Tosco Pai: Orgulho da independência



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A primeira vez foi num 27 de janeiro. Aquele que muitos não querem lembrar, mas sabemos que está gravado para sempre na memória. Naquela vez ela ficou 15 dias em Santa Maria e desviou as nossas famílias um pouco de toda tristeza que a cidade sentia.

Eu já tinha voltado pra casa no dia seguinte. Estava em São Paulo e ela lá, feliz na cidade que ama e onde nasceu o amor meu por sua mãe.

Voltou para o carnaval junto com sua avó. Fui buscá-las no aeroporto e notei como ela estava grande e falando tudo muito bem. Suas frases já estavam cheias de sentido.

Ela não chorou – ou quase -, mal perguntou sobre os pais, apenas aproveitou suas férias.

Quando deixei ela lá, nitidamente deixei um pedaço de mim. Senti a mesma dor no peito e nó na garganta dos meus 9 anos, quando decidi ficar em Santiago na casa de minha madrinha, deixando meus pais voltarem sozinhos para Santa Maria. Eu tinha escolhido ficar, mas meu coração só batia dizendo “eu quero minha mãe, eu quero meu pai”. Era domingo. E a gente sempre fica, naturalmente, muito mais triste num domingo. Liguei, ouvi a voz dela e o nó se desfez, mas chorar na frente dos primos seria um erro. Então, engoli, mandei um beijo e fui ao banheiro lavar o rosto, convencido de que ninguém tinha notado.

A primeira vez que posou fora de casa – com seus nove meses, eu acho -, todo mundo sabia que eu estava com medo, não ela…

Na sua primeira vez na escola, essa angústia voltou no meu peito. Ficava lá no período de adaptação que a escola mente que é para criança, no entanto, a gente descobre no primeiro dia que essa adaptação é para os pais mesmo.

Então, me adaptei a não vê-la 3 vezes por semana, depois todas as tardes e, agora, deixo de manhã e busco no fim da tarde… Todos os dias.

A escola me proporcionou o primeiro gosto de saudade. E o prazer de acabar com ela, pontualmente, às 17:30. Buscar uma filha na escola é umas das experiências mais fascinantes que tenho vivido.

Aos poucos, as pessoas foram convidando Alice para passar um dia fora, ir no cinema, dormir em suas casas, e a menina vai, feliz e tranquila.

Já foi pra praia sozinha, saiu com os amigos, deixou os pais em casa, voltou dois dias depois.

Tudo sem medo aparente, sem choro, nem saudade.

A palavra assusta ela, a palavra é forte, quando ela ouve se emociona, sabe o peso e o significado que tem.

Num domingo, mais precisamente no dia 15 de junho, fomos tomar café da manhã com muitos amigos. Um outro casal de amigos iria raptá-la por algumas horas nesse mesmo dia, dois deles iriam retornar para o litoral e queriam muito que ela fosse, não sabiam se ela ia querer, se ia ficar com eles sem chorar.

Perguntaram.

Anteciparam o assunto, sem dar muitos detalhes e a menina, claro, gostou da ideia.

No fim do dia, ela chegou, cheia de presentes. Um deles em especial, o peixe…

– Ei cara que peixe é esse…
– É meu pet… Ela se chama Manoela.
– Mas esse peixe é menino…
– Não é não, pai, é menina, seu nome é Manoela…
– Tá bom, mas é…

Deixa de ser chato, Ricardo Toscani. É um peixe chamado Manoela. Simples.

Alice levou Manoela para seu quarto, deu comida, se despediu de seus amigos que lhe deram muitos presentes e o peixe Manoela e a porta fechou.

Agora, o outro casal se preparava para ir embora, o motorista dormia, mas ela foi acordá-lo.

– Bruuuuno…

Nesse momento, a tia Dydy, conversa com ela.

– Você quer ir para a praia com a Dydy e o Bruno?
– Quero. Meu pai e minha mãe também vão?
– Não agora, eles vão depois… Eles vão trabalhar, mas logo, logo vão lá te encontrar…
– A tia preta e o Fábio vão?
– Depois também, mas agora somos só nós e a Tereza.
– Tá bom… Mas minha mãe e meu pai vão me encontrar…
– Vão…

Ela estava decidida, tinha garantias que seus pais iriam depois, ela só ia na frente, e Alice tem uma fixação por chegar em primeiro.

Eu já tinha comprado muito suco de uva, suco de chocolate (explicarei esse nome numa próxima coluna), sardinha e  batatinha frita para ser entregue depois de uma semana de bom comportamento. Também bolachas doces e salgadas, todo um pedaço do cardápio Alice.

