Na orelha dos outros é refresco

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Não me incomoda nem um pouco quando confundem minha filha Estela, de 7 meses, com um menino. Não me sinto ultrajada, nem ofendida. Sei lá, acho que bebês são como anjos, não têm sexo definido. Nestes casos, limito-me a responder (sem mau humor) que é uma menina. Pronto. Se ninguém me perguntar, não vejo necessidade nenhuma de falar.
 
Apesar de gostar de ver minha filha sempre bem arrumadinha, não tenho o hábito de pendurar mil badulaques nela. Acima de qualquer estética, o que vale aqui é o conforto. Tenho horror a laçarotes e faixas que parecem apertar a cabeça da criança, sapatos que impedem os movimentos e não contribuem em nada para alguém que ainda não anda, ou vestidos cheios de babados que sufocam. Ganhei (e ainda ganho) milhares desses adereços, que fui descartando ao longo dos meses.
 
Pelos seus traços delicados, Estela dá pistas de que é uma menina, sem que seja preciso transformá-la numa árvore de natal. Um olhar mais observador poderá sacar de primeira, sem dramas. Entretanto, as marcas mais óbvias, que nossa sociedade considera como diferenciadores de gênero, ela não tem. A começar por um par de brincos cravados nas orelhas.
 
Esta simples atitude de não tascar-lhe os ditos brincos já me rendeu reações inflamadas, com o perdão do trocadilho infame. Talvez porque muita gente que acredita que não haja mal nenhum em furar a orelha de um bebê não entenda por que diabos é preciso respeitar a opinião (e o corpo) dos outros.
 
Resolvemos não furar a orelha da Estela por dois motivos: primeiro simplesmente porque dói pra burro. Só não sentiria nenhuma dor se o bebê fosse uma boneca não dotada de terminais nervosos. Uma vez que é um ser humano, sente a mesma dor que eu sinto. O que dói nela, dói em mim. Causar mais essa dor em alguém que acabou de chegar num mundo um tanto hostil, cheio de sons, cheiros, barulhos, injeções e vacinas, seria demais.
 
Em segundo lugar, penso que não seria de bom tom, digamos, cravar uma marca permanente no corpo da minha filha sem sequer consultá-la antes. Eu uso brincos e adoro usá-los. Considero-os lindos adornos. Mas e se ela não achar a  mesma coisa quando crescer? E se achar cafona? Vai ter que carregar uma marca na orelha pro resto da vida de algo que não a agrada? Prefiro esperar que ela cresça para que possa resolver o que fazer com seu próprio corpo.
 
Apesar de ter  saído da minha barriga, minha filha não é uma extensão de mim. Entender que ela pode (e deve) ter opiniões e gostos contrários aos meus é uma questão de respeito. Talvez no futuro ela não goste das roupas que escolhi pra ela, ou do corte de cabelo, mas aí fica fácil mudar. Duro é apagar um buraco na pele.
 
Eu tenho quatro furos nas orelhas – sem contar um piercing que doeu tanto que seis meses depois de muito sofrimento resolvi arrancá-lo para sempre. Meus furos são de minha total responsabilidade. Se a Estela assim decidir, iremos juntas fazer seu furinho. Caso contrário, paciência. Afinal, a orelha é de quem mesmo?

 

Fotografia: Mark Mordecai

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