Debaixo dos caracóis

mandela+nmagazine+cha+de+fralda+350Na mesma semana da morte do líder Nelson Mandela, um menino negro teve sua matrícula rejeitada em uma escola de São Paulo aparentemente por sua família se negar a cortar seus cabelos black power. A diretora da escola em questão solicitou à família da criança um estilo de cabelo “mais adequado”. Estamos no Brasil de 2013. Isso para quem acha que o apartheid combatido por Mandela está só na Africa do Sul. Aqui podemos até não ter a discriminação institucionalizada pela legislação, como era lá, mas temos uma política segregacionista tal e qual. Os destinos do nosso país já começam a ser traçados na maternidade. Quando meu filho nasceu, ainda no hospital, recebi sua carteira de vacinação – documento oficial, expedido e elaborado pelo governo – na qual fui obrigada a preencher a “raça” dele. Raça, que eu saiba, é humana. E só.

Esta família negra de São Paulo não está sozinha no absurdo que viveu na escola do filho. Todos os dias presenciamos cenas de discriminação dos adultos brancos em relação às crianças negras – e como educação passa de pai para filho, vamos perpetuando a miséria da discriminação racial. Um pai ou uma mãe que fecha o vidro do carro na frente das crianças quando vê um menino negro se aproximando já está dando exemplo claro e simples de racismo. Eu já presenciei na escola do meu filho, por exemplo, no auge da época dos piolhos, algumas mães procurando os bichinhos somente na cabeça de crianças mulatas de cabelos crespos volumosos. Como se estas estivessem mais propensas a piolhos do que as outras de cabelos lisos. Uma atitude claramente discriminatória, e na frente de todo mundo – pelo que eu sei, piolho não escolhe tipo de cabelo nem cor de pele.

Tenho uma amiga que teve que mudar a filha de 5 anos de escola porque a menina, que é negra e tem longos cabelos crespos, ficava com vergonha de soltar suas madeixas na classe. Benjamin, outro dia, depois de brincar com ela na praia, me disse: “Mamãe, os cabelos da Valentina são tão… lindos. Ela parece uma princesa, né?”. Fiquei absolutamente emocionada ao perceber que as princesas, no imaginário do meu filho, não são aquelas moças esquálidas e loiras de cabelo escorrido da Disney (que ele nunca viu, aliás). Princesa é a Valentina, com sua pele negra e seus cabelos cacheados – que, diga-se, é uma das meninas mais lindas que já vi na vida. A partir deste dia, o pai inventou uma série de histórias da Princesa Valentina para ele ouvir antes de dormir.

Nelson Mandela, em um de seus mais célebres discursos, disse que “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Já que nós somos os adultos, cabe a nós escolhermos o que queremos ensinar.

 

Fotografia: Jair Lanes para n.magazine (menina); sobre foto reprodução (Nelson Mandela)

 

 

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