Tosco Pai: Conversa fiada de uma filha amada



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No início, como qualquer criança, ela não falava.
Isso para mim era difícil. Eu queria que ela falasse. Quantas vezes eu errei por ela não falar.
Certa vez, ela chorava tanto, e eu tinha levantado tantas vezes da cama. Ela ainda mamava, mas tínhamos cortado o mamá da madrugada.
Eu ia e voltava do quarto, ela me dava o direito a três minutos de sono, e só. Então, recomeçava tudo de novo num choro estridente. Não era fome, mas eu não sabia se era dor, não conseguia decifrar.
Eu era o guarda noturno, o carcereiro que tinha que cuidar para que ela continuasse dormindo na cama dela, e de jeito nenhum deveria levá-la para a minha cama, digo, minha e da minha mulher.
Numa das vezes, tirei ela do berço de maneira abrupta, a coloquei sentada perto de seus bichinhos de pelúcia e gritei com ela. Nosso pediatra havia dito que eu poderia gritar com ela, desde que isso fosse natural. Ela poderia, sim, entender como sendo o meu pedido de socorro. Ele me disse também que o meu limiar era baixo e, em outra vez, enquanto ela dormia na consulta, ele disse:

– Ainda bem que ela dorme, pois eu acho que essa consulta é pra ti.

Mas essa é outra história… O que lembro é que nessa noite eu gritei.

– Chegaaaaaaaa!

Não funcionou, só piorei, a menininha se assustou. Andei com ela no colo e o choro não parava. Meus sentidos já haviam se perdido e a fera estava à solta. Fui virando um monstro, as veias saltando do pescoço, os ombros curvados, a real figura da tensão.
Quando minha mulher saiu da cama para dar o jeito dela, quem sabe até oferecer o peito, mesmo sabendo que poderia ser um retrocesso no processo de desmame, eu desabei.
Quando avistei a Lucia, atirei a criança no colo dela e disse:

– Toma! Não tô conseguindo!
– Gatiiiiiinho! Tu tá louco!
– Tô!
– Calma, cara, é só um bebê, ela não fala.

Lucia sempre teve que me lembrar quem era a criança nesses casos, às vezes eu ficava em dúvida. Nesse dia, percebi que todos nós temos um instinto, e ele está lá, latente, esperando a oportunidade de sair, mas é sempre muito importante que a gente não alimente esse instinto.

A besta, no caso eu, foi acalmada. E Lucia constatou que o sofrimento da guria eram os mosquitos.
Tudo teria sido diferente se ela falasse.

Logo depois percebi toda minha burrice, e tudo o que eu poderia ter perdido se Lucia não tivesse sido rápida por segurar a criança e sábia por me colocar no meu lugar.
Nesse dia, saí pela madrugada, segui o conselho de um grande amigo – e babá da Alice na época –, o Régis:

- Coloca os pés na grama, cara! Descarrega toda a energia ruim, manda tudo pro solo.

Fiz isso no caminho para o mercado. E além de tirar minha energia ruim, coloquei juízo na minha cabeça, algo como contar até 10, 20 ou até 30, se necessário.
Alguns dias depois, na consulta que era para mim, Cacá, nosso pediatra, disse que realmente precisávamos desse momento, justamente para eu entender quem era o pai Ricardo e quem era Alice.

Hoje ela fala tudo, pede tudo e diz o que está sentindo, facilitando muito a minha vida. Muito comunicativa, gosta mesmo é de uma boa conversa.
Herdou isso dos avós.
Alice puxa papo com qualquer um, ela sabe que uma grande amizade pode vir de uma conversa fiada. Com seus quatro anos, já faz suas tentativas.

– Pai, você lembra que quando eu era de dois anos eu tinha uma vaquinha de “belúcia”?
– Lembro.
– Eu nunca mais vi ela. Cê procura pra mim? Eu nunca mais tive um ursinho de “belúcia”.

Gosto de ver ela subindo no corrimão da escada cheia de energia depois da escola.

– Olha pai, eu sou uma ‘alfinista”!

Semana passada, notando que eu estava com uma cueca nova – muito bonita, diga-se de passagem –, a guria me surpreendeu com o seguinte diálogo pouco antes do banho:

– E aí, pai, resolveu colocar uma cueca hoje né, cara!
– Hã? Que é isso? Cara, eu tô sempre de cueca.
– Cê tá de cueca, é?

Primeiro a gente torce muito para falarem, depois a gente torce para que falem só um pouquinho menos. Mas, na real, eu quero essa guria assim, falando de tudo, e aniquilando com suas curiosidades, quero mesmo que ela puxe qualquer papo pra quebrar o silêncio.

Ela sabe que vai ouvir sempre de mim:

– Come logo e deixa de me enrolar.

Porém, ela sempre me enrola, pois sabe a hora certa de usar o:

– Pai, essa sua comida tá muito boa!

Ou um simples:

– Nossa, pai, como você tá bonito.

Conversa fiada de uma filha amada!


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