Tosco Pai: OlimPAIadas



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Quando se é bom em algo todo mundo espera que tu não erre nunca. A perfeição tem que ser a constância. Tem sido assim com nossos atletas. Exigência máxima, só por serem atletas. Poucos conhecem a história de cada um.

Nesse momento, endireito minha coluna (espinha) e penso comigo mesmo: você não é uma vítima. Claro que as versões da história podem mudar de acordo com o narrador, não fui eu quem disse isso, apenas concordo. O narrador pode se fazer vítima ou herói. Vou fazer os dois, afinal, se o choro é livre, o texto também.

O que aconteceu comigo ontem foi curioso. Havia esquecido completamente de um ensaio, afinal, arrumei uma segunda banda. Na terça-feira, tinha o ensaio da Los Freelas de una Pauta, banda com um ano de relacionamento, formada por três fotógrafos com CNPJ porém sem carteira da OMB. Para esse dia, chamei Gessy, ela topou, paguei com uma geleia de limão siciliano feita com carinho, amor, meus punhos e claro, limão siciliano e também acúcar (afinal é uma geleia), mais R$10,00, totalizando R$ 40,00 um serviço de babá das 20 horas, até meia-noite. Gessy não precisou cozinhar, comprei uma pizza de mussarela, dessas congeladas, procurei pela mais barata que, por sorte, era de uma boa marca, acrescentei milho, requeijão, mais mussarela e parmesão, o queijo preferido de Alice, coloquei no forno, fui pro ensaio. Avisei que tinha rúcula na geladeira, tinha que ser pizza e rúcula para comer a sobremesa. Comprei duas sobremesas, uma pra cada.

– Tem que dormir que horas Ricardo?
– Vinte e duas.

Quarta-feira, natação. Acordo com telefonema de Gessy, que precisa ir para os lados da natação da Alice e me ajuda levando ela. Acordo, apronto a menina, Gessy chega, elas vão. Meu corpo diz:

– Cara, tu tem uma hora, te atira na cama, dorme uma hora.
– Não, preciso trabalhar, tenho que enviar umas fotos e fico pronto. Durmo depois da perua…

Sento para trabalhar e não tenho internet. Preciso de internet para sobreviver. Já sem forças para continuar vivendo, utilizo o 3G do meu celular, crio uma rede, faço todas minhas entregas, perco tempo e energia nas redes sociais, finalizo meu trabalho.

– Dorme agora… Tu tá sozinho em casa.

Meu corpo querendo a cama, a preguiça me domina, deu alto nível no meu teste vocacional, luto e resisto.

– Vou pro banho.

Saio. Continuo sem internet.

– Como o meu dia vai ser completo se eu não ficar reclamando nas redes sociais?

Preciso fazer o almoço. Faço. Escolho carne, sei que alice vai pedir frango. Mas vou fazer ela desfiada, na pressão fica bem macia. Panquecas de milho, ela não gosta muito, eu sei, quase ninguém gosta, só eu. É meio sem graça mesmo. Elas chegam, são quase 11.

– Pai, posso assistir TV?
– Ó, pode, mas não vai ter de noite.
– Tudo bem.

Continuo sem internet.

Queria assistir o hipismo. O primo de Lucia tá lá, disputando medalhas e ela foi in loco assistir. Vai que ela aparece na TV, é sempre ter alguém do outro lado da televisão pra ver.

Invado a televisão.

– Alice, deixa o pai ver um segundinho aqui… Ó! Alá! É teu primo.
– O Duda?
– É.
– Ele é seu primo?
– Não. Bem… É, mas não é, ele é meu primo porque é da sua mãe. Ele é mesmo primo da tua mãe.
– Mas é meu primo?
– Sim.
– Posso pegar o controle?

Perco o controle.

– Bah, mano! Sério? Tu não pode esperar? Dividir um pouco? Que egoísta.
– Ai, pai!
– Ai, Alice.

A prova acaba. Uma falta, quatro penalidades. Isso no hipismo, mas aqui em casa também, sou juiz rígido.

Vou pra cozinha.
Ela fica na sala.

– Alice! Vem almoçar.
– É frango?
– Não! Eu faço frango no jantar. O pai comprou frango. Mas tinha que fazer essa carninha antes do vencimento.
– Tá.
– Ela tá desfiada, bem macia, pra comer com a panqueca de milho.
– Acho que não quero panqueca de milho.
– Come um pouco amor, fiz uma bem pequena. E essa não fiz com leite, fiz com creme de leite. Que tu adora.
– É…

Fala um “é” cheio de entusiamo.

– Pai! Já sei. Se eu comer tudo posso comer frango de sobremesa! Né?
– Hahahahahahaah

Chegou a perua. Remédios tomados, dentes escovados. E não dei frango de sobremesa.
Acho que vou dormir.
Tem jogo de futebol, 13 horas, Olimpíadas e Copa do Mundo acabam com o dia do ser humano.

O jogo termina e minha casa tem internet novamente. Posso me manter acordado. A rede social me lembra do ensaio com a nova banda.

Preciso de uma babá.
A resposta não vem.
Arrumei.

Volto 21 ou 22.

– Se a alice tiver fome antes de tu chegar?
– Dá bolacha pra ela, com manteiga ou requeijão, mas diz pra não comer muita.
– E como faço pra pegar ela?
– Vai lá embaixo e pega, ou só abre a porta e acende a luz do corredor, ela vai falar “pai”, daí tu diz, “nããão, é o Fábio”…
– Tá…Vai lá.

A partir daí, eu sumi pro mundo, ninguém sabia de mim. Meu celular desligou, estava com trinta por cento de bateria quando encostei do lado da bateria. Deve ter desligado devido ao número de ligações recebidas. O motorista da perua ligou para Lucia. Ninguém me achava. O interfone estava mudo, não avisou que morreria. Fábio não ouviu porque não tocou, eu não ouvi porque estava tocando.

Pensei em Alice esperando por mim e nada, ficando preocupada, já se passavam 10 minutos desde que ninguém me achava, nem nas redes sociais onde sou muito presente.
Teve quem pensou que eu saí para uma corridinha noturna e tivesse sido atropelado.

Estava tudo bem com Alice.

Voltei para bateria. Depois fui buscá-la na festa da baterista da banda que ela toca. A criança já tá indo em balada com as amigas! Lá o abraço dos amigos e um sonoro.

– Tu tá vivo.

Coisa boa. Que sentimento bom.

Alice brincava com um amiguinho. Tava bem. Me deu um abraço bem carinhoso. O dela com alegria e um pouquinho de saudade, o meu de alívio.

– E aí, cara, esperou muito?
– É, teve alguém que me esqueceu né?

Achei que tinha feito tudo certo, tudo correto, uma prova perfeita, mas não ganhei medalha. Gosto de medalhas.

Nesses dias que chamo de Kramer vs Kramer, quando a mãe viaja e ficamos só nós, ou quando viajamos só eu e Alice, eu me dou por conta que as provas individuais são muito mais difíceis, exigem maior esforço, a modalidade que eu mais gosto é revezamento. E nem tanto a vitória, a premiação, gosto mesmo é do reconhecimento.


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