Tosco Pai: aprendizados de praia



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Saímos de férias.
Como diria Robin, “Santa Catarina, Batman”.
A primeira praia de Alice foi aqui, diferentemente de mim, que veraneei toda a infância nas praias gaúchas. Existe uma lenda sobre a costa brasileira. Deus e Diabo estavam desenhando o mundo e:

– Ei, Deus, o que tá fazendo?
– O litoral brasileiro.
– Parou onde?
– Santa Catarina.
– Vai almoçar que eu termino.
Então, o Diabo fez o litoral gaúcho.

Mas eu amava cada cantinho daquele litoral mal desenhado, cada reta sem nenhum relevo, uma por uma das dunas daquelas praias de água marrom.

Atlântida. Lá aprendi a ouvir rock com os primos mais velhos, e a brincar de casinha com as primas de mesma idade. E com isso aprendi a lidar com o bullying dos primos mais velhos.

Rainha do Mar, as férias apenas com pai, mãe e irmão – as irmãs, já adolescentes, preferiam umas festas em Laguna. Em Rainha, a grande decepção no futebol, causada tanto pelo time que eu torço – que naquele ano foi vice do Campeonato Brasileiro – quanto pela descoberta de que eu não era muito bom no esporte bretão.

Na minha adolescência conheci a praia de Mariluz, começaram os amores de verão, e muito bullying novamente. “Tu ficou com uma gorda, tu ficou com aquela tábua, tu não pega ninguém.” Era difícil agradar todo mundo, mas eu me agradei bastante com os meus romances e aos poucos fui aprendendo a ter personalidade.

Capão da Canoa é algo como a metrópole do litoral gaúcho. Foi lá que encerrei minhas temporadas de mares gaúchos. Foi legal, nessa época já estava na faculdade, ambicionava a fotografia e falava isso pras meninas. Poucas acreditaram.

Certa vez, fui a uma festa e falei com 11 meninas, ouvi 11 nãos e decidi pular de bungee jump. Aprendi que a gente pode ficar muito feliz numa noite repleta de negativas, e que saltar olhando o nascer do sol pode ser a melhor companhia. E isso tudo ao lado dos grandes companheiros, aprendi o valor das grandes amizades.

Depois disso, Santa Catarina se mostrou para mim, primeiro a Praia do Rosa, num emocionante e festivo casamento da prima de minha mulher, depois Canto Grande, com um grande amigo, então Jurerê. E é agora que entra a Alice.

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Alice, na primeira vez que foi para a praia.

A primeira praia da guria foi quando ela tinha um ano e sete meses. Como qualquer criança, ela ficou fascinada diante da enorme caixa de areia e pouco prestou atenção no mar. Depois de brincar bastante e tentar provar um pouco dessa areia tão gostosa, Alice foi levada ao mar, e logo foi batizada com um caldo enorme, rolou pela beira e se levantou assustada. O choro deu lugar a um sorriso surpreso. Durante essa pequena temporada, Alice não teve medo do mar. Nadou e brincou feliz.

Depois, a menina conheceu o litoral paulistano, estava próxima do seu terceiro ano de vida. Nessa temporada, Alice decidiu não entrar no mar. O medo chegou, olhava para nós banhistas e até pedia que saíssemos da água, mas não dávamos muita atenção, apenas dizíamos que ela poderia ficar na areia, e ela sempre tinha alguém para aproveitar a areia com ela.

Agora, Alice tem quatro anos e sete meses. Nosso destino foi, novamente, Jurerê. Dessa vez, a guria teria a chance de encontrar seus primos e brincar com a nova geração de sua família.

No caminho para o aeroporto:

– Mãe, eu acho que vou vomitar.
Alice sempre diz que vai vomitar, em qualquer situação, ela não definiu ainda muito bem essa sensação.
– Sério, Alice? – disse o pai, ainda incrédulo.
– Quer que pare? – disse o solícito taxista.
– Por favor!

O carro para com o por favor da mãe, e Alice confirma as suspeitas. Uma pequena cusparada, nenhum vômito.
No avião vai tudo bem. Uma boa viagem com todos dormindo.
Chegamos, pegamos nossa carona, alguns poucos quilômetros, e lá vem de novo:

– Mãe, eu vou vomitaaaaaaaaaaaaaar.

