Tosco Pai: como eu conheci sua mãe



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Nesse exato momento ela não sabe disso, sabe apenas que precisa levantar e encarar toda uma plateia que ri dela. Ela caiu na apresentação de patins de sua escola. Do outro lado, um menino da sexta-série ri como todos os outros do seu tombo. Ela será mãe de sua filha, mas ele também não sabe disso. Ele apenas ri, como todo colégio reunido dentro do pavilhão da escola, o Instituto de Educação Olavo Bilac.

A mãe da Alice levanta, encara a todos, olha pra frente e segue sobre suas rodas.

O tempo passa e eles avançam algumas séries. Ele agora está na oitava, ela na sétima, ele chega numa festa, onde tem pouca gente, uma festa armada, arrumada para beneficiar uma menina e o amor que ela sentia por um colega de sala. Ele cai na armadilha, ele beija a menina e a mãe da Alice vê esse beijo, ainda desajeitado, é o primeiro dele. Na despedida, os amigos da sua irmã vão buscá-lo na tal festa, na rua Tuiuti, mesma rua da mãe da Alice. Ele dá mais um beijo desajeitado na sua primeira garota e é ovacionado pelos amigos da irmã. Ele ganhou a noite. Provou para os mais velhos que era um homem. Era chamado por eles de secretário. O menino que saía com eles, buscava a cerveja, servia o chimarrão e até buscava cigarros, mas eles não deixavam ele fumar.

Ele muda de escola, ela tem mais um ano na mesma. Ele acampa numa fila para conseguir vaga no ensino fundamental – na época que estudou chamava-se segundo grau. Faz pulserinhas pra vender, posa todas as noites na fila, está entre adultos e quase sente que é um. Bebe, ri e pensa que é hippie, já assistiu o filme Woodstock, abandonou o heavy-metal e o pop anos 90 e agora escuta admirado os anos 60, 70 e muito blues. Aprendeu a tocar gaita de boca. Já toca numa banda.

Sempre desajeitado com as mulheres, é no segundo ano do segundo grau que começa a despertar interesse nas coleguinhas. Mas está longe de ser um Don Juan.
Faz seus próprios amigos, parou de sair com os mais velhos, agora tem companheiros com a mesma idade, mesmos interesses e as mesmas frustrações. São felizes com elas.
Com eles comia cachorro-quente de uma carrocinha que ficava na frente da casa onde a avó de Alice morava. Eles não sabiam um do outro, mas estavam nos mesmos lugares.

Ele se formou.

Rodou no primeiro vestibular, só fazia cursinho, tinha mais tempo para não fazer nada. Ela ainda estava no segundo-grau, era da comissão de formatura das turmas de 97, organizou toda uma festa.

Ela se formou.

Ele foi na festa e ficou novamente com uma menina que ele já tinha namorado quando estava no segundo ano. Agora era um veterano, e as meninas olhavam diferente.

Rodou no seu segundo vestibular, prestou para publicidade porque falhou no teste de aptidão para Desenho Industrial.

Ela passou no primeiro, em desenho industrial, turma de 1998.

Ele voltou ao teste de aptidão, inclusive estudou para o teste, dessa vez passou, e também no vestibular. Com sua pontuação, dessa vez só não passava em medicina. Ficou feliz, raspou a cabeça, pintou o cabelo de roxo porque namorava uma menina que gostava de roxo.
Dia da matrícula. Eles, que sempre estiveram nos mesmos lugares, agora trocam olhares pela primeira vez. Matriculado. Usa uma camiseta vermelha e uma bermuda branca, ela o pega pelo braço, se olham.

– Vem, bixo!
– Opa, vou sim…

Tenta ser galanteador…

– Esse já tá domesticado…

Ele ri. Quem cala consente, quem ri assina embaixo.
Pela primeira vez – sem serem suas tias – é rodeado só por mulheres. Olha pra ela, olha para as outras, no entanto, sempre volta pra ela.

– Que lugar tu passou?
– Quinto…

Ganha um cinco na testa, tinta no rosto, batom nas pernas…

– Só não suja a bermuda, por favor. É do meu irmão…

Elas riem, e acatam. Afinal ele não ofereceu resistência.
Volta pensativo. Fica estranhamente pensando nela, e nas outras, mas mais nela, e na namorada que gosta de roxo.

Ele é depilado no trote, não grita, nem reclama.
Passam na perna e ele não sente nada. Não reclama.

– Grita, bixo!!
– A!
– Sério que não tá doendo.
– Não!
– Que bancar o machão…
– Não! É que não dói mesmo. Mas se tu quer que eu grite, eu grito. AH, TÁ DOENDO… Mas não dói mesmo.

