Tosco Pai: cresça e envelheça



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Ela pega um biscoito, aqueles compridos, na minha época se chamavam “plic-plac” hoje compro como grissini, são compridos, parecem palitos.

– Pai fingi que é um cigarro e eu tô fumando.
– Não Alice. Não vou, não quero…
– Não pai, só finge.

Esse é momento exato é que tu olha pra dentro e entende a fala rápida das antigas propagandas de cigarro dizendo: “Crianças começam a fumar ao verem os adultos fumando.”. A realidade bate na cara, para mim é normal gostar de fumar, me vejo no frio úmido do sul, fingindo que estava fumando, mas ver ela fazendo é doloroso demais. A gente não se dá por conta, mas a vida é assim, vai colocando pessoas e escolhas na nossa frente. Mas não são as pessoas que fazem nossas escolhas, somos nós, temos essa responsabilidade.

Minha madrinha, que é uma pessoa que amo muito, tem dois filhos, basicamente eles foram meus irmãos na cidade de Santiago, quando ia visitar minha avó. Depois de um curto oi, um beijo, sempre fugia da casa minha avó e ia direto para casa da madrinha, onde minha cama já estava feita. Irene sempre fumou, e é aquela pessoa que escuta bons discos, toca piano, dirige, cuida dos filhos, um exemplo. Pedia às vezes que fossemos buscar cigarros pra ela, Lelo, o filho mais velho, nunca o fez, eu e Dani, sim, então lógico que Daniel e Ricardo, começaram a fumar, não tinhámos nada contra cigarros. A culpa é dela? Claro que não, crescer nos anos 80 é que era mais complicado.

Meu tio Marcos, irmão de minha mãe deixava eu acender os cigarros dele. Meu pai e minha mãe viam? Não tenho certeza, mas eu, com meus nove anos, sabia, dizia que sabia.

– Tio, deixa eu acender!

No entando, não estou aqui para falar de cigarros – claro que Alice me ajudou a, com sua brincadeira, largar o vício mais uma vez, já tenho mais de uma semana sem. O que me assusta mais é o crescer, envelhecer, ter as própias opiniões e isso vem a cada ano. Alice começa a se despedir da primeira infância, agora para falar sua idade precisa das duas mãos. Eu, já nem com todos os dedos do meu corpo posso contar.

Envelhecer é duro, tomar decisões é sempre difícil, mas cada ano estamos melhores. Falo isso com 35, mas e aos 40, e com 70? Como farei? Acharei tranquilo envelhecer?

Aprendi a ser pai com minha cachorra. Tinha 21 quando isso aconteceu. O primeiro bicho que realmente foi meu e que dependia mesmo de mim. Foi um grande ensinamento de amor, não da dependência, mas da troca.

Paradoxalmente, aprendi a ser filho quando Baba, minha cachorra, estava no seu último ano de vida. Estava debilitada, às vezes nem queria sair de casa, outras me olhava para que eu a pegasse no colo e subisse todos os degraus com ela no meu peito. O último mês foi de dor uma terrível, e a despedida a mais amarga que já provei.

Em Santiago, vi meu pai chorando sozinho dentro do carro. Minha avó estava partindo e eu voltava da casa de minha madrinha.

Envelheci rápido com a morte da minha mãe, um ano depois da morte da mãe de meu pai, ganhei uma experiência que eu não queria, nem tinha pedido. Ela se foi com 46, logo agora que todos na televisão estavam dizendo que os 40 são os novos 30.

Um dia Alice chorou enquanto subiámos escadas, não queria que eu morresse, falávamos sobre o cancêr, ela relaciona direto com morte, sabe que perdeu a avó e a cachorra assim. Eu, atualmente, já consigo relacionar com vida. Minha irmã teve, descobriu a tempo e hoje está linda e curada. Consegui dar esse exemplo a ela.

– Alice, se o pai tiver a gente vai descobrir cedo e, descobrindo cedo, a gente acha a cura. Claro que eu vou ter que tomar todos os remédios que me mandarem, e vou fazer isso, mesmo que eles sejam mais amargos que o Clavulin.
– Argh, eu odeio o Clavulin.
– Mas ele cura. E o gosto amargo tem sabor de cura, e isso é melhor.
– É. Mas eu não quero que você morra.
– Eu não vou morrer, talvez um dia, mas o pai tem corrido, comido melhor e tem muito ainda pra fazer contigo, não é minha hora.

Parar de fumar mais uma vez melhora meu discurso, embora no dia desse diálogo ainda não tinha parado.

O choro passou, por hora esquecemos, mas minha viagem pra Santa Maria, para rever meu pai me reapresentou uma doença que procuro esquecer e dizer que não a conheço. A depressão. Essa, quando vem, é pra matar mesmo, pois mata tudo que a gente construiu nesse tempo todo que fica contando nos dedos o que aprendemos a cada ano. Meu pai anda triste, é verdade, não é a primeira vez que falo disso, porém dessa vez parece durar mais, doer mais.

