Confissão de uma tia

 Meu sobrinho tem imensos olhos verdes. É loirinho. Falante demais pra idade. Tem apenas um ano e cinco meses. Um tico de gente. E sabe a palavra preferida dele? Não. Não, mesmo. Ele é um bebê marrento. Encantadoramente do contra. Nisso somos parecidos. Ele adora um não. E eu, quando o assunto é maternidade, viro João Pedro. É Não, pra evitar questionamentos.

Ser tia é ficar com a parte boa do João. Ele adora PIPIS (passarinhos); PEPÊS (pedrinhas) . Descobre o mundo aos poucos. Acho a fase da vida mais sedutora. É quando uma gota de chuva soa como um oceano.

A gente caminha juntos pela praia, ele agarrado ao meu indicador. Chamamos o mar para entrar no baldinho de plástico. E não que é que ele cabe mesmo? Todo o mar no baldinho do João. Agora, quando na praia, de repente, a fralda enche de uma hora pra outra eu sou apenas tia. Sem qualquer habilidade para cuidar de uma criança. Trabalho sujo? Fica com os pais.

Ser tia é talvez não ter coragem de ser mãe? Vivo me perguntando isso. Coragem. A vida do avesso em questão de segundos. Tudo bem, você vai alegar. São nove meses de preparativos, a expectativa do parto. Tá, tudo bem. Mas a gente só acredita mesmo quando o bebê aparece, chorando de cara com o mundo. E aí? Precisa ter coragem e não pensar muito.

Quando vou pra casa visitar o João – minha família é de Floripa –, volto pra São Paulo com uma coceirinha. Bem que eu podia ter um João. Infelizmente, logo passa. Acho que vou fazer um acordo com a vida e entrar no ritmo do João. Quanto mais ele crescer e aprender palavras novas, quem sabe eu também amplie meu repertório de respostas à pergunta. Você quer ser mãe? Vamos, João. Cresce logo pra eu ter vocabulário além do Não. Ser apenas tia depende do João, só do João.

Michele-Oliveira-perfil


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