Eles se encontram na festa de boas vindas para os bixos. Ele toca gaita de boca, ela o chama de Evandro Mesquita, ele gosta da piada, ele gosta ainda mais dela.
Sempre que o via na faculdade, quando falava com ele, o chamava de Evandro.
A mãe da Alice caminhava balançando os cachinhos do cabelo, às vezes com as mãos nos bolsos, usava uma calça jeans grandona, às vezes uma bem surrada, um casaco azul da Adidas e um relógio de bolso.
Um dia ela passou por ele e viu as horas, já ele passou horas pensado nisso.

A namorada dele terminou. Ele chamou ela de gorda, história complicada, eles voltaram, ela ficou com outro cara, e o atual só se referia a ele como Anna Júlia, hit brasileiro do ano 1999.
Ele chorou, ficou triste, se sentiu um nada, um alguém sem carinho, se sentindo sozinho afogado em solidão…

Oh Anna Julia aaa aaa aaa
Oh Anna Julia aaa aaa aaa

Então voltou para os amigos, os cigarros e para jogatina de video-games, truco e pôquer por cigarros. Voltou para a gandaia.
Um dia ele voltava pra casa ao entardecer e a mãe da Alice passou de carro por ele, estava com o cabelo todo enroladinho, mais cacheado do que nunca. Estava num carro branco, de carona com a Tia da Alice. Viu rápido, o suficiente mas continuar com ela na cabeça por mais uma semana.

Adorava a turma das veteranas, uma mais bonita que a outra. Sabendo que ela tinha namorado, resolveu escrever uma carta de amor para a segunda que ele mais gostava, mostrou para suas colegas e elas acharam melhor ele nunca mandar a tal carta. Assim o fez.

Depois ficou com uma que ele flertava nos tempos do cursinho, quando voltavam de Porto Alegre, tinham ido à Bienal de Arte, ele sabia tocar Anna Júlia. Ele cantou pra ela uma música de improviso… E para a menina do cursinho.

Numa outra vez, encontraram-se num churrasco. Ela estava com uma cara de que já não estava mais namorando. Na hora de ir embora, pegaram carona no mesmo carro, na verdade era um Fusca. Ela entrou em casa, ele fechou a porta do Fusca e suspirou…

– Como ela é linda! Bah, acho ela muito gatinha!

Um dia foi fazer um rock com os veteranos, levou sua guitarra e de novo sua gaita, foram até a casa do Neni Bittencourt, tocaram, depois foram tomar cerveja, na hora da cerveja ele volta a falar das veteranas…

– Bah as gurias da turma de vocês são muito lindas…
– É…
Todos concordaram…
– Mas quem tu acha mais bonita?
– Pra mim, a Lúcia, na mesma proporção que é arrogante é bonita…
– Não acho…
– Arrogante ou bonita?
– É… É bonita, mas nem tanto…
– E ela é muito gente fina…
Acrescenta outro.

Nesse dia, ele descobriu que não é só o peixe que morre pela boca…
Ele abriu os olhos do outro.
E eles namoraram.
O pai de Alice foi abordado no corredor da faculdade e o outro disse.

– Cara, obrigado, sou o homem mais feliz da vida…

Hora de ir embora, virar a página, vem aí o ano 2000.
Serei veterano. Vou dar trote.

Foram para um congresso na Bahia nesse ano, ela namorando, ele sozinho.
Lá não se viram ela estava acompanhada e ele foi bem menos sozinho.

Ele era bom em fazer coisas estúpidas para encerrar o ano, queimou a mão de um colega ateando fogo numa lata de cola, por sorte não queimou o rosto. Colavam maquetes. Uma brincadeira burra, que depois de um enorme susto lhe rendeu um olhar de carinho, um consolo e um estamos aí.
O tonto que estava acoçado, sozinho no canto da sala 1142, sentiu-se muito melhor com o sorriso dela.

No clima bola pra frente, ele levantou também, o ano 2000 tinha sido bem difícil, encerrado de uma maneira desastrosa, mas 2001 seria o ano de uma nova odisseia.

Natal, ano-novo, nada demais, mas o carnaval, esse sim foi legal. Numa terceira noite beijou seis mulheres e na última, se casou, escolheu a mais diferente, uma menina que parecia a Liza Minelli.
Namoraram por um mês!

Começa o ano na Universidade e ela passa com o mesmo jeans, a mesma jaqueta, o mesmo relógio de bolso. Ele pergunta as horas. Ela informa e segue sem olhar pra trás.

– Cara, como ela é linda, pena que tá namorando!
– Que eu saiba, não tá mais…
– Sério?
– Aham…

Tem festa dos calouros, a namorada diz que é melhor ele ir sozinho, eles podem se encontrar depois na outra festa…
Ele chega na festa com esperanças, leva a gaita, e quando canta My Girl olha pra ela.
Eles conversam, falam amenidades.

