho, muitas pessoas que nunca tinham visto um sling na vida e começaram seus julgamentos sem conhecimento…

– Ah, coitadinha!
– Que judiaria!
– Pobre criança!

Pobre criança? Como assim? Tu tá numa rede descansando e alguém passa por ti sem nenhuma ironia e diz coitado? Tu realmente sofre numa rede? O sangue subia na mesma velocidade que os comentários apareciam… Na própria polícia uma senhora começou a destilar o seu veneno.

– Pobrezinha! Isso vai machucar as costas dela…Toda torcida, coitadinha…

Minha paciência já tinha ficado pela rua, nada tinha restado.

– Coitadinha? Tu não sabe o que essa criança fez pra ficar aqui dentro… Ela tá de castigo!
– Hã?

Lucia me cutuca. Aponta uma placa que diz: “Qualquer desrespeito a um funcionário deste local é considerado desacato…”.
Ouça o que não quer e fique calado, era o que realmente dizia a placa.

– Hehehe, brincadeira… É bem confortável. É como uma rede.

A criança só tinha 3 meses de vida, eu não poderia privá-la do pai com a resposta que queria dar aquela senhora. Me acalmei, a menina foi registrada. Mas ao longo desses quase seis anos de criação muitas outras “boas dicas” apareceram na nossa frente. E, claro, temos que manter a paciência e agir com o velho e bom filtro do “entra por um ouvido, sai pelo outro”. Para mim, desculpe a grosseria, tudo parte do “eu não te perguntei” ou “quando eu precisar, ajuda eu peço”.

Mas se eu perco a paciência com uma menina doce e querida, o que dizer das pessoas que querem dar palpites na educação que eu e minha mulher oferecemos? Exercício difícil da paciência quando os palpites vêm desacompanhados de tolerância.

Todas as mães são iguais, só muda o endereço. Os pais, os filhos, as filhas, tudo igual. Não! Cada experiência nessa vida é única.

Os pais dizem que nos amam igual e o que ensinaram a todos filhos foi o mesmo. Porém, como explicar filhos serem tão diferentes um dos outros? Simples: eles são distintos e não absorvem os ensinamentos da mesma forma, porque são diferentes.

Num domingo qualquer do mês de maio, pela primeira vez fui atingido em cheio pelos haters.

Uma revista fez uma matéria do projeto que tenho com Lucia e Alice, o #aprendeblogueira, uma hashtag inocente que surgiu de uma piada. Eu sou fotógrafo de moda, participo de várias edições da São Paulo Fashion Week e, durante todas as edições, fotografei muito street style. Percebi o quanto as pessoas se montam e têm a necessidade de estar com tudo milimetricamente no lugar, combinado a calça com o cadarço do tênis, que por sua vez tem que conversar com a camiseta e essa com os brincos. Alice é diferente, e essa diferença me fez criar a série #aprendeblogueira, com toda a atitude da menina, sua espontaneidade, estilo e liberdade em se vestir.

Não critico aqui o jeito de vestir de ninguém. Prezo mesmo pela liberdade e não pela ditadura da moda, que impõe o certo e o errado. Errado mesmo é não respeitar o que a pessoas julgam ser a melhor embalagem pra ela.

Alice encara as fotos como pura brincadeira e é isso que é. Não é trabalho infantil como foi dito por uma pessoa munida de conexão, teclas e ideias ruins. Essa pessoa, sem saber, sem ler o texto publicado, partiu para a agressão chamando eu e a mãe de incoerentes. Outra, que prefiro chamar de “Nostradama”, fez uma previsão tão maldosa que me deixou pensando o quão vazia pode ser a sua vida. Sobre as fotos, ela, com sua bola de cristal, mimetizada em ecram, diz: “Depois essa criança cresce e vira uma p*** e os pais vão dizer que a culpa é da Dilma”. Felizmente, após eu perguntar se ela precisava de algum abraço, uma palavra de carinho e pedir para essa pessoa ler ou reler o texto, ela removeu o comentário.

Ninguém conhece ninguém, porém, tem o completo direito de questionar quem está diariamente tentando transformar uma criança num ser humano melhor que não fica destilando veneno via wi-fi. Somos uma geração que cresceu vendo e ouvindo o smurf Ranzinza dizendo eu odeio isso, eu odeio aquilo… E claro que a gente esqueceu todos os outros bonequinhos azuis que preferiam se ajudar e viver numa comunidade tolerante.

Confesso que, ao ler esses comentários, fui ver o perfil dessas pessoas e me vi surpreendido porque a maioria delas acredita em Jesus, mas não entendeu o que o cara falou. Esse homem – que aqui não vou julgar sua existência – pediu para nos amarmos. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. E, como li na própria internet: “Telefone sem fio é uma droga. O cara diz ‘ame uns aos outros’ e as pessoas entendem ‘matem os gays”. É uma piada, mas daquelas que, infelizmente, a gente tem que rir pra não chorar…

“Não julgais para não ser julgado”. E todo mundo entende: seja intolerante. Pois é, meu amigo, volta, porque ninguém entendeu nada.

A gente está pegando um caminho bem difícil. E, voltando aos smurfs, pode ser que a gente se perca na floresta e bata de frente com o Gargamel que, afinal, não é de todo mal. Ele é apenas um velho solitário e com fome. O meu medo maior é nos tornarmos aquele bichano do bruxo, o Cruel.


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