Bendito saquinho de vômito de avião, bendita agilidade da Lucia, bendito motorista que abriu os vidros pra menininha tomar um ventinho no rosto e melhorar.

Chegamos na praia, entramos no apartamento, todos estávamos com fome. Fomos até o mercado.

Alice estava bem quentinha, pensei em febre, e muito esperto que sou levei ela na minha garupa, tomando mais sol até a farmácia.

No caminho, argentinos:

– Hola! Dónde está Jurerê?
– Acá! Pero para el mar tienes que volver!
– Gracias!
– De nada!
– Ô pai, porque você tá falando diferente?
– Eu estava tentando falar com eles na língua deles, o espanhol.
– Cê conseguiu, meu!

Ela sempre me estimula!

Tomamos a medicação, primeira dose, tudo bem, dose final, um ml fatal e a guria pede água, era tudo o que precisava para ela novamente dizer que vai vomitar, e desta vez ela cumpriu sua palavra.

– E aí guria, tá bem? Entendeu a sensação?
– Ahan. Pai, eu não quero mais vomitar.
– Tudo bem, a gente tá comprando remédio pra isso, pra acabar de vez com o vômito.

A farmacêutica recomenda que ela tome muita água, principalmente água de coco. É fácil pra ela falar, mas já vejo no rosto de Alice o desespero, trocar o suco de uva pela água de coco.

Agora já está mais do que na hora de irmos para a areia, não posso frustrá-la logo no seu primeiro dia de praia.

No caminho:

– Pai, por que temos que tomar água de coco?
– Porque ela tem mais nutrientes e vai ajudar a tua flora intestinal.
Espero que ela não pergunte o que é flora intestinal!
– Mas eu gosto tanto de suco de uva, não gosto de água, não gosto de água de coco!
Ufa.
– Mas, filha, tem que tomar mais água, que nem a Lelê, sua amiga. Ela toma bastante água.
– Mas pai, você não disse que eu tenho que ser eu mesma? Que a Lelê e eu somos diferentes.
Cara, assim é difícil, são só quatro anos!
– Tá certa filha, mas às vezes nos espelhamos no bom exemplo das pessoas.
– Exemplo?
– A gente pega as coisas boas das outras pessoas e usa para nós mesmos, como beber água.

Avistamos o mar.

Alice vai pra areia, mas logo já quer o mar, aquele medo ficou lá nos seus quase três anos, agora ela é destemida, e tem um colete que está lá para protegê-la.

Ela ama o mar, diz ser uma sereia, e a todo momento pede para nadar. Eu já não aguento e minha pele torra a cada segundo, até porque passei muito pouco “protetor celular”. Minha pele e a da mamãe estão terríveis. Mas pelo menos dedicamos a maior proteção para Alice, e deu certo! A menina só arde um pouquinho. Já eu, sou um homem cozido.

A menina está se dando bem com todos os primos, porém, é com Nina que ela apresenta mais afinidade. Inclusive vai dormir na casa dela, toda feliz. Claro que, na hora em que fui me despedir, ela deu aquela tremidinha no queixinho e começou a chorar baixinho.

– Que é isso? Tu quer ficar? Não quer ir na rodoviária buscar a vovó?
– Quero sim, mas eu vou ficar com saudade.
– Mas é só uma “saudadinha”, amanhã tu já tá aqui com a vovó para irmos à praia.

Ela concorda, mas evita falar. O tema ainda a entristece. Mas logo Alice é consolada pela prima, que diz algo do tipo “confia na minha mãe”.

Pela manhã, ela já está de volta com a vovó, e com mais saudades do oceano do que do pai.

À tarde, depois que o sol já se mostra não tão forte, vamos nos banhar.

Muita diversão, muitas brincadeiras. E então Alice tem uma ideia:

– Ei pai, vamos brincar de corrida?
– Vamos!
– Quem chegar por último ganha! Ganhei!

Como pode isso, apenas quatro anos já me enganando!

Enfim, os dias têm sido maravilhosos, as tardes, as noites, as companhias e o aprendizado também. A praia ensina muito.

Alice aprendeu que sempre depois de um banho de mar sentimos uma vontade incontrolável de comer pastel. Está aprendendo que praia com primos é uma beleza, e também está perdendo seus medos.

É, Alice, tu aí perdendo os medos e eu ganhando novos. As praias estão cheias de novas experiências, e muitas águas ainda vão rolar.


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