Tosco Pai: chantagens emocionais

Tosco-Pai_AliceChantagem emocional é o forte da família. Não importa o lado, tampouco a família. Italiana, judia, espanhola, árabe, portuguesa, guarani ou tupinambá… Nesse quesito, todas são iguais, todas fazem o drama e dele extraem todo o malte para fazer a chantagem emocional.

Aqui em casa, temos o “desculpe por eu existir” da mãe, que já me irritou muito, e os meus violinos sempre tocando ao fundo de cada reclamação, além dos dilúvios em copos d’água, que tiram ela do sério. O que posso fazer se sou libriano? E o que esperar da minha filha, canceriana, signo mundialmente conhecido pelo exagerado sentimentalismo?

A internet tem me ajudado com isso. Dia desses li a frase:

“Seu signo não justifica a sua chatice”.

Tenho usado como um mantra. Seu drama independe do dia que nasceu, mas tá em ti desde o dia que nasceu.

A gente cresce ouvindo a chantagem emocional desde muito cedo. Eu ouvia abrindo os olhos a caminho da mesa do desjejum.

– Bom dia, Ricardo?
– Ah?
– Dormiu comigo?
– Não.
– Então por que não pode dar bom dia? Não ficou uma noite toda sem me ver…
– Sim. Bom dia.

No entanto, meu pai aperfeiçoou a arte.
Não sei como ele era com minha mãe, não lembro, mas dos meus doze anos e pelo menos até os trinta ouvi muito do outro lado do telefone, como uma voz pseudo-chorosa lamuriando:

– Filho desnaturado! O pai aqui cheio de dor e tu some, não dá sinal de vida!
– Mas, pai, eu tô aqui na Lúcia.
– Mas eu não tenho notícias tuas!
– Pai, eu disse que ia dormir aqui…

Também gostava dos telefonemas Santa Maria-São Paulo:

– Filho ingrato! Não sente saudades do pai?
– Sinto!
– Não liga pro pai! Só quando precisa de dinheiro.
– Mas, pai, eu tava trabalhando, desculpa. Mas se tu sente saudade também pode me ligar.
– Tu vai precisar daquele dinheiro?

E foram muitos outros diálogos começando com “tu não dá bola pro teu pai”, “tu só quer saber dos teus amigos e não pode tomar um mate com teu velho pai”.

Ah! Lembrei de mais uma.

– Olô! (meu pai gosta de falar OLÔ quando atende)
– Alô, seu Renato, o Ricardo tá aí?
– Não, acho que ele não mora mais aqui, tenta lá no Carlão, liga pra lá, tem o número? Anota aí! Diz que o pai mandou um beijo.

A genética, bem como os modelos, passam de pai para filho. A herança do drama é forte. Tanto que minha irmã mais velha é formada em Artes Cênicas, porém, é a que menos faz drama, foi a primeira a abandonar o lar e a brigar contra o machismo dentro de casa. Sempre teve o dom mais pra comédia. Mas falava sério quando precisava. Minha outra irmã, talvez por ter a versão feminina do nome do meu pai, puxou bem mais o drama. Começa muitas frases com:

“Cadinho, Deus que me perdoe, mas tu fica mais de um mês sem ligar pra gente!”
“Credo, guri, liga pro pai de vez em quando.”

Já meu irmão, canceriano que nem a sobrinha, expõe seus drama através do:

“ Tudo eu! Bah! Sempre sobra pro cara.”

Eu já disse lá em cima. mas reitero aqui: sendo o caçula, vi, ouvi e aprendi todos esses dramas.
Sem saber, pois faz parte da gente. Vamos reproduzindo com namorada, amigos, parentes, com nossos pais e irmãos. Todas as relações.

Há pouco tempo, saímos eu e o Fábio para buscar Alice numa festa. Cheguei lá e a criança não quis vir comigo. Tento convencer, explico que o Fábio está esperando no carro, no entanto, tantos amigos e atrações atrapalham qualquer possibilidade de negociação. Depois de inúmeras despedidas e uma cara triste – afinal, minha aparição numa festa para ela significa que esta acabou -, ela vai ter que usar a carta mágica.

“Deixa eu ficar mais um pouquinho vai?”

Essa carta tem todos os poderes, modular a voz, marejar os olhos, entortar a cabecinha, ficar mexendo a perna. E por mais carrasco, durão e autoritário que eu seja, não tenho escudo para isso, só tenho armas.

– Tá, Alice, sério, agora vamos!

A gente vai. Para isso eu prometo milkshake e fliperama num outro dia.

– Que dia?
– Um dia.
– Amanhã?
– Pode ser…

Consigo então que ela me acompanhe
Não satisfeito, eu faço o drama.

– Quando tu entrar no carro, pede desculpas para o Fábio, tá?
– Por quê?
– Ué, por acaso tu gosta de esperar? Não acha chato? Um tédio?
– É…
– Tu acha que ele deve ter gostado? Pede desculpas.

Fábio abriu a porta.
Ela entrou.
Ele deu oi.
Ela deu oi.
Eu pigarriei…

– Ran ran!
– Que foi?
– Não vai pedir desculpas pro Fábio?
– Desculpa…
– Por?
– Por te fazer esperar…
– Sem problemas, Alice, sei como é, quando a festa tá boa a gente não quer ir embora.
– Tu sabe, Fábio, que acho que ela não gosta do pai dela. Passou o dia sem me ver, ficou quatro horas aqui brincando e não quer ir pra casa comigo.

Ela mareja os olhos e a velha tremidinha no queixo começa.

– Eu gosto de você sim! Você me magoou!

Vendo o estrago, me vendo como o meu pai e sentindo em todo o corpo o golpe baixo da chantagem emocional, peço desculpas.

– Desculpa, amor, foi uma brincadeira de mau gosto.
– Muito mau gosto! Muito mau gosto mesmo!
– Eu sei, reconheço, me desculpa.
– Você quando diz que eu não gosto de você, você quebra meu coração.
– Desculpa!
– Desculpo! Mas eu não gostei!
– O pai fez errado! Desculpa mesmo.

Mudamos de assunto, teve o silêncio, o reconhecimento do erro e agora decidimos se iríamos ou não até o supermercado.

– Gente, se vocês quiserem ir no mercado, podem ir, mas me deixem em casa, o papai tava certo, eu me diverti bastante, estou cansada, só quero ir pra casa dormir.

Guria esperta.

– Que é isso, cara? Vai no mercado com a gente, sim.
– Mas pai… Eu não quero. Tô cansada.
– Cara, as vezes a gente não quer ir em certos lugares, mas vai pra acompanhar uma pessoa que quer muito ir.
– Sério?
– Sim, eu não queria ir na tua festa junina da escola.
– Como não? A festa tava ótima. Você não se divertiu?
– Me diverti, mas isso foi porque eu fui, mas eu queria ficar em casa vendo filme. Preferia um programa só meu.
– E por que você ficou na festa?
– Por ti, porque a mamãe cansou e eu deixei ela ir embora pra ficar contigo até o fim.
– Mas você prefere ver filme do que ficar com a sua filha?

Eis que o feitiço vira contra o feiticeiro. Mais rápido do que eu esperava. Alias, nem esperava e mal pude me defender. Apenas consegui dizer que nem sempre estaremos juntos, mas eu vou sempre torcer pra que ela esteja se divertindo muito e que o reencontro até possa ter aquela cara de posso ficar mais um pouquinho, desde que a gente fique sempre bem e de bem.


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