Na televisão, seria a estreia da Argentina na copa. Queria ver, não consigo nutrir esse ódio brasileiro pelos hermanos. Queria vê-los entrar em campo. Porém, mais importante que isso era a hora de dar tchau pra minha pequena que eu sabia que não veria por uma semana… E talvez quando eu voltasse a vê-la já não estaria assim tão pequena. Passa rápido mesmo, a gente não acredita quando nascem e nos dizem: “aproveita, eles crescem rápido demais…”.

Eu achava que era uma papo de velho, mas, não, é a mais pura verdade. Quando a gente percebe, eles já estão viajando sem os pais…

Ela entrou no carro, levou consigo sua bandeira do Brasil e alguns brinquedos. Levou filmes e o meu pendrive com episódios de “Apenas um Show”, nosso desenho preferido.

Abraçou e beijou muito a sua mãe e, depois, foi a minha vez.

Não me largou tão cedo. Me abraçou forte e dava um beijo na minha bochecha que era uma mordidinha sem dentes…

O carro partiu e ela seguiu dando tchau, seguiu abanando.

Deixaram a frente de casa por volta das 19 horas. Já era meia-noite e eu não sabia da minha guria.

Comecei a virar um monstro. Deitava na cama e não dormia, tentava sms, whatsapp, telefone, email, facebook, instagram, e nada. Nenhuma resposta de onde estariam e como estavam.

O monstro foi se apoderando, minhas unhas foram crescendo, o pelo foi se ouriçando, os caninos se desenvolveram, a coluna ficou arqueada, minhas mãos encostavam o chão, eu já começava a espumar pela boca, já passava da meia noite, era quase 01:00 da manhã…

Eles estão bem, chegaram no destino…

Pouco importa para o monstro que já começa a destruir tudo letra por letra numa discussão de whatsapp. Sabendo que está sã e salva, ele adormece…

Ela está longe, mas está bem, junto de amigos muito queridos…

Os dias em casa estão silenciosos e, por vezes, até preguiçosos. Dormimos tarde, acordamos mais tarde ainda.

Num outro dia, dormi por 12 horas. Não lembrava desse gosto tão maravilhoso, mas o sabor que essa menina dá na minha vida é tão grande que dormir 12 horas é muito bom, mas não tem o mesmo gosto da presença dela nessa casa, da alegria e da paz barulhenta que ela traz.

Os dias passaram, era sábado, 21 de junho. Dessa vez Lucia foi embora, foi encontrar Alice. Fiquei sozinho em casa, pela primeira vez completamente sozinho. Sem a minha gatinha, sem a minha filha já há seis dias. Isso até já tinha acontecido, mas agora era a primeira vez que eu olhava pro chão e a minha cachorra não estava mais nos meus pés, me encarando dizendo “tô aqui e daqui a pouco temos que passear”, ou, do mesmo chão, me olhar e com os olhos falar: “deixa eu subir na cama”.

Agora é só eu e um peixe chamado Manoela.

Trabalhei durante todo o fim de semana. Trabalhei gripado, o que muda muito o foco da saudade. A gente sente mais quando coloca a chave na fechadura e abre a geladeira. O celular virou um grande amigo, maior do que já é. Era dele que vinham as gravações que elas faziam e isso me animava em todos os lugares onde eu estava.

No domingo, recebi a visita de um amigo. Ficamos longas horas conversando sobre essa arte de ser pai, de como fomos filhos. Esse amigo, que para não citar nomes vou apenas chamar de Silva, é pai novo, sua filha tem poucos meses, mas também foi pai novo, com 19 anos, sua outra filha tem 14. Conversamos sobre o crescer, o fazer parte da intimidade, ser o colo e o aconchego anti-ruído – por mais barulhento que seja ou esteja o mundo. Entre os muitos assuntos que falamos, o que mais ficou na minha cabeça é o de que estou criando Alice para o mundo, mesmo sabendo que vou chorar muito quando ela for embora, do mesmo jeito que meu pai chorou quando soube que eu viria para São Paulo e me entregou uma cuia de chimarrão aos prantos.

No entanto, o que digo para mim e para os outros, é que quero, acima de tudo, ensinar a minha filha a se defender, ter orgulho das suas escolhas…

– E como ensinar isso?

Me pergunta o amigo…

Simples, preciso alimentar sua auto-confiança e ver nessa distância, que cada vez pode nos separar devido as nossas escolhas, aumentar o nosso amor e, principalmente, me orgulhar com toda sua independência.


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