Num dos momentos, que sentamos pra conversar e eu pedi um mate, ele comentou não mais estar tomando chimarrão, fez para mim, conversamos, ele desligou a televisão. Esse julgo ser um momento importante, parou para me escutar, a cada gole de água sorvido, brotavam mais dos meus olhos, chorava e ele me dizia que nem isso conseguia mais. Tive que perguntar:

– Tu tá desistindo.

Com sua cara de espanto veio um…

– Não, filho.

Envelhecer é difícil, olhar-se no espelho e ver as mudanças do tempo nos derruba – ou pelo menos tenta.

Quando me olho, vejo meu cabelo indo embora, as bolsas nos olhos, os machucados que levam mais tempo pra curar. Cair aos 23 é fácil, cair aos 35 dói bem mais, cair com 76 tem que buscar forças aonde?

Meu pai odeia o termo “melhor idade”, acha de uma mentira gigantesca, pílulas de farinha, e não se ilude com isso, pura propaganda enganosa. Concordo, porém, ainda aos 35, penso que a melhor idade é a que a gente tem, pois estar vivo ainda é mais divertido.

Alice, quero dizer que eu não sei te dizer como é ficar velho, até porque pertenço a uma geração de “Peter Pais”, a gente ainda se acha criança, ainda é irresponsável, e fica ditando regras, dando ordens, como se soubéssemos profundamente de algo. Logo, logo vais descobrir que sou uma farsa e tenho os mesmos medos que tu, até o da luz apagada. Temos medo do que a gente não conhece, e esse medo, olha que horrível, é o que nos impede de conhecer.

No domingo, 19, você fez seis anos e começou uma nova fase, com muito mais diversão. Agora, aprenderá a ler, escrever, terá um diário que vais esconder de mim, depois vai pegar ônibus sozinha, ir para consultas médicas e, quem sabe, até começar a fumar, quem sou eu pra julgar? Apenas não quero que comece, mas, como toda experência que já tive na vida, acho que podes tirar algo positivo, até de um hábito tão ruim e nocivo.

Sou teu pai, mas só te coloquei no mundo. Se prestar bem atenção – e um dia te conto melhor sobre isso –, a participação masculina é tão ínfima, tão minúscula, tão pequenina, que faz alguns homens, não todos, entenderem que tamanho não é tão importante como pensávamos, o importante mesmo é fazer muito com o pouco que temos.

Alice, um dia eu vou tirar as rodinhas da bicicleta, vou estar ali pra te segurar, em outras horas não. E, num dado momento, tu vai sumir diante dos meus olhos e ganhar a rua, sumir na curva e reaparecer atrás de mim cheia de confiança.

Dessa vez, em Santa Maria, levei teu avô no médico, como ele fez no ínício comigo. Morávamos no interior e minhas consultas eram na capital, em Porto Alegre, que ainda me assustava. Ele e minha mãe, que tu não conheceu, foram comigo na estreia. Eu tinha uns 10 anos e falei tudo, contei para o meu pneumologista todos os detalhes de uma doeança que meus pais nem sabiam direito. Eles, impressionados e orgulhosos, pararam de me acompanhar nas consultas seguintes. E a primeira vez que tive que pegar um ônibus para o retorno da consulta, suei, sofri e quase chorei na rua, mas consegui e fiz como tu faz cada vez que aprende algo novo, bradei um alto.

– Consegui!

Na consulta do teu avô tudo isso veio na minha cabeça. Um dos ensinamentos do envelhecimento é a inversão de papéis. Estava eu, vendo meu pai como meu filho, e confesso que não me senti seguro nessa posição, porém, com uma ponta de certeza que ele vai sair em breve de seu apartamento e enfrentar a rua e os medos com a mesma coragem que me ensinou a encarar. Ele ensinou, porém não sei se aprendi direito, continuo me esforçando, e é isso que importa.

Filha, quando tu nasceu, me falaram que passaria rápido. Eu já queria que tu nascesse falando, tudo pra enteder se tu estava com fome, frio, dor. Mas as coisas foram vindo rápidas, no entanto, uma de cada vez, a seu tempo, e é muito importante darmos a devida importância a ele.

Alice, eu não sei como se faz pra envelhecer e, enquanto estiver aqui, eu vou tentar aprender pra te ensinar. O que eu te peço, meu amor, é que viva, tenha experiências. Como essa de ficar sozinha em Santa Maria e deixar teus pais voltarem antes. O olhar firme e a voz decidida dizendo:

– Eu vou ficar! Eu vou dia 14 com a vovó.

Tu sabe, meu pai veio e está aqui para facilitar meu caminho, eu farei o mesmo por ti, porém tem uma boa parte dele que vais seguir sozinha, portanto cresça, apareça, envelheça.


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