Machismo não é brincadeira

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Imagem da campanha #likeagirl, veja vídeo abaixo

Fico de orelha em pé sempre que percebo que tem adulto comandando as brincadeiras das crianças. Pode reparar, sempre dá boi na linha. Porque adulto é adulto e acho que seria tão melhor cada um ficar na sua, deixando a garotada criar sozinha sua própria diversão, intervindo somente quando necessário. Tenho a impressão de que boa parte das brincadeiras capitaneadas por adultos acabam passando conceitos perigosos, que não gostaríamos que nossos filhos levassem para a vida, e que entram na cabecinha deles assim, quase por osmose.

Ando implicada com essa história de meninos contra meninas. Também não gosto de polícia contra ladrão, mas aí nem vou entrar muito entrar nesse mérito porque, na boa, o critério de quem é um e quem é outro no Brasil é meio subjetivo, né. Deixa pra lá.

Mas meninos contra meninas acho meio demais. E sempre a ideia vem de um adulto. Em festinhas infantis, são os animadores que puxam a disputa com seus microfones insuportáveis (e aí eu me pergunto: por que estes discípulos genéricos de Silvio Santos existem mesmo?). Até na escola do meu filho que é super humanista, vez por outra, descobri que as professoras inventam uma competição dessas. Será que não daria para dividir as turmas de outra maneira? Com chapéu e sem chapéu, descalços e calçados, com colar e sem colar. Enfim.

Sei bem que a arte de ser mãe inclui engolir muito sapo – o mundo não é perfeito como gostaríamos e todos os dias temos que fechar os olhos para o que rola por aí, caso contrário ficaríamos loucos. Já aprendi esta lição, a duras penas. Mas menino contra menina, sinto muito, não dá.

Polarizar homens e mulheres em competições que medem força, velocidade ou coordenação, é um desserviço na educação de nossas crianças, até porque cada um é melhor numa coisa. Ainda mais incentivando o escárnio entre os dois lados, fazendo com que o gênero vencedor se sinta um degrau acima do outro.

Entendo que a maioria dos jogos, independentemente de quem são os jogadores, também incentiva a mesma coisa. Entretanto, quem prioriza a formação de uma sociedade que prevê a igualdade de direitos e oportunidades, deve olhar com muito cuidado para esta questão de gênero. Meninos de um lado e meninas de outro pressupõe, desde a mais tenra idade, que homens e mulheres devem disputar e nunca viver em parceria. Lembrando Nelson Mandela quando falava do racismo, podemos dizer a mesma coisa da misoginia: ninguém nasce machista; aprende-se.

Meu filho de quase 5 anos começou aquela fase de desprezar as meninas. Tudo o que for relativo a meninas tem menos valor para ele. Agora ele cismou de pedir um irmão, menino, porque a irmã que ele tem é menina. Na semana passada, ele convidou dois amigos para jogar futebol aqui no prédio. E eis que apareceu uma vizinha, da mesma idade deles, pedindo para entrar no time. Os meninos torceram o nariz e negaram. Ela, entretanto, propôs de montar um time oponente jogando sozinha. Três contra uma. Eu assitia a tudo achando o fim da picada, mas resolvi não me meter para ver como a história iria acabar (outra lição que aprendi com a vida: não se meta, espere!).

Muito bem. Bola rolando. Golaço. Dois. Três. Quatro. Cinco. Antes de chegar no sete a zero, para não lembrar aquela nossa estapafúrdia derrota – masculina – apitei para um descanso. A menina estava ganhando, de lavada. Era uma craque, inacreditável. A cada gol dela, eu pulava e comemorava – e meu filho ia ficando indignado, afinal nem a própria mãe torceu por ele naquele momento.

Emburrados, os meninos resolveram, então, parar de jogar. Daí foi a minha vez de entrar na partida. Chamei todos para um papo sério, papo reto. Está na hora de aprender com o que aconteceu. Aprender a perder. E, se for o caso, perder para uma mulher. Eles propuseram uma disputa desigual e mesmo assim perderam. Ela foi corajosa. Merecia aplausos e um pedido sincero de desculpas pela covardia a qual foi submetida. Meu filho chorou, me abraçou, e disse: “De agora em diante, mãe, só jogo se estiver no time dela. Vamos ganhar juntos”. Boa, garoto.

NOTA DA REDAÇÃO

Nesta semana, a campanha #likeagirl, apresentada durante o Super Bowl, nos EUA, foi uma das mais comentadas. Garotos e garotas mais velhos foram convidados a encenar ações “como uma menina” (correr, lutar, jogar uma bola). O resultado foram encenações esteriotipadas. Porém, quando meninas são chamadas para reproduzir as mesmas cenas, a situação foi completamente diferente, mostrando que o conceito negativo de fazer as coisas “como uma menina” se cristaliza na adolescência, tonando-se um insulto como forma de humilhar ou diminuir alguém. Confira a campanha:

Foto: Reprodução/P&G


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