Saudosa garrafa, garrafa querida

A caminho do mercado, vesti ela na pressa, com o mesmo vestidinho que veio da escola e, por conta de um ventinho frio, uma camisa jeans.
O tempo todo no caminho do mercado me perguntava se eu ia ou não dar cacunda, ou melhor, garupa. Depois de muitas negativas, se conforma, mas ainda questiona.

– Porque você não vai me dar cacunda?
– Porque tem que caminhar um pouco, amor, e já já chegaremos no mercado, daí eu te coloco no carrinho e tu não precisa caminhar…
– Mas você tem que me dar cacunda…
– Amor, não tenho, dou quando posso, hoje estou com as costas cansadas, amanhã é outro dia… E pode ser um dia de cacunda.

Foi uma tarde intensa de trabalho, mais todo medo de não chegar a tempo na saída da escola, por culpa do trânsito insano de São Paulo, feliz de mim que não tenho carro, estava só de carona, mesmo assim a gente se estressa, o corpo sente e reclama.

No mercado, coloco ela sentanda na cadeirinha.
Começamos nossas compras, o assunto cacunda volta para a pauta.
Tento trocar a conversa, mas ela é sempre mais rápida, e, nesse exato, momento avista as maçãs.

– Ei, você falou que hoje ia ter maçã na fruta da manhã e não teve. Tem que comprar maçã!
– Tu tá certa.

Alice gosta de poucas frutas, come muitas a contra-gosto, morango e maçã doem menos pra ela. Outra coisa que Alice gosta é quando falo que ela está certa. Está feliz com maçãs e estando certa.

– Ei ,pai, essas maçãs estão erradas, tem verde na vermelha…
– É mesmo…

Já viro o carro para o outro lado, desconsiderando a informação, algo do tipo, esse não é o meu trabalho, e o destino é o peixe.

– Mas, pai, precisamos colocar as maçãs nos lugares certos.

Volto o carro para as maçãs. Começo a colocar as maçãs nos seus respectivos nichos.

– Paaai, eu quero colocar as maçãs…

Tento fazer ela colocar as maçãs de cima do carrinho mesmo, mas fica difícil para a menina, tenho medo às vezes de soltá-la dentro do mercado, eu mesmo na minha infância virava um monstro incontrolável solto no mercado, e olha que, segundo minhas tias, eu era das crianças mais calmas da família. Porém, numa rápida manobra decido tirá-la da cadeirinha e dar-lhe uma função: me ajudar nas compras.

A felicidade é plena, quando toca o chão do mercado e se vê livre do carrinho e com uma missão pra cumprir.
Coloca a última maçã no lugar e, nesse momento, em um grande extâse, ela repara o que está vestindo.

Coluna_Tosco-Pai_n5_2– Nooooossa esse vestido assim com a camisa ficou parecendo uma saia…
– Ficou legal né?
– É! Eu tô parecendo uma moça do avião.
– Uma aeromoça?
– Não, uma moça do avião…
– Ah, tá…
– E você pode ser o moço do avião!
– O piloto?
– Não, outro moço do avião…
– Ah, tá! Um comissário de bordo?
– É, pode ser…
– Tá, então tu me ajuda nas compras…
– Sim, precisamos de queijo parmesão, faz de conta que eu sou a moça do avião e a moça do dinheiro e você é o outro moço do avião…
– Pera aí, moça do avião e moça do dinheiro, precisamos de poucas coisas e não precisamos de queijo, temos bastante em casa.
– Ah, tudo bem… Precisamos de milho?
– Milho é uma boa ideia.

Corre feliz até o milho.
Escolhe melhor que eu…
Agora é o momento em que ela joga tudo dentro do carro e eu tenho que olhar no olho dela e explicar que temos uma lista, que precisamos ir pra casa só com o jantar e o café da manhã, traço nossos objetivos.

– Temos que pegar peixe, suco de uva, pão… Maçã e milho já pegamos.
– Presunto?
– Presunto temos…Acho que temos tudo, podemos ir embora. Vamos voltar pro carro?
– Sim…

Na fila do caixa, pra matarmos o tempo uma conversa despretenciosa, aquele papo saudosista de uma menina de 4 anos…

– Sabia que quando eu era de três anos eu tinha uma garrafa de peixe?
– Bah, eu lembro dessa garrafa, era bem legal filha, mas acho que tu tinha dois anos… Eu até falava, vamos tomar seu suco de peixe. Era bem engraçado…

A minha empolgação por ela falar da garrafa, o meu espanto por ela lembrar dela e ainda a dúvida por não saber de onde veio tal lembrança transformam o meu rosto. Estou feliz, estou orgulhoso, estou prestes a deixá-la triste e confusa…
Ao se dar conta que a garrafa é mais antiga, que era da época que ela tinha dois anos, sim, cai na presumida tristeza profunda…

Coluna_Tosco-Pai_n5_1Mareja, treme o queixinho e chora…
Os que passam pelo caixa do mercado ficam pensando o que ele fez? Porquê ele não deu o kinder-ovo ou seja lá o que for que a menininha está pedindo. Alguns acham que eu bati, outros que fui um grosso, que gritei com a garotinha.

– Eu “querio” minha garrafa de peixe? Porque a gente não tem mais a garrafa de peixe?

As pessoas em volta agora entendem, e param de me olhar com tanta raiva, só um pouquinho, pois ainda resta saber o que eu fiz com a garrafa de peixe.

