Tosco Pai: o que é um “pai de férias”?



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Olá! Não escrevo há tanto tempo. Volto a escrever simplesmente para dizer que sou um pai de férias e sobre como é incrível e formidável ser um pai de férias.
A gente viaja, conhece lugares novos, visita os livros de história, fica cheio de energia e volta a ser criança descobrindo essas novidades.
Ser um pai de férias é estar encantado com sabores, cores, paisagens, arquitetura, sotaques.
Nessas férias eu vi muitos pais de férias, e me vi muito neles.
Em Coimbra, num lugar chamado Portugal dos Pequenitos, vi um pai, igual a mim, sozinho, com o filho, fotografando o passeio. Vi outro, um pai japonês, fotógrafo também, ele foi muito paciente, ensinou o filho a descer escorregando uma barra de metal, esqueceu o seu tripé.
Segui ele e devolvi o objeto, trocamos olhares de admiração mútua.
Ele me viu ensinado Alice do meu jeito.

– Pai, eu quero descer, mas não consigo.
– Cara, tu precisa de coragem.
– Mas e se eu cair?
– Vou tentar que tu não caia.
– Mas, pai, ai que dúvida!
– Alice, desce, encara ou desiste, a luz tá caindo e a fila atrás de ti aumentando, decide agora, mas se for pra pensar mais, deixa quem tá atrás de ti descer primeiro, afinal, tu já tentou descer nesse faz tempo e o que falta é coragem. Se ela vai demorar pra chegar, que tal aproveitar a luz do dia em outros brinquedos?

Mas adiante, vejo o primeiro pai fotógrafo numa briga entre homens. Ele, um homem baixo – afinal eu estava no Portugal dos Pequenitos. Do outro lado, o garoto, um menino que parecia ter sete anos, nove se muito, forte e com raiva.

Desviei o olhar e me desviei com Alice, feliz e preocupado. No caso do feliz, explico:  nunca passei desse limite com Alice. Preocupante, sim, porque já cheguei bem perto do limite, que tenho consciência de que é pequeno.

Dias antes, na praia de Matosinhos, expliquei isso para ela, depois de jogarmos bastante frisbee, ela foi molhar o pé, mas me pediu antes. Alice é um doce de criança que sabe seus limites e testa os meus.

– Pai posso molhar o pé na água?
– Acho melhor não, Alice, vamos ver com a tua mãe, tu tava tossindo. Porém, se a gente for, na hora que o pai chamar pra sair, tem que sair.

Na praia, chegam mais amigos. Tomás conta pra ela que o mar é muito gelado.

– Você precisa molhar seu pé.

Promessa é dívida. Nesse caso, a tosse já não vem mais ao caso.
Alice cobra.
Molhamos os pés, frio, ela gosta, ri, descobre o novo, o outro lado, pisar no mar oposto ao dela, a outra ponta do Atlântico. Quantas vezes eu criança no litoral gaúcho não pensava isso, eu na beira do mar estava olhando para a África e que alguém na África me olhava.

– Alice, vamos sair!
– Mas, pai…
– Cara, sério, falei antes da gente entrar que era sem “mas pai…”
– Tá.

De algum jeito, vejo Alice saindo da água e tocando “sem querer” a mão na areia se sujando, chutando areia com o pé molhado só pra voltar ao mar e lavar de novo.

– Qual é, Alice? Tu acha que eu já não fiz isso? Olha, guria, o meu limite é mais baixo, tu sabe disso, não provoca ele, tu sabe…

Limites baixos são as terras onde habitam os pais de férias.
Pais de férias viram monstros em alguns momentos.

De volta ao Portugal dos Pequenitos, estou de frente para a briga. O menino luta como se fosse um homem, o pai luta como se tivesse mesma idade e peso da criança.

Durante esses sete anos de vida dela, pensei em nunca questionar um pai e uma mãe, pois não sei exatamente o porque deles chegarem naquela situação aterrorizante e constrangedora.

A briga fere a todos, e eu consigo ver no olho do pai um desespero e sua clara figura de impotência vendo que está perdendo muito mais do que a briga, está perdendo um amigo. Na criança, vejo uma pessoa crescendo rápido demais, tendo que se defender dos golpes do pai e da própria vida. Mas eu não sei nada sobre eles. Quem está certo e quem está errado.
Até que uma mãe que via tudo como eu, segura suas filhas e pede para que o marido vá e pergunte o problema.

Alice e eu sozinhos buscamos a saída e fomos encontrar nossos amigos.

Dou uma última olhada para trás e vejo os pais conversando e o menino estendido no chão – minutos antes, durante a briga, tinha batido a cabeça tentando se desvencilhar do pai.

Durante todas as nossas férias, colocando num gráfico, não há como reclamar dela. Teve um dia que ela me olhou e, com lágrimas nos olhos, de manhã bem cedo, disse:

– Pai, eu não quero passear, quero ficar com a minha tia.

Ficou, e um dos melhores presentes que tivemos foi seus tios falarem.

– Vocês estão fazendo um belo trabalho, que criança maravilhosa.

Nossa viagem para Portugal foi maravilhosa. Amigos, jantares, família. Houve quem disse para a Alice que quando a conheceu ela não era uma pessoa, era apenas um brilho no meu olhar e no da Lucia.

Nosso retorno também foi extraordinário, senti uma saudade imensa de São Paulo, da minha casa, da minha cozinha. No aeroporto de Guarulhos, encontro outro pai de férias. Eles atravessam cheios de malas e brigando. O pai segue na frente, um filho mais atrás, a mãe e o outro filho praticamente dentro de um celular e carregando parte das malas. Quando o sinal abre, o menino do celular segue sua travessia.

– Você sai na frente e esquece de todo mundo – reclama a mãe.

Os meninos brigam entre eles, sobre a vez de cada um usar o celular, o pai entra na briga. Se esconde atrás de um pilar e dá um tapa num dos meninos, que chora.

– Olha o show que você está dando! – fala a mulher para o marido.

Olho pra Alice, olho pra Lucia, olho pra mim. Me vejo ali, guardadas as devidas proporções novamente. Sou, sim, um pai de férias, um pai que perde a paciência rapidamente, que se esquece do que é ser criança. De exigir, às vezes, um comportamento de adulto de um ser de apenas sete anos. O bom das férias é que o aprendizado é longo, intenso e pra toda a vida.

Que comecem as aulas!


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