Tosco Pai: Castigo



toscopai_pcastigo_0006__ay_5140
toscopai_pcastigo_0005_00000351
toscopai_pcastigo_0003_00000376
toscopai_pcastigo_0004_00000356
toscopai_pcastigo_0000__ay_5267
toscopai_pcastigo_0001__ay_5214
toscopai_pcastigo_0002_00000394

Tudo corria bem, faltavam 24 horas para os sete anos, havíamos feito algumas coisas durante a tarde, nada demais – as segundas frias são boas pra ficarmos em casa assistindo desenhos e comendo pipoca, desde “pequenos” gostamos disso. Tem que tirar um pouco os olhos da televisão, nos lembra a mãe (dela).

Tinhamos hóspedes Tarso e Maíra. Alice estava curtindo muito os primos. Gostou de Tarso, mas se encantou por Maíra. Café da tarde passando fresco pelo coador, pão e manteiga na mesa, alguns friambres e suco de uva, não pode faltar suco de uva para Alice. “Esse é o suco que eu gosto do suco, mas não gosto da fruta”. Palavras da mesma.

_AY_9366

Comemos todos, Alice se divertia, ria na mesa. Na minha cabeça ela exagera, grita, por vezes me atordoa, meu limite é menor. Quando esse é o problema, as fronteiras são curtas. Alice terminou de comer e, num pequeno gesto infantil (afinal, ela é uma criança e, sendo uma, tem todo o direito de ser infantil), come um pouco da manteiga da faca e, por fim, lambe a manteiga da faca e devolve para o pote. Passou da minha alfândega. A fronteira foi cruzada, os limites rompidos. Meus guardas estavam enfurecidos! Segurei o grito, mas não fui sensível o suficiente para lembrar o velho truque materno do “em casa a gente conversa”, não sou mãe, sou pai, sou Tosco Pai, e já estávamos em casa.

– Alice, tu tá de castigo!

Não tinha grito, mas tinha fúria (sempre gostei muito de manteiga, nesse dia percebi, sou, na verdade, doente por manteiga). Não houve tolerância.

– O quê?
– Vai pro quarto, cara! Chega. Isso foi demais. Que idade tu tem?
– Seis!
– Não parece. Tu lambe uma faca, arrisca cortar a língua, lambe a manteiga, tá tossindo, espirrando e devolve pro pote. Legal!

Nesse momento, eu não sabia que estava sendo desproporcional, não tinha ideia do meu descontrole, apenas me achava certo, justo e correto na punição.

_AY_9370A sentença estava dada e ela foi, cabisbaixa, para o seu quarto.

– Seis minutos pensando! Seu último dia com seis anos.

Ela, forte, sentou na cama e me olhou, nos olhamos, fixamente, dentro de cada um. Ela me enxergou antes! Ainda me achava certo, tinha a justificativa para o ocorrido. Os seis minutos passaram rápidos para mim.

– Pode sair!
– Não quero!

Falou com o olhar forte, senti o primeiro embate, um duelo, me mostrando que, sim, cada ano nossas batalhas serão diferentes. Cada ano ela está mais forte.

– Não quer?

Em mim, a figura da lei, da força, do comando.

– Não. Não quero que meus amigos me vejam assim.

Chuiiiiin! Sinto uma lâmina no peito.

Mantém a coluna ereta, me olha novamente nos olhos e me descreve em três dês – ou em três dimenssões.

Desproporcional! Descabido! Desnecessário!

Alice me lembrou que 24 horas antes eu pedi para a sua mãe que quando fosse me chamar a atenção por algo errado que fiz, o fizesse longe de nossos amigos, sem plateia, o velho e bom “em casa a gente conversa”.
Isso ajuda, é mais fácil aprender sem o constrangimento.

Eu constrangi Alice tanto a ponto dela não querer ir rever os amigos na cozinha.

– Pai, eles vão ficar chateados comigo?
– Não vão. Desculpa, Alice. Eu errei, não devia ter chamado tua atenção na frente deles, eu podia ter te chamado aqui no quarto e conversado contigo, a sós, sem plateia. Não foi nem um pouco legal o pai te colocar de castigo ainda mais na frente do Tarso e da Maíra. Tá livre, cara!