– Cliente Mais senhor? CPF na nota?
– Não, obrigado…
– BUÁÁÁ, quero minha garrafa de peixe. Eu tô com saudade da minha garrafa de peixe…
– Filha, as coisas vão embora, às vezes a gente consegue guardar, outras não, aquela garrafa tava nojenta (verdade) e acho que tava até com o fundo quebrado (mentira).
– Mas eu gostava dela, eu quero minha garrafa de peixe…

Agora vou tentar uma estratégia quase infalível, vou dizer que a garrafa já estava com o bico ruim, e o suco vazava e manchava todos os vestidos dela.
Quase infalível, pois ainda ecoa no mercado o lamúrio…

– A minha garrafa de peixe, eu tô com saudade dela…
– Filha não há mais o que eu possa fazer, só tentar achar outra e eu tenho feito isso, portanto, engole o choro pois isso não vai trazer tua garrafa de volta.

Sou um tirano.

Consigo colocar todas as compras na sacola, caminhamos e a menina continua desolada.E eu fico espantado porque ela amava mesmo essa garrafa, foi difícil jogar fora. Por mim, nunca teria colocado fora, nem fui eu, e o pior: alguma coisa me dizia que esse dia ia chegar. Ela ia cobrar essa dívida. E até esse momento estava bem cara.

A tristeza é tanta que agora quem acha que eu maltratei a menina é a galera que passa pela rua, os usuários de ônibus.
Resolvo acabar com tudo, sentamos na calçada, dou um abraço nela, claro que o sono é também o culpado, afinal, já são 20:56, ainda falta jantar e tomar banho. Dou meu oumbro, ficamos ali por um tempo, todos olham para o suposto malfeitor. Explico pra ela que precisamos nos esforçar já que não conseguimos esquecer, que a cada loja que entrarmos de agora em diante vamos perguntar se as pessoas tem garrafa de peixe, e não vamos desistir até encontrar uma.

– Mas eu tenho saudade da minha garafa de peixe! Eu gosto muito dela…
– Eu sei, amor, mas tu tá entendo o que eu tô falando?
– Sim…

Coluna_Tosco-Pai_n5_3Coloco ela na cacunda, está tão triste que não tem mais forças para caminhar. Era o mínimo que eu poderia fazer.
Para de chorar instantaneamente, me sinto enganado.
Como uma menina de quatro anos pode ser assim tão esperta, inventar essa história de garrafa para andar na garupa, como pode ser tão ardilosa? Quando começo a pensar em tirá-la das minhas costas, apenas pensei, não fiz nenhum movimento que denunciasse isso, ela volta ao pranto.

– Miiiinha garrafa de peixe… Eu tô com saudade dela.

Calma Ricardo, ela tem quatro anos, não seria assim tão maquiavélica e ainda não lê pensamentos.

Chegando em casa, retiro a tristeza das minhas costas. Sim, e o nome dela é Alice. Está desolada, sem norte, sem chão, sem garrafa de suco de peixe.
Senta enquanto procuro as chaves. Encontro. Abro a porta.
Subimos ao som de soluços…

– Vamos tomar um banho?
– É banho bagunça?
– Um pouco bagunça, é mais um banho rápido enquanto cozinha nosso peixinho e nosso milho.
– Não quero peixe, só quero milho.

Imagino que realmente hoje ela não queira nem ouvir falar em peixe, muito menos mastigar e engolir um…

– Tá bem, amanhã tu come peixe…
– Porque não tem mais a minha garrafa de peixe? Porque ela quebrou no fundo? Porque ela sujava meus vestidos?
– Amor, vamos acabar com essa conversa! Vamos focar no que o pai falou, vamos agora em cada loja procurar a tua garrafa de peixe. Entrou numa loja já pergunta, é só assim pra conseguir outra, sem choro, mas com determinação. Foco. Achar a garrafa de peixe. Tá entendido?

– Em todas?
– Isso mesmo!
– Todas as lojas, todas do mundo…
– Todas!
– Sem desistir?
– Sem desistir.
– Tá bom…Porque eu quero a garrafa de peixe.
– Tá, mas acabou a tristeza, agora é menos choro e mais objetivo.
– Nós vamos achar?
– Vamos procurar…
– Mas não vamos achar?
– Primeiro procurar.

Entramos no banho, a água distrai um pouco.
Então pergunta…

– Ô paaaai, porque quando a gente quando chora também “dessoluça”?
– Quando a gente chora muito, fica muito triste a gente soluça…
– Você quando chora soluça?
– Só quando choro muito, mas muito mesmo…
– De dor?
– Dor, saudade, medo, alegria, emoções…
– É que eu tô com muita saudade da minha garrafa de peixe…
– Eu sei… Eu te entendo. Nós vamos conseguir.

Fim do banho, desenhos na televisão, eu na cozinha. Coloco manteiga e sal no milho cortadinho numa tigela e ouço de longe um chorar baixinho, com um canceriano e soluçado…

– Pobre de mim, sem minha garrafa de peixe…

O dia acaba, o sono chega. Como de costume, vai pra nossa cama às 03:59.
O novo dia começa, já são oito, ela olha pra mim e olha pra mãe e diz…

– Eu sonhei com a minha garrafa de peixe.

tosco+pai+garrafina+5

Portanto, amigo leitor, se você por acaso passar por uma loja e avistar uma garrafa igual ou parecida com a das fotos acima, compre, comente aqui, que eu compro de volta e ainda o recompenso.

Obrigado.

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