– Sabe o que eu mais gosto em ti? O teu estilo… Principalmente o teu relógio de bolso e tua jaqueta Adidas…
– Ah é? Vou pedir pra tu ir lá em casa falar com a minha mãe e as minhas irmãs… Elas acham horrível…

Usava uma calça jeans azul escuro e uma camisa com bolinhas de bilhar.
Ele vai buscar uma cerveja.
Volta e ela não está mais lá…
Mas conversaram bastante. Ele pensa em não fazer nada, só quer conversar, afinal, namora agora um cosplay de Liza Minelli.
Precisa encontrá-la, mas não se encontram.
Ele vê a mãe da Alice.
Resolve arriscar, pode ser que aconteça uma guerra, um escândalo, mas aposta suas fichas…
Eles se beijam. Resolvem ir embora, ele diz que não pode dar as mãos. Ela entende. Caminham, dobram a esquina e se dão as mãos. Ela o convida para entrar, ele não quer, então sentam na frente da casa dela, ele massageia seus pés.

Eles não se vêem no sábado, nem no domingo. Ele enxerga ela em tudo o que vê.

Não vai na aula na segunda, precisa ir na casa da Liza Minelli. Ela fez um bolo pra ele, ele deu um bolo nela.

A mãe da Alice oferece um chocolate para ele no corredor da faculdade, era terça-feira, ele diz “não, obrigado”, ela organiza uma festa numa sexta, dia 30, e convida ele.

Ele vai, ele bebe, está nervoso, encontra ela, sente um frio na barriga, entra no banheiro, vomita, lava sua boca, coloca 5 chicletes dentro dela, sai do banheiro, pega outra cerveja e se beijam novamente… Até a cerveja esquentar.

Quarta-feira, dia 4 do mês 4, ele está no ponto de ônibus em frente da biblioteca da universidade, ela sempre pegou aquele que para no ponto da Praça Bombeiros. O ônibus se aproxima, e ele, muito dado a apostas, faz a que vai mudar a sua vida.

– Se ela estiver dentro do ônibus a gente vai ficar junto pra sempre.

Fala consigo mesmo.

A porta abre, ele entra, olha pra frente e vê o casaco azul da Adidas. Pensa que pode descer, mas, não, ele quer embarcar. E embarca.
Ele acompanha ela no banco, eles decidem ir ao cinema, eles passam por uma espécie de parada gay, que só tinha sete integrantes…
Ele toma coragem.

– Me dá a mão? Porque assim não vão me confundir e nem me incluir na parada…

Ela ri e dá a mão, em vão, ele sai na foto, é o oitavo gay no protesto contra o shopping que expulsou dois meninos que se beijaram na praça de alimentação.

Assistiram O Náufrago.

Daí pra cá, estão felizes, já estiveram tristes, namoraram à distância, com base apenas na confiança mútua e longínqua.
Ela não queria ser mãe, ele queria ser pai, mas não tinha certeza.
No dia 6 de dezembro ela notou algo estranho, um enjoo diferente, não era mais o que ela queria, mas, sim, o que o mundo quis lhe dar.
Chorando na cama, num dia 12 de dezembro, decidiram que essa era a hora.
Ela tomou as rédeas, como sempre, ela foi forte, como no dia em que caiu na frente de toda escola com seus patins, levantou, encarou a plateia e seguiu. Desse mesmo jeito decidiu ser mãe
Escolheu amar incondicionalmente, escolheu o parto normal, não escolheu trabalhar em dobro, mas o fez e faz com maestria.
Num dia 19 de julho nasceu Alice, nasceu a mãe da Alice, nasceu eu.

Nasceram também cafés na cama num segundo domingo de maio, nasceu força de vontade de passar uma noite acordada para cuidar da filha quando ela está doente, nasceu uma pessoa que consegue de maneira heróica salvar o tapete colocando rapidamente um prato embaixo do vômito da filha, nasceu a mãe que costura uma fantasia de sereia em 24 horas, porque prometeu para menina. Que assiste e explica tudo sobre Star Wars, quem são os droids, quem é Darth Vader, Palpatine, os Jedis, Yoda, Obi-Wan Kenobi e Luke Skywalker, e joga rock band dos Beatles com ela.

Nasceram novas brigas e muitos “Me desculpe meu amor”, para ambos.
Nasceu uma mulher que me deu colo numa banheira sem água depois da morte de nossa cachorra, e me abraçou de maneira tão intensa me deixando chorar todas lágrimas que ainda faltavam sair.
Nasceu a pessoa que eu desejo acordar junto todo dia e me dá forças pra levantar de madrugada e levar a Alice de volta para sua cama para voltarmos a dormir de conchinha e bem abraçados, mesmo sabendo que às 4:57 ela tentará dormir entre nós novamente.

E quando o poetinha diz, que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure. Quero apenas que dure, por toda minha vida.

Te amo, mãe da Alice.


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