Uma história triste



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Após uma semana intensa de trabalho, o pai ainda tenta recuperar o sono perdido. É sábado, o dia foi quente, uma longa pedalada debaixo do sol das 14 horas, 13 horas, por estarmos no cruel horário de verão.

O corpo está pesado.

Na volta do ciclismo, só queria um longo e demorado banho.

Alice há tempos tenta um banho de banheira, e era nisso que eu estava pensando.
Para chamar minha atenção, a guria tem usado uma técnica muito interessante de persuasão.
Recorre ao tempo, a um passado recente, e quem tem 4 anos tem um passado bem recente.

– Paaai, faz tempo que a gente não toma um banho de banheira…
– É…
– Quando eu era de três anos a gente sempre tomava banho de banheira…

Bom, dessa vez ela não precisou usar da técnica, o simples fato de pedalar no sol e subir 45 degraus com a bicicleta no ombro já bastaram pra me convencer que nesse sábado teríamos banho de banheira.

Demoro pra encher, mas encho.
Temperatura um pouquinho mais do que morna.
Alice tem uma metralhadora de perguntas apontada pra mim e nenhum medo de usá-la.
– Por quê demora pra encher?
– Por quê essa água daqui é fria!
– Porque aqui só tem água fria?
– O pai tá esquentado mais no fogão e um pouco do chuveiro. E essa é uma torneira de água fria.
– Posso colocar minha Barbie pra tomar banho?
– Não sei, pergunta pra tua mãe!
– Mãããããeee, posso colocar minha Barbie no banho?

Não sei o que aconteceu de fato nessa situação. Elas conversaram, gatinha tem mais jeito pra explicar,
coloca sempre os dois lados, ou três, ou quantos tiverem.
Deve ter sido algo como…

“Se você molhar toda ela pode estragar. Molha aos poucos, um pedacinho, começa pelo cabelo…”

 

Imagino isso porque a menina chegou tão decidida na banheira com sua Barbie Sereia, e tão logo molhou o cabelo, já meteu toda boneca na água da banheira como se tentasse arrancar uma confissão dela.

– Olha pai, minha Barbie tá mergulhando!

Fala toda feliz e orgulhosa, segurando toda sua vontade de mergulhar, ansiosa pelo “pode entrar, Alice”.

Até que…

– Pode entrar, Alice.

Tsunami na banheira.

– Ó guria, tu te comporta!
– Tá bom!
– Tô falando sério! Banheira é um perigo… É tudo muito escorregadio…
– Por quê é tudo um perigo quando é escorregadio?
– Bah, porque fica tudo liso que nem sabão, daí num escorregão tu pode dar um “testaço” na pia, ou na torneira…
– Tá bom…

Tenho pensado nisso, como eu crio medos nela. Todos são meus, mas passo pra ela.

Entro na água, a banheira esvazia um pouco. Mentira… Tudo tranquilo.
Exceto pelo fato de começarmos a brigar por espaços.
Eu ocupo toda banheira para ter o momento que imaginei enquanto pedalava.
Ela usa do espaço como pode, até viro o relevo do mar onde nada feliz sua Barbie Sereia.
No entanto, ela chega no seu limite.
– Pai, tem que ficar sentado.
– Tá bom!
– Tem que ficar do lado do ralo, e eu desse lado.
– Humm, tá…
– Pai? Você vai dormir? Você vai dormir na água?
– Ahan…
– Tá bom, pode dormir…

O lado do ralo, tem a torneira, as minhas costas batem na torneira.

– Filha, eu posso ficar sentado, mas pra eu ficar bem sentado tenho que trocar de lado…

Olha desconfiada, mas já se imagina com dois terços da banheira e concorda.

– Ah! Tudo bem!

Trocamos de lado, fico espremido no canto, já tive o meu momento. Junto forças pra sair da água.
Alice mergulha novamente a Barbie, dessa vez escapam bolhas da elegante boneca.

– A Barbie fez pum, pai…

Rimos até constranger a boneca.

Saio do banho. Começo a fazer o almoço.
Tiro a criança do banho que implora por mais um pouquinho, mas de nada adianta, trato é trato, e combinamos que não teria “mas, mas” na hora de sair…

Almoçamos.
Sinto meus olhos se fechando, vou abrir minha boca para bocejar e a mãe abre a boca para falar…

– Preciso dar uma “sestiadinha”.

Perdi o meu momento, ela falou antes, tem o direito de dormir, afinal, eu dormi até as 11 horas.
Sem reclamar, retiro a mesa e convido Alice para ir no mercado comigo, preciso de uma caminhada para acordar.

Depois de muito tempo de compras, culpa do estabelecimento lotado, chegamos em casa.

Abro uma cerveja, ela brinca de restaurante e eu sou o seu cliente.
Ela está muito feliz servindo minha mesa.

Depois que bebi a cerveja, volto para a sala, mas ela me chama de volta, pois agora ela tem que ser a cliente e eu o dono do restaurante.
Explica por um instante tudo o que tenho que fazer e assume a personagem cliente.
– Olá, eu sou Alice.
– Olá, volte mais tarde, o restaurante está fechado!

Falo isso deitado no sofá…

– Buáááá, assim eu não vou brincaaar.
– Meu amor, isso faz parte da brincadeira, o restaurante tá fechado, ele vai abrir…
– Mas você tá deitado… Não é assim que brinca…
– Olha só, a senhora está muito nervosa, dê uma volta, já, já vamos abrir…

Sai magoadíssima, triste, abatida… Seus lábios tremem. Fica no batente da porta me olhando de canto.

– Olá! Pode entrar!

Faz um tempo, um beiço, mas logo desiste, esquece sua dor, senta e faz todos os pedidos.
Agora está muito feliz sendo a cliente no restaurante, come com o apetite que sempre sonhei.
Pede por frutas e legumes.

Ela deixa o estabelecimento.

– Obrigado, dona Alice, volte sempre. Vamos abrir para o jantar. Agora vou descansar um pouquinho…
– Sim, até logo…

Fecho os olhos, vou começar a dormir…

– Ô paaai, me dá suco de uuuva…
– Pede pra tua mãe, filha.
– Ô mãããeee, mê dá suco de uva…
– Pede pro pai, Alice…
– Mas eu pedi e ele pediu pra pedir pra você…

Lá do quarto, grito…
– Bah, gatinha, essa eu já ganhei… Dá o suco da guria!

Fecho novamente os olhos.
Eles abrem com o choro que vem da outra sala.

Levanto, vencido, eu levanto. Parece que nunca mais vou ganhar uma batalha.

– Porque ninguém mais quer me dar suco?
– Calma, eu vou dar o seu suco, você tem que aprender que não é na hora que você quer…
– Mas eu quero meu suco…
– Tá, Alice.
Interrompo eu…
– Porque você tem que dar o meu suco… Quando não me dão suco eu choro!
– Toma, tá aqui o teu suco.
– Isso é uma história triste, essa história é muito triste! Eu fico triste quando vocês não dão meu suco…

Ao ouvir isso, pai e mãe começam a rir, atitude errada.
Depois de um longo primeiro gole, Alice volta ao assunto e, claro, dá a punhalada certeira nos corações preguiçosos do pai e da mãe.

– Isso não é uma história engraçada, não é pra rir, essa história é triste.

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