Na liberdade dela, eu me prendi. Fiquei preso no pensamento, ou na falta de… Saímos eu e a mãe, ela presenciou a cena, antes de eu ter ir falar com Alice, comentou com os primos.

– Na próxima ele é capaz de cortar a mão da guria.

Essas palavras doeram um pouco, me fizeram pensar, às vezes dói pensar, vi a figura do pai autoritário dos anos 80 que existe de mim.

– Cara, foi exagerado!
– Eu sei… Tô mal.
– Mas sério, gatinho, tem cuidar disso. Não precisa disso tudo.
– Na hora eu achei correto, não vou me justificar, não medi.
– Da onde vem isso? Teu pai, tua mãe?
– Cara, não sei, acho que não, sinceramente não lembro, isso tá em mim, me incomodou, não lembro do meu pai e da minha mãe ser assim comigo, não posso culpá-los, quem fez fui eu. Tanto que quem tá sentindo culpa, agora, sou eu.

Muita culpa.
No ensaio com a banda, a primeira hora foi difícil, a garganta apertada, sem nenhuma graça. A gente foi tocando, tocando, e eu pensando nela e no show do seu aniversário, no momento que eu ia chamá-la pra cantar comigo. Fiquei mais leve, tranquilo, parei de me culpar, esqueci o erro, me concentrei no acerto. Chegamos em casa, eu e a mãe. A guria estava aos cuidados dos avós, jogava no tablet em meu estúdio, enquanto vovó e vovô viam televisão no quarto.

Com ela sozinha, aproveitei pra sentar ao seu lado.

– Alice, olha pra mim, por favor. Vamos conversar? O pai vai dar pausa no seu jogo. Quero aproveitar que a mamãe tá aqui e te falar que eu errei muito contigo, exagerei, mais uma vez, o castigo que o pai deu, tudo que aconteceu antes, foi desproporcional. O pai tá pensando nesse erro desde a hora que saiu de casa. Tu é uma menina maravilhosa, nesses teus seis anos tu tem sido uma menina muito comportada, companheira e minha melhor amiga. E que não merecia esse castigo aos seis anos. Eu errei! Na verdade, eu é que estou de castigo. Eu vou te colocar pra dormir, ler um livro e depois vou pro meu quarto ficar pensando 36 minutos no que eu fiz.

Uma lágrima com orgulho, justiça e contentamento desceu pelo seu olho.
Para disfarçar o choro emocionado e satisfeito, descontraiu com uma piada.

– Quer dizer que eu posso te colocar de castigo?
– Isso! Pode me colocar de castigo!
– TÁ DE CASTIIIIGO Ô! (fala com pequeno sotaque nordestino)

_AY_9367

Falou rindo, embargada.

Escovamos os dentes, ela tomou seus remédios, eu peguei um livro.

Deitou, li, terminei a história, nos abraçamos, estava indo embora.

– Fica mais um pouquinho?
– Tá bom, mas só mais um pouco. Tenho que ir pro meu quarto ficar de castigo!
– Ah, é! TÁ DE CASTIIIIIGO Ô! (repete o sotaque)
– Pois é, 36 minutos.
– Pai?
– O quê?
– Posso de tar outro castigo?
– Pode, ué.
– Seu castigo é ficar aqui comigo até eu dormir.
– Isso não é um castigo.


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM:

 
Tosco-Pai-Portugal-Thumbnai

Tosco Pai: o que é um “pai de férias”?

 
kidstyling-jaquetas-pitti-thumbnail

Kidstyling :: As jaquetas mais legais da estação

 
kidstyling-thumbnail-sportwear

Kidstyling :: o espírito esportivo invade o verão!

 
kdstyling-pitti-PB-thumbnail

Kidstyling :: infância em preto e branco

 
coluna-entreletrinhas-ebook-infantil-thumbnail

Entre Letrinhas: Tem livro no tablet do seu filho?

 
thumbnail-branco-pitti-bimbo

Kidstyling :: o verão do branco!