O lado bom do cansaço

Por TATIANA CHIARI*

Outro dia, uma amiga-mãe deu bronca numa amiga-não-mãe na minha frente. A amiga-não-mãe estava dizendo que não poderia nos encontrar certa noite porque estava muito cansada. Minha amiga-mãe foi rápida: afirmou que não dormia direito há meses por causa do nascimento da segunda filha, que estava sem babá, meio gripada, mas que ia nos encontrar de qualquer jeito. Afinal, ela disse, nossa amiga-não-mãe ainda não conhecia a nova dimensão da palavra cansaço.

Vou tentar explicar. Depois que a gente é mãe tem sempre um cansacinho ali do lado. Dificilmente você vai dormir uma noite inteira de novo. Se seu filho não acordar, você vai acordar para ver se ele está bem. Você nunca mais vai ter a cabeça ligada numa coisa só. Se está no trabalho, vai pensar no filho. Se está com o filho, vai lembrar do trabalho. Viver assim, gente, cansa…

Como a natureza é sábia, ela nos compensa de diversas formas. Sim, estamos sempre mais cansadas, mas infinitamente mais produtivas. No trabalho estou mais focada, dando menos atenção às picuinhas. Descobri que sou melhor profissional sendo mãe. E sou uma mãe melhor fazendo o trabalho que amo.

Sim, estamos sempre cansadas, mas infinitamente mais criativas. Quando sua cabeça está em dez lugares simultaneamente e você percebe que virou um polvo e consegue resolver oito coisas ao mesmo tempo, você esquece a insegurança e lembra que, sim, as ideias vão surgir. Os problemas vão se resolver. A vida vai andar. E bem.

Sim, estamos sempre cansadas, mas infinitamente mais sensíveis. No melhor sentido da palavra. Sensíveis para perceber o outro, para dimensionar os problemas, para chorar pelo triste e pelo alegre e para só ficar em silêncio se o momento exigir.

Sim, estamos sempre mais cansadas, mas infinitamente mais animadas. Não, eu não aguento balada até de madrugada porque quero estar bem quando meu filho abrir a porta do nosso quarto chamando pela mamãe e pelo papai. Mas sei aproveitar como ninguém a noite em que encontro minhas amigas para um “queijos e vinhos”. Vou durar até meia noite, uma hora no máximo, mas vou ter curtido cada minuto.

Naquela noite, minha amiga não-mãe foi a primeira a chegar àquele compromisso. Todas nós nos divertimos muito. As mães também. Porque sim, estamos sempre mais cansadas, mas infinitamente mais felizes.

* Tatiana Chiari é jornalista, repórter da TV Record e mãe de Marco, de 2 anos e meio

Ilustração BWOKAA


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