Tosco pai :: Me dá um pedaço!



toscopai__-quero-meu-pedaco_0001_img_0115
toscopai__-quero-meu-pedaco_0002_ricardo-toscani-3
toscopai__-quero-meu-pedaco_0000_img_2487
toscopai__-quero-meu-pedaco_0003_ricardo-toscani-3
toscopai__-quero-meu-pedaco_0004_ricardo-toscani-2
toscopai__-quero-meu-pedaco_0005_ricardo-toscani1

Nunca gostei. Sempre foi algo que me revoltou. Sou um pouco egoísta eu sei, mas me irritava muito isso nele, traumatizei.

A mais marcante foi acho que aos 10 anos. Eu sempre comia melancia e achava maravilhosa a primeira parte, o primeiro pedaço. Um dia perguntei o que era e ele disse que era o coração da melancia. Fiquei fascinado, passei a amar ainda mais aquele primeiro pedaço, aliás, ele deixou de ser primeiro e passou a ser o último, decidi inverter a situação, o maior prazer ficaria por último. Agora era o pedaço do fim, aquele que eu comeria devagar.

O trauma se deu depois que eu separei o grande pedaço no canto do prato, comi toda melancia focado no último pedaço, pensando no coração. De repente, como se não tivesse nenhum coração batendo no peito, ele, o meu pai, pega o pedaço que esperei tanto para comer. Ele ouviu algo que nunca tinha imaginado ou ouvido antes. As palavras que saíram da boca do caçula ele com certeza não sonhou, não fez parte de suas projeções de relação entre pai e filho. Ele não poderia se defender, pois se tinha algo que como um pai gaúcho poderia dizer naquela hora era o tradicional…

– Me respeita guri!

No entanto, respeito foi o que ele não teve. E ele tinha certeza do meu contra-golpe. A conversa terminou ali, os xingamentos também.

Agora eu comia melancia com um braço por cima do prato. E qualquer outra coisa. O nervinho delicioso do contra filé à milanesa, o corinho da costela bovina, a base da coxinha, o tostadinho do queijo da torradeira. Agora era cada um por si! Sorvete também era assim. Servia o dele, eu servia o meu, daí vinha um deixa eu provar o teu. A cada lambida vinha…

– Muito bom filho! Tu sabe escolher, tá bom mesmo. Hummmm, que maravilha.

Todo elogio para a escolha dos meus sabores deixava meu sorvete menor. E o dele era de passas ao rum. Que criança come passas ao rum? O mesmo aconteceu com os pastéis que pedi na vida. Pratos em restaurante. Sair para comer com meu pai sempre foi um pouco difícil. Ver o que tu escolheu, pediu, diminuindo e muito nas suas mãos.

Lucia também já fez escolhas erradas, pediu peixe quando queria frango, daí eu assumi o peixe horrível do avião. Pensando “Quem pede peixe em avião?”. Outras vezes ela quis pedir um prato de cada tipo, pra gente dividir.

– Sério? Mas eu não quero dividir? Quero um só meu!

Outras vezes, com sugestões mais econômicas.

– Vamos pedir uma bisteca pra dois?
– Mas quem vai ficar com osso, se eu gosto de osso e tu também?

Ela, às vezes, diz que está sem fome e me pede um um pedaço do sanduíche que comprei.

– Posso ficar com essa pontinha?

Não mudou muita coisa da infância aos primeiros anos da idade adulta. Sempre tive esperanças de que quando tivesse um filho ou filha iria fazer da mesma forma que o meu pai. Essa seria minha vingança, minha doce vingança.

Claro que isso não aconteceu. Ela já veio com a genética certa. A errada tá em mim. A função dos pais é comer frio ou os restos.

Onde ela aprendeu a fazer as mesmas coisas que o avô? De onde vem esse instinto de sobrevivência? Hoje, é tudo assim, eu compro dois sorvetes. O dela com chocolate, o meu com morango. Nem pego o meu na mão ela já pergunta se pode provar. Se gosta, faz o mesmo truque do avô, não consegue devolver tão cedo. Quando é igual, ela também quer provar.

– Pai cê me compra um sorvete de cone?
– Sim.
– Eu quero esse que parece chocolate.
– Legal, eu vou pegar esse crocante!
– Posso provar o seu crocante?
– Pode, depois que eu abrir.
– É bom.
– Deixa eu provar o seu. É bom também.
– Posso provar de novo?
– Pode!
– Bom. Quer o meu?
– Não. Curte o teu que eu curto o meu.
– Posso provar o seu de novo?
– Sério, Alice? Não!
– Ai, pai, só queria provar.
– Três vezes?
– Você não diz que eu tenho que provar o número de vezes da minha idade?
– É. Digo, pras frutas. Amanhã tu vai provar as frutas? Seis vezes?
– Ai, pai…

Claro que se eu peço algo com legumes ela decide não provar por antecedência, antes mesmo já vem com um…

– Olha, eu não quero batata doce.

Teve o dia na praça que ela pediu um picolé de brigadeiro, eu peguei um de manga e, claro, ela não fez questão de provar.

– Ué, cara? Prova esse meu de manga uma delícia!
– Não, pai, o meu tá bom. Eu sei, mas prova o meu agora…

Provou, claro, pra provar algo pra mim, mas longe de provar seis vezes.

De tudo que já passei com pessoas assaltando meus pratos, a maior violência é quando colocam a mão nele e subtraem algo. Já gritei com meu pai, já gritei com Lucia, já gritei com Alice. Todos aprenderam, todos me respeitam. Meu prato é um espaço sagrado.

Há poucos dias, andando com Alice, enquanto tomávamos sorvete e ela já tinha provado bastante do meu, pensei. Deixei de lado meu egoísmo, foquei na alegria e na lembrança. Pensei nas pessoas que eu amo e no jeito delas. Pensei na alegria de estar caminhando pela avenida Paulista e meu pai lá em Santa Maria, longe, mas nessa caminhada eu estava enxergando e sentindo a presença dele, como se estivesse caminhando comigo. Ele está dentro dessa menina que eu amo muito. Embora ela tenha ficado com parte do “me dá mais um pedacinho” da genética.

Alice, Lucia e Renato, vocês são os melhores sabores da minha vida e sempre terão meu melhor pedaço, o coração.


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM:

 
Tosco-Pai-Portugal-Thumbnai

Tosco Pai: o que é um “pai de férias”?