Tosco Pai: ela tem uma banda

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Ela tem uma banda.
Nasceu dentro de uma: tava na barriga da mãe entre guitarra e líquido amniótico. Quando fazíamos o show da banda “Enquanto Miguel Não Vem” – não ela não ia se chamar Miguel, afinal nesse evento nem sabíamos que estávamos grávidos – ela veio, tinha uma playlist para sua chegada, apareceu para mim ao som de Lovin Spoonful.

Sempre a música esteve presente. No hospital, quando veio a conta do parto eu cantei Tim Maia, “quando a gente ama, não pensa em dinheiro…”. Quando chorava no trocador, eu cantava Jorge Ben, “menina, bonita não chora”. E fiz até uma canção de ninar pra ela, colocava ela no meu peito e cantava:

Tosco-Pai_Banda4“Boa noite, Alice, o céu já dormiu
O sol tirou um cochilo
Mas a lua surgiu
O vento canta suave,
As folhas dançam no tom
E você, pequenita,
Dorme com essa canção”

Funcionava, ela dormia – talvez de tédio com a letra, mas dormia.

Ela cresce, todo dia ela cresce. Faz músicas também, com Gessy ou na rua, andando comigo ou com a mãe. Fala o tempo todo e tem vezes que eu peço para ela ficar quieta, coisa que tem muita dificuldade. Nessas vezes, depois de uma resmungada do pai, ele (ou, na verdade, eu) conta trinta segundos e diz:

– Pode falar, Alice!
– É, mas você disse que queria ficar quieto um pouco…
– E fiquei, trinta segundos de silêncio já foram ótimos.

Ela volta a cantarolar, sobre planetas, poderes de gelo, amigos ou sobre ela mesma.

Aos dois anos, sua festa de aniversário foi animada por uma banda de rock. Ela pediu as músicas, ela pediu pelos seus amigos adultos.
Fizemos uma apresentação pra ela e dançou muito feliz, cantou e, já nessa idade, não acreditava mais em microfones desligados.

– Não funciona!
– Funciona, olha que microfone legal…
– Não sai voz.

Realmente, isso não funcionava mais. Ela sempre foi mais esperta que nós.

As bandas mudaram, a “Enquanto Miguel Não Vem” e a “Heleninha Roitman and the Punk Tosko Full Glass Band Project” acabaram. Minhas duas companheiras de banda formaram com mais outras duas meninas a “Quarteta”, eu com mais dois amigos fotógrafos a “Los Freelas de Una Pauta”. Alice seria a nossa dançarina. Tinha me pedido um dia para ir num ensaio da banda, dançou e encantou. A nossa banda ainda estava começando e a insipiência contribuía para nossa fase ainda não muito boa. Tínhamos tudo acertado: a entrada da menina seria o nosso sucesso, nós tocaríamos e ela dançaria, ninguém notaria nossas limitações.

Um show já estava combinado. Nós começaríamos e, depois, as meninas da “Quarteta”. Como somos freelancers, nosso baterista se atrasou um pouco para nos buscar por conta de um trabalho. Quando chegamos no local do show, Katiane, a vocalista das antigas bandas e atual “Quarteta” viu Alice e disse:

– Alice! Você tá de preto que nem a gente, parece que é da banda também.

Ela olhou pra si mesma e, sim, era da banda. Pegou um pandeiro meia-lua e assumiu o ritmo. Eu olhava de longe.

Terminou o show das meninas, agora era nossa vez. Alice deixou o palco e, muito preocupada comigo, me chamou num canto…

– Pai, você viu eu tocando com as meninas?
– Vi, cara! Tu mandou muito bem.
– É, pai, mas ó, acho que eu não vou poder dançar mais na sua banda, eu fiquei cansada com esse primeiro show e depois de vocês as meninas vão tocar de novo e daí eu quero dizer que eu não vou mais tocar na sua banda.
– Entendo…
– Eu não queria magoar você, mas você deixa? Tudo bem? Não vai ficar triste?
– Não, filha! Que legal que tu tá sendo assim bem sincera comigo.

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Eu senti um pouco, foi o primeiro “fora” que ela me deu, mas entendi: ela não pertencia aos “Freelas”, pertence a “Quarteta”, ganhou até o nome artístico de “Quinto Elemento”.

Nesse show, quem dançou fui eu, literalmente. Encarei minhas limitações, nervosismo e, quando tudo deu errado, eu dancei, como se eu fosse ela, com a alegria e despretensão da menina, sem nenhum medo de ser feliz, e assim deu tudo certo.
Quando na segunda apresentação eu a vi com um pandeiro, me vi aos seis invadindo a banda da escola que minha mãe era diretora com meu tamborzinho e tocando com os grandes, desfilando na rua da cidade. Somos o espelho um do outro.

Ela tinha apenas seis anos e agora vai fazer sete e quer uma guitarra de presente. Voa passarinho, faça suas escolhas, nem sempre estaremos na mesma banda, mas nossa turnê é longa.


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